Entrevistas
QUEENS OF THE STONE AGE
CANÇÕES PARA TIRAR A AREIA DOS OUVIDOS
Diz-se que não há duas sem três. Ou que à terceira é de vez. Pois sim, é verdade. Se os Queens Of The Stone Age já nos tinham dado um disco promissor, "Queens Of The Stone Age" e um disco muito bom, "Rated R", agora brindam-nos com um disco excelente. "Songs For The Deaf" é tudo o que um disco de rock deve ser: forte, enérgico, penetrante, sedutor. E, claro, "Songs For The Deaf" já é o disco do ano.

Qual a razão para o nome "Songs For The Deaf"? Estaremos todos a ficar surdos?
Josh Homme - Tem muitos significados. Em primeiro lugar, as pessoas estão a ficar surdas, no sentido e que dizem que isto ou aquilo é bom porque lhes dizem que o é. É um pouco sarcástico, porque há muita gente que faz ouvidos moucos a muita música mais artística, do estilo: esta música tem cinco minutos, não presta... Por exemplo as pessoas viam os Morphine com baixo, saxofone e bateria e diziam "isto não está certo". Pois sim... Não existem regras. Lá porque alguns dizem que sim não quer dizer que existam regras. O título vem a partir daí, e para além disso não há ninguém a tocar para os surdos por isso achámos que o devíamos fazer. (risos)

Houve alguma razão especial para escolherem Dave Grohl como baterista de “Songs For The Deaf”?
J.H. - Nós conhecemos o Dave à muito tempo e ele perguntou-nos se podia gravar connosco. Para nós ele é um dos melhores bateristas de rock do mundo. Nós temos uma formação rotativa para evitar que as coisas se tornem aborrecidas. Depois de passarmos 10 ou 18 meses na estrada precisamos de andar para a frente, tocar com outras pessoas. É divertido ter uma banda mas a partir do momento em que as coisas se tornam chatas ou se mudam ou desistimos.

Nick Oliveri - O Dave Grohl é um baterista que bate forte e essa é uma das razões porque o disco é mais pesado do que o anterior. O disco parece um camião cheio de tijolos. Estamos muito entusiasmados com o resultado. No entanto move-se em várias direcções. O nosso primeiro disco era mais pesado, o segundo é mais diversificado, e com este queremos fazer uma coisa diferente. Não é nem uma cópia do primeiro nem do segundo. É um disco totalmente novo. Não somos uma banda de fórmulas, não há uma linha constante nos nossos discos, cada tema é diferente do seguinte.

No "Songs For The Deaf" voltaram a mudar a equipa e o Chris Goss fica de fora. A ideia que se tem é que ele é o produtor da casa...
N.O. - De maneira nenhuma. O Chris Goss não é o produtor da casa, ele é apenas da casa. É como se fosse um irmão, faz parte da família desde que éramos uns putos a tocar nos Kyuss. Decerto que iremos trabalhar com ele no futuro, mas neste momento, não nos queremos estar a repetir. Uma das coisas boas desta banda é que gostamos de trabalhar sempre com pessoas diferentes. É algo que nos comprometemos a fazer desde o princípio. Quando o Josh decidiu formar a banda decidiu que iríamos ter sempre músicos novos, cantores diferentes. Não dizemos a ninguém: tu ficas durante uns tempos ou tu ficas para sempre. A ideia é conseguirmos que a banda se renove para que possa ser diferente. Agora temos o Mark Lanegan a cantar connosco nos discos e nos concertos, mas como tanto eu como o Josh cantamos, temos três vocalistas, fora os convidados ocasionais, e acaba por não haver um cantor principal.

Porque decidiram trabalhar com o Eric Valentine como produtor?
J.H. - Não podemos trabalhar com pessoas que não conhecemos. Não queremos que essa pessoa que não conhecemos nos apareça no estúdio e diga: “olá, tudo bem?”. Procuramos um trabalho de conjunto. O Eric Valentine produziu o disco dos Dwarves, e achamos que tem uma ideia do tipo de produção que queremos. Temos uma ideia clara de onde queremos chegar e a pergunta que lhe pusemos foi: “vamos nesta direcção, queres vir connosco? Queres ajudar-nos a seguir esta direcção quer venhas quer não?”

O Mark Lanegan, que faz coros em “Rated R”, tornou-se vocalista de pleno direito em “Songs For The Deaf”. O que vos levou a convidar o Mark?
J.H. - Ele foi escolhido não pelo facto de eu o conhecer há muito tempo e ter tocado com ele, mas porque tem uma grande voz, ao contrário de outros vocalistas da minha geração. Para além isso não conheço outra banda que tenha três vocalistas e é aí que eu quero chegar. Desta maneira temos mais liberdade para alterar as coisas em digressão. Os nossos concertos nunca são iguais. Temos o habito de mexer nos temas e não falo em acrescentar solos que te fazem querer vomitar. Alteramos a ordem das canções, e tocamo-las com tempos diferentes. Se durante 18 meses não fizermos isso, isto passa a ser um emprego e isto não é um emprego.

“Songs For The Deaf” é um disco mais pesado do que “Rated R”. Estão a voltar atrás, a “Queens of the Stone Age”, ou isto é mais um passo em frente?
J.H. - Nós não nos queremos repetir. Alguns dos temas têm a mesma diversidade do "Rated R". Vão desde o pesado, e aqui pesado significa pujança, entrega e não distorção, até ao pop. Muitas bandas dizem: “nós somos pesados” e só se ouve distorção. Eu acho que "pesado" pode até ser relativamente suave mas que nos dê arrepios. A dinâmica é muito importante. Alguns dos temas são mais pesados do que o disco anterior enquanto que outros são mais calmos que alguma vez gravámos. Com três vocalistas e tudo o resto, parece que vêm de várias direcções.

É curioso “Songs For The Deaf” ser mais pesado e denso que “Rated R” pois entre os dois álbuns editaram o ep “Feel Good Hit Of The Summer”, que além dessa canção de “Rated R”, trazia um original “You’re So Vague” e duas versões: uma dos Kinks e outra dos Romeo Void. Ao ouvir-se esse disco ficava-se com a ideia de que estavam a enveredar por um caminho mais pop...
J.H. - Nós adoramos os Kinks e foi por isso que decidimos gravar "Who'll Be the Next In Line". Quanto a "Never Say Never" dos Romeo Void é um tema sexy e um dos pouco de que eu gosto dos anos 80. (risos) Na verdade é um tema muito bom e tem uma frase fantástica, “i might like you better if we sleep together", que sempre me deixou de rastos. Por outro lado queríamos reafirmar que vamos tocar aquilo que achamos ser bom, sem o mínimo respeito por qualquer género musical, porque género é uma coisa para as revistas falarem, não significa nada. Só nos interessa a música e ponto final. Não quero saber se é death metal ou country.

Por falar em versões, os Queens Of the Stone Age também fizeram uma versão de “Back to Dungaree High” dos Turbonegro”, que vem incluída na compilação de tributo, “Alpha Mutherfuckers”. E o Nick participa na versão que os Dwarves fazem de “Hobbit Mutherfuckers” nessa mesma compilação. Gostavam assim tanto dos Turbonegro? [a entrevista foi realizada antes do recente regresso dos Turbonegro. N.R.]
J. H. - Nós adoramos os Turbonegro! Foi uma pena eles terem acabado. Os "denim demons" desapareceram. Que pena! (risos) Fizemos isso porque gostamos deles e não por outra razão qualquer.

N.O. - Eles eram uma banda engraçada. Para nós, e quando digo nós estou a referir-me aos Queens e aos Dwarves -, essas versões foram. uma brincadeira. Fizemo-lo para nos divertirmos e espero que as pessoas entendam isso. Eu vi-os uma vez ao vivo num sítio chamado Blue Flamingo, em Austin, Texas. Era um clube com capacidade para 50 pessoas no máximo, e acho que era a primeira vez que tocavam na América.

Apesar de com “Rated R” se terem mudado para uma editora multinacional e de “Songs For The Deaf” estar a chamar ainda mais a atenção sobre os Queens Of The Stone Age, vocês parecem permanecer fiéis ao vossos propósitos originais...
J.H. - Eu acho que há um caminho a seguir. As pessoas que nos inspiram são o Tom Waits, o Johnny Cash e a Bjork. As coisas que mais nos inspiram não são particularmente rock. A ideia é fazermos as nossas coisas, ao nosso ritmo, querendo crescer mas não explodir de repente. Isso seria quase como o beijo da morte. Não gostamos da ideia das pessoas devolverem ou venderem os nossos discos porque não gostaram. Se não ouviram não comprem, ouçam o disco na casa de amigos e comprem o disco se realmente gostaram de todos os temas e não apenas por causa do single.

Um dos vossos princípios é o de que a música é o mais importante de tudo. Que o resto, as drogas, o sexo, as brigas, são factores secundários. Mas “Feel Good Hit Of The Summer" fez com que o tema drogas passa-se a estar intimamente ligado ao nome Queens Of the Stome Age.
J.H. - "Feel Good Hit of The Summer" é normalmente é mal interpretado. Nesse temas nós não dizemos que tomamos drogas nem que não tomamos. Fala nas drogas para ver o que as pessoas vão fazer. É engraçado ver como as pessoas o interpretam, e é quase como uma piada, especialmente na América porque não usamos palavrões como “fuck”. “Fuck” é fácil de censurar, mas quando se diz “cocaine, vicodin, marijuana, ecstacy...” as pessoas perguntam: “será que devemos censurar isto?”. Na América existe uma loja chamada K-Mart que disse que não iria ter o nosso disco mas não sabia porquê. Mas depois acabaram por tê-lo à venda. Às vezes é preciso usar alguns truques. O meu avô dizia que se disséssemos "fuck" a toda a hora já ninguém ligava, mas se nunca o disseres toda a gente vai notar quando o disseres. Como músicos tratamos a música como arte e a arte deve ser, pelo menos, uma reacção. Era uma reacção o que queriam provocar com a edição em vinil (vermelho) de “Rated R”, que se chama “Rated X” e que originalmente estava para sair com um póster com imagens de genitália?

J.H. - Bem... “R” significa "restricted". Se se tiver menos de 17 anos não se pode ir ao cinema sem os pais. O “X”, claro, é para filmes considerados pornográficos. Na terra da liberdade temos todo um conjunto de regras. Existe um livros de regras maior que uma roulotte e achamos irónico que seja a terra da liberdade de expressão pois nós já fomos censurados com a capa do nosso primeiro disco. Achámos que era completamente ridículo. E temos a nossa editora e outras pessoas a tentar calar algumas coisas que dizemos. Não há nada para censurar. Porquê esconder o que quer que seja? A ideia com o nome do disco foi: “ok, nós censuramo-nos a nós próprios para que vocês não tenham que o fazer”. No fundo, deixamos os censores sem emprego. (risos). A deia, para o vinil, era termos um póster tipo o do "Frankencrist" dos Dead Kennedys, mas mais hardcore, com penetrações. O problema é que a impressão do póster era para ser feita em Inglaterra, onde as pessoas tem problemas com pénis, tipo "o meu pénis faz de mim um menino mau". É verdade, em Inglaterra faz!(risos) Ainda por cima tudo o que se via eram pilas... Por questões de tempo acabou por não ser possível imprimir o póster nos Estados Unidos. De qualquer modo, países como a Inglaterra e os Estados Unidos, que são bons na guerra mas péssimos na cama deviam rebentar. (risos).

Mas o sensacionalismo ajuda sempre uma banda a ser falada não ajuda? Veja-se o falatório que a vossa participação no Rock In Rio gerou. E tudo porque o Nick tirou a roupa...
N.O. - Uma das coisas que mais me chateou no meio disso tudo foi que isso foi transformado num escândalo. Em primeiro lugar nós tocamos música, não temos pirotecnia ou nudez em palco para atrair as atenções. Nós somos músicos e quando uma coisa dessas acontece as pessoas exageram. Não é algo que eu já não tivesse feito antes, mas não é uma coisa estabelecida. Agora toda a gente está sempre à espera que me dispa em palco. E eu faço isso se, no momento, me apetecer. Não é coisa planeada.

O impacto que o álbum "Cocaine Rodeo", dos Mondo Generator, teve na imprensa surpreendeu-o?
N.O. - Bastante! Mas fiquei satisfeito por ver que as pessoas estavam a perceber o trabalho que tinha feito. Eu gravei o disco em 97 e deixei as gravações de lado porque durante algum tempo não queria editar esse disco. Na altura liguei a velhos amigos meus que tinham trabalho comigo nos Kyuss, como o Brant Bjork, o Josh (Homme), o John Garcia e o Chris Goss, para gravarmos alguns temas que tinha escrito. Em três deles trabalhamos todos juntos e essa foi a última vez os membros dos Kyuss se juntaram. Gravamos três canções: "13th Floor", “Simple Exploding Man” (a única onde, efectivamente participam todos os membros dos Kyuss, pois o John não entra nas gravações dos outros dois) e “Cocaine Rodeo”. Para os outros temas convidei uns músicos do Texas e o disco foi finalmente editado em 2000.

Um dos temas que referiu, “13 th Floor”, foi utilizado pelos Queens Of The Stone Age em “Rated R”, com o nome de “Tension Head”. O hábito de recuperar temas de projectos paralelos é uma prática habitual nos Queens of the Stone Age, que também é seguida com temas que surgem nas Desert Sessions ("Avon" em “Queens Of The Stone Age”, “Monsters In The Parasol” em “Rated R” ou “Hanging Tree” e “You Think I Aint Worth a Dollar But I Feel Like a Millionaire”, em “Songs For The Deaf”). Que importância dão às Desert Sessions?
N.O. - Nas Desert Sessions as canções são escritas no momento, tocadas uma vez e gravadas imediatamente. Não são ensaiadas uma série de vezes, não estamos interessados em que sejam perfeitas. A ideia é: “vamos grava-las, vamos aproveitar a inspiração do momento, e se houver erros que se lixe”. É aí, na imediatez, no ignorar os erros, na quantidade de gente envolvida que reside a beleza desse projecto. Os últimos dois volumes, em que não toquei, permitem-me olhar o projecto de fora. Essa distância também me deixa à vontade para dizer que os volumes sete e oito das Desert Sessions são os melhores de sempre. O Josh editou-os na editora dele, a Rekords Rekords, porque a Man’s Ruin faliu.

J.H. - A Rekords Rekords ainda está no início, e não quero que ela cresça demasiado. Quero apenas editar arte e música pela prazer da música. Eu trouxe tudo o que pertencia às Desert Sessions e tinha ficado na Man’s Ruin. Fiquei bastante triste com o que aconteceu e por eles terem corrompido o conceito com que começaram. Quiseram crescer demasiado e tornar-se grandes e isso é um grande e grave problema. Eu sou uma pessoa leal e muitas vezes disse ao Frank Kozik para que, em vez de me dar o dinheiro que me devia, ficasse com ele e o aplicasse na editora de modo a fazer com que a Man’s Ruin continuasse. Quando as pessoas querem crescer em demasia alteram as razões pelas quais começaram as coisas, cometem erros e muitas vezes matam os seus próprios sonhos.

Hugo Moutinho