Entrevistas
THE RAPTURE
Ecos Pós-Punk
"Echoes" é um dos álbuns da nossa lista de melhores do ano [ver texto na edição em papel nº 18]. Recuperamos a entrevista que fizemos aos Rapture, em Maio de 2003 (inserida no anrtigo "Grupos Novo Rock") antes de o álbum ser editado e de por cá se prestar verdadeiramente atenção ao grupo.

De todas as bandas que aqui faladas [ver na secção de artigos o artigo «Grupos "Novo Rock"»], os Rapture são aquela que reúne o maior consenso. Arriscaria mesmo dizer que são a banda mais “quente” do momento. A tal “next big thing” que faltava a 2003. Com um percurso relativamente irregular em termos de edições, com discos espalhados em várias editoras, foi a partir da relação com a DFA (pertença dos produtores James Murphy e Tim Goldsworthy, e casa dos Black Dice, LCD Soundsystem, entre outros, que a sonoridade dos Rapture se começou a aproximar da música mais dançável. “Echoes” (DFA), o álbum que os Rapture vão editar este ano é um dos discos mais aguardados de 2003. Para além de “House Of Jealous Lovers” e “Olio”, editados anteriormente em single, “Echoes” reserva-nos outras surpresas, como o intercalar de temas dançáveis (“I Need Your Love”, “Killing” ou “Sister Saviour”) com temas introspectivos (“Open Up Your Heart”, “Love Is All” ou “Infatuation”), evitando a monotonia e apostando no desafio dos nossos sentidos. “Echoes” não faz dos Rapture os novos Happy Mondays, como afirma o NME, se tivermos em conta tudo o que está por detrás da banda de Manchester.

A fórmula dos Rapture é diferente, tentando aproximar a pop das pistas de dança com a ajuda de ritmos dançáveis. “Sister Savior”, um dos melhores temas de “Echoes” é já um dos grandes temas do ano. Em plena digressão americana, falámos com o baixista Matt Safer, antes de um concerto na mítica sala Metro, de Chicago.

“Echoes” está pronto desde Agosto de 2002 mas ainda não foi editado...
Nós acabamos o álbum antes mesmo de termos tratado de qualquer outra questão como editora, etc. Até a nossa relação com a DFA estava baseada apenas no facto de estarmos todos entusiasmados em fazer um disco. Não estávamos preocupados com as questões contratuais ou legais. Esta demora tem mais a haver com o facto de termos estado a tentar encontrar a melhor solução, e a melhor maneira de editar o disco, do que com outra coisa. Queremos fazer algo interessante, e não apenas limitarmo-nos a editar o disco.

Toda esta atenção sobre o disco antes de o mesmo ser editado não será prejudicial para a banda?
Mau para a banda seria se não tivéssemos um bom disco a sair, que pudesse suportar toda esta atenção que estamos a receber. Estamos todos confiantes que temos um bom disco pronto e não queremos adiar a edição mais do que o necessário. Compreendo que possa criar alguma ansiedade nas pessoas, mas não é algo que possamos controlar. Neste momento o álbum está previsto sair no final do Verão. Por isso já não falta muito.

Para uma banda americana qual é a importância de pertencer à cena de Nova Iorque?
A mudança para Nova Iorque foi um passo importante para a banda pois conhecemos a equipa da DFA e pudemos gravar com eles. Nesse sentido a importância de Nova Iorque foi grande, mas não foi pelas razões que as pessoas esperam que fosse. É uma cidade fantástica, mas não acredito que pelo facto de estarmos perto de bandas como os Interpol, ou os Yeah Yeah Yeahs, essas bandas tenham influenciado grandemente os Rapture.

A identidade dos Rapture está intimamente ligada à DFA e aos produtores James Murphy e Tim Goldsworthy. Como é que a vossa colaboração começou?
Nós demos um concerto em Nova Iorque e o James Murphy foi a esse concerto porque um amigo comum lho recomendou. No final convidou-nos para irmos ver o estúdio da DFA. Houve uma grande empatia entre nós, e como eles têm um estúdio fantástico decidimos experimentar trabalhar com eles. Naquela altura, no Inverno de 2000, o James e o Tim ainda não tinham gravado bandas, com excepção da banda sonora de um filme e do disco do David Holmes. Mesmo o disco dos Radio 4 foi gravado depois.

Nessa altura já estavam a dar um ar mais dançável à vossa música?
Nós já estávamos nessa direcção, mas trabalhar com eles fez com que as coisas se tornassem mais claras. Tornou-se mais fácil entrar nesse campo, porque eles tinham algo de novo para trazer para a nossa música. Não é que nós estivéssemos a fazer uma coisa e eles a alterassem por completo. Pelo contrário, entenderam-nos tão bem que tornaram a nossa música muito melhor ao acrescentarem beats de dança. Como partilhávamos objectivos e ideias comuns, pudemos trazer diferentes elementos para a gravação de maneira a facilitar o trabalho de ambas as partes.

O que pensam quando vos tentam catalogar como sendo os novos Happy Mondays ou vos catalogam de art-punk, dance-punk, etc?
Isso diverte-nos. É interessante ver o que as pessoas vão inventar a seguir e com quem nos vão comparar. Porque não estamos a tentar ser ninguém a não ser nós próprios. Nós não levamos esse tipo de comparações muito a sério. A determinada altura as pessoas vão parar e perceber que temos a nossa própria identidade. De qualquer maneira é sempre bom ver a perspectiva que as pessoas têm da nossa música, sejam elas boas ou más.

Quando estavam a compor para este disco, tinham a ideia de fazer um disco de dança ou um disco dançável?
Eu diria um disco dançável. É uma questão difícil, porque apesar da maioria do temas serem dançáveis existem alguns que não o são. Penso que as coisas foram acontecendo e acabaram por resultar assim, sem um plano predefinido à partida.

O tema “House Of Jealous Lovers” pode ser visto como ponto de viragem no percurso da banda?
Sim, esse tema mudou muitas coisas. Especialmente a maneira como as coisas aconteceram a partir daí. Quando uma vez dissemos que nunca iríamos fazer outro "House Of Jealous Lovers", não queríamos dizer que nunca iríamos escrever um tema tão bom, antes que queríamos evoluir e não ficar presos a essa fórmula.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 15 in «Grupos "Novo Rock"» )