Entrevistas
RED HOUSE PAINTERS
ENTRE OS DIAS
Após três anos de espera devido a conflitos editoriais, os Red House Painters vêm finalmente ser editado o seu sexto álbum de originais, "Old Ramon". À conversa com a Mondo Bizarre esteve Mark Kozelek, líder e mentor da banda, que se revelou bastante simpático e mesmo conhecedor da cena musical portuguesa.

O título do vosso novo disco, "Old Ramon" é retirado de um livro espanhol para crianças.Inclusive a canção "Wop-A-Din-Din", tem o refrão cantado em espanhol. Interessa-se particularmente por cultura hispânica?
É um livro sobre o qual eu não sei nada. Quando estávamos a trabalhar em Austin, no Texas, fomos a um café perto do estúdio e estava lá um pequeno livro, com esse título. Eu não li o livro nem sei nada acerca dele, mas o título ficou-me na cabeça e acabámos por usá-lo neste disco. Tenho o mesmo interesse por cultura hispânica que por outras culturas. Eu estive duas vezes em Espanha e estive alguns meses no México, onde escrevi algumas das canções que entram no disco...

O "Wop-A-Din-Din" tem referências óbvias...
Esse e outro tema chamado "Between Days". No "Wop-A-Din-Din" há uma pequena parte em que não consegui encaixar nenhuma letra, a rapariga na casa de quem eu estava hospedado, que por acaso era tradutora, perguntou-me o que é que eu queria dizer na canção. E então, ela sugeriu que a letra fosse traduzida para espanhol, porque o que eu queria dizer não soava muito poético em inglês. E dessa maneira ficou muito melhor.

O "Old Ramon" é finalmente editado, três anos após a sua gravação. Ainda representa aquilo que os Red House Painters são hoje em dia?
Quando estamos em digressão e tocamos a nossa música, não fazemos mais nada relacionado com o que editámos na altura. Essa situação seria mais importante se fôssemos uma banda comercial, mas connosco os discos saem sempre em circunstâncias estranhas, como o "Songs for a Blue Guitar" que também saiu um ano depois do que era suposto porque coincidiu com a altura em que passámos da 4AD para a Island. Obviamente que este disco já é velho, mas nós re-arranjamos algumas das canções de maneira a torná-las novas outra vez, e acabam por nos soar bem outra vez, e penso que o mesmo acontecerá com as pessoas que nos forem ver ao vivo.

Apesar de alguns dos temas deste disco terem uma grande duração, não acha que alguns são algo "radio friendly"?
Talvez desse lado isso possa acontecer. Eu não presto muita atenção ao que se passa na rádio por aqui, mas se a MTV é um indicador do que possa passar em termos de rádio "mainstream", então penso que não se encaixam aqui. No entanto, temos algum apoio das rádios universitárias, que é onde a nossa música se poderá encaixar melhor ou até destacar-se. Em termos de rádio mainstream e de bandas rock com quatro tipos e umas guitarras, só existem os Matchbox 20 ou os Korn...

Neste disco nota-se mais a presença das guitarras eléctricas. Isso foi feito deliberadamente ou aconteceu por acaso?
Nunca tivémos um plano de como é que o disco iria ser. Na altura eu andava a ouvir muito Thin Lizzy e comecei a experimentar tocar solos de guitarra, coisa que nunca tinha feito até então. Fiz isso num tema e acabei fazendo o mesmo em vários.

Em estúdio voltaram a trabalhar com o engenheiro de som Billy Anderson. Ele compreende as vossas ideias e consegue fazer-vos soar como desejam?
Ele é um grande amigo nosso, já o conhecemos desde que nos mudámos para São Francisco e começámos a gravar. Ele está connosco desde o princípio, antes de termos sequer algum dinheiro ou um contrato discográfico. Ele enfiava-nos no estúdio onde trabalhava às duas ou três da manhã quando o dono não estava lá, e ficávamos a gravar até às seis ou sete da manhã de borla, já que só lhe pagávamos as bobines. Como tínhamos de fazer as vozes durante o dia, eu tinha que empenhar as minhas guitarras para poder ter dinheiro para pagar algumas horas de estúdio.

Os temas foram compostos em vários sítios, e notam-se também diversas fontes de inspiração. Inclusive, as sessões de gravação foram divididas por vários locais. Foi importante para o resultado final trabalhar desta maneira?
Sim, as sessões de gravação foram maioritariamente feitas num local chamado Mandessino, que fica a cerca de 4 horas de São Francisco, que é um local remoto, um sítio no meio na floresta no meio de nenhures. Foi aí que começámos a gravar o disco e onde a maior parte do trabalho foi feito, e posteriormente voltámos à cidade para finalizar as gravações. No fundo foi um disco gravado um pouco por toda a parte.Também viajo bastante...

No princípio dos anos noventa os Red House Painters apareceram ao lado de outras bandas americanas como os American Music Club ou os Idaho. Como é que explica o facto de na Califórnia, - terra de praias solarengas e de uma vida luminosa - apareceram tantas bandas com uma sonoridade melancólica, ritmos lentos e alguma tristeza?
Talvez porque alguns de nós são influenciados a 100% pelos arredores e não pelo que se passa na cidade. Acho que as outras bandas são mais influenciadas pelas revistas de rock independente que costumam ler. Os Red House Painters começaram em Atlanta, na Georgia, e acabámos por nos mudar para aqui, mas haverão sempre referências às coisas que nos rodeiam, ao que nós somos e por onde passamos. Acho que o mesmo acontece com o Mark Eitzel (AMC). Este é o background das canções, porque é aqui que eu estou. E já agora, São Francisco não é assim tão solarengo. Estou a olhar pela janela e está bastante enevoado e á noite está sempre frio.

Falando do seu álbum a solo, "What's Next to the Moon", só com versões dos AC/DC, a ideia foi colocá-las num contexto completamente diferente e dar-lhes uma nova dimensão, ou foi apenas para as tocar com ironia e divertir-se?
Talvez um pouco das duas. Tudo começou em Espanha onde toquei dois temas dos AC/DC, dentro do estilo das versões que costumo fazer, e como a reacção foi tão boa, decidi gravar um EP com quatro temas. Mas quando comecei a ouvir melhor os temas originais, tentei fazer um álbum que soasse da melhor maneira possível, o que penso ter conseguido.

Todos as versões são da era do Bon Scott, pensa que esse foi o melhor período dos AC/DC? Não tem curiosidade de saber o que o Angus Young pensa do disco?
Para mim esse é melhor período da banda, mas apesar disso estou muito curioso de conhecer a reacção do Angus Young. Sei que recentemente lhe passaram uma cópia do disco, e estou mesmo ansioso por saber o que ele tem para dizer.

Como é que surgiu a oportunidade de desempenhar um papel no filme "Almost Famous"?
O Cameron Crowe, que dirigiu o filme, é um fã da banda já há algum tempo, e sei que durante as filmagens do "Jerry Maguire" ouviam muito os nossos discos. Até mesmos os seus assistentes gostam muito de nós e já nos viram ao vivo imensas vezes, e prometerem-me um papel num filme que seria uma surpresa. O Cameron Crowe veio ter comigo e falámos sobre o assunto, e dois meses depois contrataram-me para fazer esse filme. Diverti-me muito...

Também trabalhou como produtor no álbum tributo ao John Denver...
Uns meses depois do John Denver ter morrido eu tive a ideia desse álbum de tributo, mas estava um pouco inseguro de como fazê-lo. Então, o Billy Anderson encorajou-me a trabalhar nesse projecto e a ir para a frente com a ideia. Eu gosto muito de John Denver, mas não ser visto como um porta-voz dele, porque eu não gosto mais dele do que gosto do Neil Young ou do Cat Stevens. Mas penso que o talento dele foi sempre subestimado, especialmente no circulo de pessoas que eu conheço, e quis mostrar-lhes que havia mais alguma coisa para além do "Country Boy" ou do "Sunshine On My Shoulders".

Vocês parecem dar grande importância ao aspecto visual dos vossos discos.
A 4AD tinha um grande empenho nisso, eles tinham um departamento específico para trabalhar toda a imagem dos discos. Eles foram a nossa primeira editora, e como o trabalho gráfico que eles nos propuseram era tão bom, tornou-se um standard daquilo que eu espero agora. Por isso tentamos fazer com que as nossas capas sejam tão bonitas.

Sei que tocaram na Coreia do Sul. Como é que foi essa experiência e como é que o público reagiu à vossa música?
Eles foram a audiência mais simpática para quem tocámos até hoje. Eles não estão habituados a ter concertos. Quando estive lá disseram-me que apesar do Ricky Martin ou dos No Doubt tocarem lá, não é comum a hipótese de ver bandas independentes. Eu fui sozinho, estive lá uma semana e fui muito bem tratado pelos promotores. Fiz dois concertos durante a semana, e enquanto eu tocava ninguém saiu da sala para ir à casa de banho ou fumar um cigarro. Estavam maravilhados.

E eles conheciam as canções?
Sim, muitos deles traziam folhas com as letras das suas canções favoritas.

Pela primeira vez em vários anos vão entrar numa extensa digressão pelos Estados Unidos e pela Europa. Tem estado a ensaiar com a banda toda?
Bem, eu nem sempre tenho estado em casa, mas quando estou tentamos ensaiar uma ou duas vezes por semana.

As bandas de heavy-metal foram importantes na sua adolescência? Já falámos nos AC/DC e vocês também fizeram uma versão dos Kiss.
Algum desse material eu ainda ouço outro já não. É como tudo na vida. Apesar de já não prestares atenção a certas coisas ainda fazem parte daquilo que és agora.

Lembra-se da primeira vez que esteve em Portugal quando tocou em Paredes de Coura?
Sim. Os Blind Zero ainda existem?

Sim, eles editaram um disco há pouco tempo, produzido pelo Don Flemming.
Ah sim? Eles eram interessantes. Eu acho que havia muitas versões portuguesas de bandas americanas no festival onde tocámos, tipo uma banda que pareciam os Jane's Addiction...

Ana Gandum e Nuno Castêdo
(Mondo Bizarre # 7)