Entrevistas
QUEENS OF THE STONE AGE
DEIXEM REINAR O CAOS
Se o primeiro álbum dos Queens Of The Stone Age mostrou que havia vida para além do stoner, com "Rated R", a banda de Josh Homme prova que ainda é possível reinventar o rock.

Passaram-se nove dias e outros tantos telefonemas desde que fui escalado para entrevistar os Queens Of The Stone Age (QOTSA), que se encontram em digressão com o bendito e pavoroso jogo de palco que dá pelo nome de Ozzfest. Estou outra vez ao telefone, a perguntar por Adam, o Grande "daddy pimp" dos Queens. Veterano, de várias andanças com os QOTSA, o título oficial de Adam é: Tour Manager. No entanto, não será descabido estender as suas funções às seguintes tarefas: Publicitário, Mudador de Fraldas, Bombeiro, Despertador Andante, Diplomata, Tipo Mesmo Simpático do Reino Unido, Pontapeador de Traseiro dos Roadies, Secretário Pessoal, Pessoa Pontual, Assistente Corporativo do Procurador das Batatas Fritas. Não dúvido que Adam seja Deus. Neste preciso momento Adam está a apagar um incêndio e - Deus nos acuda - um baterista atende o seu telemóvel...

"Sou o Gene", diz Gene Troutman, o baterista dos QOTSA. Embaraçado, pois não há maneira de chegar aos calcanhares de Adam. "Posso tomar conta do recado e pedir-lhe para lhe ligar de volta?... O Josh acaba de entrar. Quer fazer a entrevista agora?"

"Na verdade...". Estive quase a dizer que me tinham dito para voltar a marcar uma data, mas não consegui ir longe. Ouvi o telefone ser roubado das manápulas do pobre Gene...

"Demasiado tarde", exclamou uma voz de baritono. "Sou eu. Como vais? Tens a tua boá posta?” Diabos me levem se não é a Abelha Mestra.

Qualquer aventura com os Queens Of The Stone Age - seja ao vivo, em disco ou à mesa de um pronto-a-comer - é memorável e fora do normal. Há que estar preparado para uma sequência de acontecimentos bizarros. Obrigam qualquer um a sair da linha para conseguir o que quer ou o que precisa deles, simplesmente porque lhes apetece. Fazem-te esperar e depois obrigam-te a trabalhar, mas a espera vale a pena. Não se trata de nenhuma conspiração para te transformar numa pilha de nervos. Nem pensar! O problema é: há demasiadas distracções e atalhos para seguir. Demasiadas escolhas. Acabarão por chegar a ti. Esperar por estes tipos é como ser-se apanhado num episódio sem fim de Seinfeld. O guitarrista/vocalista Josh Homme é o equivalente a Jerry Seinfeld. Os Queens são o seu espectáculo - o seu bébé mimado -, mas não é obsecado pela fama. Pelo contrário, prefere que muita da atenção seja dada à sua trupe de personagens excêntricas e sempre em mutação. Companheiro de longo tempo, o volátil baixista Nick Oliveri é quase um perfeito George Constanza. Perpétuamente a oscilar entre um bom-vivant e um sacana sempre a gozar com quase tudo e com um duplo cromossoma Y vestido. Peculiar? O Earthling? Dave Catching é o mais aproximado de Kramer que os Queens conseguem. Toca teclas em estúdio e conta piadas secas em digressão. Pelo menos até lhe surgir um novo projecto. Descobrir Elaine, Newman, o Nazi da Novela ou o Anão, do qual não sei o nome, na pandilha dos Queens é mais complicado, - pensando bem, o Hutch, de rabicho, mesmo que mais amável e de tamanho normal, podia passar pelo tal anão -, mas descansem que, mais tarde ou mais cedo, qualquer uma destas personagens aparecerá num concerto dos Queens. Porquê? Porque é assim que Homme quer.

"Não me espanta que, dadas as circunstâncias, digam que o Dave está fora da banda", afirma Homme. "As pessoas não entendem que não somos cinco pessoas, somos 30." Ah, o entendimento. Parte da maravilha de ver os Queens ao vivo consiste em adivinhar quem vai aparecer para tocar guitarra ou teclas. Catching está em digressão com os Ween - Brendan McNichol dos Masters of Reality toca guitarra e teclas -, por isso ele está de férias dos Queens. No mundo dos Queens, andar em digressão com os Ween é como tocar com Elvis, os Beattles e os Led Zeppelin fundidos num só. Josh não está apenas orgulhoso de Catching, está ciumento: "Meu, ele está em digressão com os Ween!" Os Queens já andaram em digressão com os Ween, mas se pudessem não paravam de o fazer. Qualquer aposta a longo prazo é um tiro no escuro. Lembrem-se, também, que os Ween são uma das mais excêntricas bandas de que hámemória. Mais conhecidos pelos seus detestáveis hábitos alimentares do que por temas onde se cruzam a pop, transformada num espectáculo de marionetes, e experiências ciêntificas.

"Também convidámos os Fatso Jetson" continua Homme. "Esses tipos são como irmãos para nós, mas tinham outros compromissos. Por isso, é mais fácil ter elementos individuais na digressão. A música deles é quase adiantada para este tempo..." O guitarrista dos Fatso, Mario Lalli, tocou guitarra e cantou com os Queens nos concertos do ano passado. "Monsters In The Parasol", co-escrita por Homme e Larry, o irmão de Mario, para as Desert Sessions, foi regravada para o novo disco dos Queens "Rated R". Mario, quando tocava com os Queens, cantou outra canção das Desert Sessions, "Eccentric Man". Que incesto! Homme explica porque regravaram "Monsters..." para "Rated R": "decidimos regravar o tema porque queriamos levar a canção a mais gente. Pensamos que era uma maneira de mais pessoas ouvirem o que se fez para as Desert Sessions e Earthlings?, que são dois projectos mais arrojados e menos conhecidos. Também foi interessante ver o que conseguiamos adicionar a essa canção num ambiente de estúdio mais sofisticado. Vamos refazer mais canções das Desert Sessions...", provoca ele, tiranto uma longa baforada de um cigarro, "mas não digo quais." Oh, diz lá... Que tal o "Johnny The Boy"? "Ah! O "Johnny The Boy" é uma canção que estamos a tocar ao vivo. Já vi que estás atento". Homme espera trabalhar numa nova Desert Session em Outubro, mas não diz quem vai entrar no disco.

Uma boa aposta de quem surgirá no novo disco é Mark Lanegan, cujas intratáveis vocalizações como convidado ("Live 'til you die-e...") em "In The Fade" são, sem dúvida, um dos pontos altos de "Rated R". Lanegan também andou em digressão com Homme quando o guitarrista fez parte da equipa dos Screaming Trees e ambos participam no mais recente disco dos Earthlings? "Human Beans". "O Mark e eu temos um entendimento comum básico", explica Homme. "Não temos pressa nenhuma. Não gostamos de apressar as coisas. É mais fácil deixar a música surgir naturalmente do que estar a forçar." O cerne da filosofia criativa de Homme é assim: a mudança é natural, por isso não a combatas. Este é o homem que, recentemente, disse à Kerrang: "Estou a tentar encontrar um nicho para este grupo de modo a poder voltar a ficar sózinho." Assim que os assentos se tornam muitos confortáveis, toda a gente se levanta e muda de cadeira.

Lançado pela Interscope após longas conversações com diversas editoras, "Rated R" é o primeiro trabalho dos Queens para uma multinacional. No entanto, esta não é a primeira experiência de Homme com as multinacionais. Os Kyuss acabaram na Elektra apenas para serem confrontados com a frustração resultante de uma incompetente estratégia de marketing - que é a regra, não a excepção - nas multinacionais. Os grandes tendem a ver aglomerados soltos como os Queens, como causadores de sarilhos pois é difícil trabalhar um produto cujos membros saem para ir em digressão com os Ween e regressam para a festa rock de ano novo em Palm Desert. A criatividade no seu melhor não é, necessáriamente, um bom negócio. Mas que se lixe. Desde que a rádio responda ao ritmo dominante, todos ficam contentes. Que assim seja. Homme parece ver a situação como uma grande oportunidade de aumentar a sua audiência, juntamente com a possibilidade de gravar num ambiente mais sofisticado.

As maiores diferenças entre "Rated R" e seu auto-intitulado antecessor - lançado na Loosegroove, a então, activa editora de Stone Gossard, sediada em Seatle - é uma gravação mais limpa. A aclamada arqueadora Trina Shoemaker foi alistada para polir o som do novo material. "Adorei trabalhar num estúdio melhor com a Trina". Enfatisa Homme. "Foi bom ter um toque de mulher. Não lhe mostrámos as vozes até à hora de gravar e ela foi obrigada a concentrar-se no momento. Queriamos que fosse uma experiência menos espontânea para ela." As vozes soam mais frescas e mais próximas. A voz de Oliveri em "Auto Pilot" é particularmente intima, tal como a de Lanegan em "In The Fade". "Ninguém acredita que é o Nick a cantar em "Auto Pilot"." Ri-se Homme. "Dizem: O Nick não consegue cantar assim. Estão tão habituados a ouvilo berrar e disparatar", que é exactamente o que Oliveri faz em "Tension Head" uma versão dos Mondo Generator. Afinal ele era o Rex Everything dos Dwarves. Os seus gritos têm pedigree. As vocalizações de Homme são, se tal for possível, ainda mais puras do que antes. Quando ele canta letras atrevidas o efeito é hilariante. É como um golfista a dizer "Nicotina, valium, vicodin, marijuana, ecstasy e álcool..." A perversa mistura entre a doce voz de Homme e a sua muito malandra guitarra atinge o auge em "Rated R".

Fazer o Ozzfest faz parte do plano para levar os Queens a mais gente. Mas há um problema. É uma chatice. "Detesto tocar às 13h00", atira Homme de bom humor. "Não sei quantas pessoas dão atenção ou entendem o que ouvem, mas estamos nesta digressão para aborrecermos as pessoas o mais possível. Somos a banda que aborrece as pessoas". Porque não soam como o Ozzy ou os Korn? "Sim! Ainda por cima..." Pausa dramática. Conseguem sentir o sarcasmo? "...ninguém consegue saber quem é o 'verdadeiro eu' no Ozzfest". Homme ri e pede a Hutch - que seria o tal anão, não fosse o seu tamanho normal, a sua simpatia e o seu rabicho - um fósforo. Homme diz estar ansioso pela digrssão de teatros que os Queens vão fazer com os Foo Fighters. E, obviamente, gravar as novas Dessert Session também faz parte do seu pequeno plano. Por ora, o plano de Homme é ouvir mais jazz suave nos bastidores. "É jazz suave que está a ouvir?", pergunto. "Sem comentários", ri-se Homme.

Robin Genovese
Exclusivo Backfire/Mondo Bizarre
Tradução de Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 4)