RICHARD HELL
A FACE LITERÁRIA DE UM ROCKER
Richard Hell é um nomes cimeiros da cena punk-new wave nova-iorquina. Depois de anos arredado dos olhos do público, Hell regressou com "Hot and Cold, um livro que abarca três décadas de trabalhos escritos e com "Time", um duplo álbum que documenta a sua carreira musical. A entrevista que se segue é uma boa oportunidade para se tomar contacto com um dos criadores mais interessantes da segunda metade dos anos 70 e que continua em actividade.
"É engraçado, ainda há pouco tempo alguém me perguntava: 'Que aprendeu sobre si mesmo ao rever este material?' E eu não conseguia pensar. Sabia que tinha que ter algum tipo de reacção, mas acho que essa era uma reacção era um pouco como o meu trabalho. Uma coisa depravada e triste e cruel!"
Este não é o tipo de elogio que a maior parte dos artistas profere quando contempla o trabalho de uma vida inteira. Contudo, Richard Hell, parece achá-lo divertido. O poeta, escritor e personagem punk de cabelo espetado ri muitas vezes, enquanto analisamos os contornos de uma carreira aviltante mas brilhante, através das páginas de "Hot And Cold". Ao compilar e organizar o livro - uma viagem diversificada, mas coerente pelos seus ensaios, poemas, letras de canções, cadernos de notas, imagens e ficção, desde o final da sua adolescência até ao presente - Richard pôs em evidência vários aspectos desagradáveis da sua vida. Mas isso torna-o estranhamente calmo e frontal.
É realmente tão depravado e triste e cruel como o livro o faz?
Eu inclino-me a expor mais o tipo de impulsos e perspectivas que a maior parte das pessoas e escritores tendem a suprimir! Tendo a ir na direcção oposta. Não me envergonho disso - posso ser embaraçado por isso! Mas o que está aqui é toda a
panóplia concentrada, e isso é muito mais notório. Quer dizer, quantas pessoas estão dispostas a admitir, muito menos apresentar provas, de que passaram algum tempo a desenhar a própria pila!? (no livro surgem vários retratos de "Little Richard", em vários estágios de tumescência!). Não se ouve por aí muita discussão sobre o assunto. Nem sobre ser "triste". [No livro] existe muito desespero, alguma mesquinhez , maldade e crueldade. Mas além disso, acho que tento revelar coisas que outras pessoas talvez pensem e sintam, mas que não admitem. Existem muitos grandes artistas que não falam das suas fantasias sexuais, mas enfim... Penso também que, embora todas estas coisas sejam verdade, são parcialmente redimidas por serem apenas características da minha forma de trabalhar. Basicamente é isso o que as pessoas dizem. Eu só pensei nisso depois de as pessoas o dizerem. Apesar de ter de algumas maldades e mesquinhices, aceito que me vejam com um certo espírito generoso. Trata-se, essencialmente, de reconhecer como é difícil lidar com a vida, o que é válido para toda a gente. E [o livro] pode ser egocêntrico mas também acho que também tem compaixão. As coisas são difíceis para toda a gente, por isso acho que essa é outra qualidade redentora do livro. A forma como foca todas estas pessoas que se autodestruíram é um pouco triste e depravada, mas é compreensível.
O livro não é crítico nem moralizador em relação a essas pessoas.
Não, e não lhes dá glamour por o fazerem! Não é verdadeiramente 'mau'!
Por falar nesses "obituário". No passado também teve a sua dose de brincar com a morte. Revê-se no que escreveu sobre pessoas como Peter Laughner, Sid Vicious ou Johnny Thunders?
Obviamente estava a escrever sobre mim mesmo, estava a lidar com todas essas características e impulsos, que conheci em primeira mão. Foi isso que se passou quando escrevi essas coisas. Chego mesmo a dizer isso na parte do Johnny, "tudo o que digo sobre ele, estou a dizer sobre mim mesmo". Além do mais, é muito claro para mim, que quando estou a escrever sobre o Peter Laughner, a maneira como aquele podia ter sido o meu destino, estou a lidar com estas porcarias escrevendo sobre elas. Quando eu andava mais lixado, aos vinte e tal anos, sinceramente não conseguia compreender se valia a pena estar vivo, ou não, e foi algo com que me debati muito. Parecia que não conseguia encontrar maneira de lidar com as coisas. Quando se está assim tão fodido pela droga, quando se chega a esse ponto, e as drogas só funcionam realmente durante um ano ou dois, está-se lixado. Suponho que existam excepções, há pessoas que insistem que passados vinte anos continuam a tomar drogas porque querem e que [na verdade] são viciadas. Claro que existem pessoas que usam drogas com sensatez, mas eu estou a falar de tipos viciados, não de gente que fuma um charro de vez em quando, ou que toma um narcótico de vez em quando. Essas pessoas existem, mas as que tomam drogas de vez em quando são muito raras. Onde eu quero chegar é a que, quando se é viciado, e passam os tais dois primeiros anos, quando já te drogas simplesmente porque não o fazer é demasiadamente assustador do ponto de vista físico, porque estás viciado, porque estás habituado, tudo se começa a desintegrar. Consomes todo o teu dinheiro, consomes todo o teu tempo. Não o queres fazer mas não o consegues evitar. É um autêntico pesadelo. É-se tão miserável! Muitas vezes as pessoas que tendem a tomar drogas são as que já se sentem mal no mundo. E nunca desaparece, é algo que ainda está dentro de mim. É preciso enfrentar a situação, porque, que é que se ganha por dizer "isto é uma merda"? Isso só vai piorar as coisas. Se é tudo realmente uma merda, mais vale saltar de uma ponte. Mas às vezes pensamos se não seria melhor saltar de uma ponte" (risos)
Para mim, um dos fios condutores do livro parece ser a sua luta contra o seu próprio niilismo ou negatividade...
Para mim não se trata realmente de niilismo, é uma espécie de acompanhar a realidade. Mas essa é a minha opinião e tenho consciência que há outras pessoas para quem as coisas não são construídas dessa forma. Mas creio realmente, acreditem ou não, que é uma estupidez, ou uma fraqueza, [uma pessoa] estar sempre a lamuriar-se que tudo é muito duro. É tão fácil, há gente que encarna essa personagem, o que é muito aborrecido!
Pensa que não caiu nesse mesmo erro? - Afinal escreveu '"Who Says It's Good to Be Alive"?
Como dizia, tenho consciência do perigo que isso representa, e tento não cometer esse erro, mas ao mesmo tempo sinto-me obrigado a chamar às coisas o que elas são. Tudo o que faço enquanto "artista" é caminhar numa linha e tentar. O mais importante é, independentemente de quão feio o assunto, manter as coisas divertidas! Senão, cala-te! Por isso acho que mantive as coisas divertidas! (risos)
Outro tema recorrente nos seus escritos centra-se em si como um vagabundo, um marginal. Existem várias passagens de tipo "road trip", ou partes que se lêem como uma espécie de livro de viagens, consigo a visitar cidades estranhas como um visitante desconhecido...
Eu gosto muito dessa posição, considerando o ambiente, gosto de ser um observador. Para mim, ser um estranho é excitante e satisfatório. Eu gosto de viajar.
Isso recorda-me aquele velho trabalho de Legs McNeil ["The Legend of Nick Detroit", era um "fumetti"da autoria de Legs McNeil, publicada no número 6 da Punk Magazine, em 1976. "The Legend of Nick Detroit" conta as aventuras de Nick Detroit (Richard Hell), um agente e "super-matador" que vira mercenário na luta mundial contra as infames Lésbicas Nazis, um grupo terrorista que queria dominar o mundo. N.R.]onde disse que a sua característica mais profunda era o desejo de simplesmente ir embora...
Essa também é a primeira linha de "Blank Generation": "I was saying let me out of here" e está absolutamente certa. É também é uma maneira de estar sempre fresco. Quando se está sempre a mudar de sítio, é sempre tudo novo, o que é sempre excitante.
A adopção da identidade Theresa Stern, como pseudónimo para as colaborações poéticas com o Tom Verlaine, também era um sintoma disso?
Foi definitivamente outra maneira de manter as coisas refrescantes.
Isso foi antes de ser conhecido como músico?
Sim, antes de alguma vez ter pegado num instrumento ou escrito uma canção. Acho que provavelmente foi uma grande revelação eu ter feito isso, uma espécie de avanço. Porque muitas das coisas que eu estava a fazer frustravam-me, porque sentia que não eram realmente... Como se existisse um nível superior que eu não atingia. Precisava de avançar de uma forma que ainda não tinha conseguido e essas colaborações [com o Tom Verlaine] deram-me o poder que necessitava. Essencialmente, o problema era um certo tipo de inibição, eu estava constringido por ideias recebidas e não sabia como ir para além delas. E ver e afirmar que a escrita interessante podia ser feita, isso nem... Eram colaborações, estavam longe de ser "eu", da ideia de "eu", porque me libertaram da autoconsciência, estar ali sentado com a caneta e o papel, ou a máquina de escrever, e ficar deslumbrado com a luz dos holofotes no "eu2, no que o "eu" faz e tem para dizer. Fazer as colaborações foi uma nova revelação, tipo: "esquece tudo, não te preocupes, escreve qualquer merda que te venha à ideia e que pareça interessante". Nem sequer era literalmente eu...
Também aplicou esse princípio à sua música?
Não sei. Facilitou tudo o que se relacionava com esse tipo de trabalho. Mas a ideia também era descobrir que podemos imaginar a identidade que queremos, por isso imaginei-me como Richard Hell. É completamente real, não é preciso preocupar-me em "ser eu próprio". A ideia é não se ser a si próprio tanto quanto se possa, o que significa explorar tudo o que é possível. E não é ser-se desonesto, antes pelo contrário, simplesmente liberta-nos desta falsa ideia, desta prisão auto-imposta, através da descoberta - para mim é sempre mais interessante o destruir-se a si próprio do que descobrir-se a si próprio. É a mesma coisa que um artista ter "períodos" - cansa-se de fazer uma coisa, encontra uma maneira nova de a fazer, depois isso é levado ao extremo.
O seu livro anterior foi o romance "Go Now", lançado em 1996. Como o narrador era um músico punk toxicodependente, muita gente presumiu que era mais ou menos autobiográfico...
Era sobre esse estado de espírito, o tipo de coisas que eu descrevi antes; essa condição desconcertante de ser impotente, nas garras da droga. Mas, ao mesmo tempo, era também para tratar essa condição com respeito. Não queria menosprezá-la com desdém, eu ainda era completamente humano. Nunca tinha visto descrita a forma como me senti e quis capturá-la.
Há uma versão falada de alguns capítulos, com o Robert Quine (colaborador habitual de Hell e também Lou Reed, Brian Eno ou Tom Waits) a tocar guitarra...
Penso que a contribuição do Quine para esse exercício foi superior à minha! O que aconteceu foi o seguinte: aquilo ficou um bocado lixado na gravação. O plano era usar uma faixa dos Dim Stars. Os Dim Stars éramos nós (Hell, Thurston Moore, Don Fleming e Steve Shelley) a tocar durante 20 minutos. Eu levava uma pré-mistura para casa e encontrava 3 minutos para os quais escrevia uma letra. Eu ia usar uma dessas faixas de 20 minutos dos Dim Stars, sem vozes, e acertava o tempo da leitura ao tempo da faixa. Mas os dois capítulos que eu estava a ler tinham um minuto e meio a mais, por isso tive que ler mais depressa para que coubesse. Depois afinal sempre era melhor ideia trabalhar com o Bob, mas era tarde demais. Eu já tinha gasto imenso tempo e tido imenso trabalho, que acabei por usar a faixa comigo a falar mais depressa do que era suposto! Não saiu bem como devia. Um dia, se houvesse público suficiente, adorava fazer um livro falado.
A sua novela "The Voidoid" foi reeditada nessa altura. Quando foi escrita?
Na altura dos Neon Boys (início dos anos 70). Queria descrever a forma como sentia a realidade nessa altura. E, quando se trabalha em determinado meio, como as possibilidades desse meio me pareciam, o que era interessante fazer nesse meio, isso também foram factores importantes. Quando olho para essa novela, sou transportado para esse lugar e tempo em que estava andava aos caídos em Nova Iorque, como um miúdo que está apaixonado por escrever.
A leitura dessa novela faz-me ver a imagem de apartamentos sombrios no Lower East Side e muita falta de luz solar...
E drogas! Nesse tempo eu nunca tinha usado heroína. Como digo no posfácio, tinha descoberto que se podia arranjar um xarope para a tosse, mas isso era uma autêntica maravilha! Não estávamos constantemente a emborcar! De dois em dois meses - aquilo tinha codeína e podia-se comprar em qualquer farmácia.
As personagens principais, Lips e Skull, são baseadas em si e em Tom Verlaine?
Sim, definitivamente.
Também foi editado "Time", um duplo álbum retrospectivo, que cobre dez anos da sua carreira musical. Fiquei surpreendido com a quantidade de faixas dos Heartbreakers incluídas. Pensava que esse tinha sido um período um pouco frustrante para si...
Eu adorava esse grupo! Quero dizer, cansei-me dele, mas adorava a música. Sempre me chateou o facto daqueles gajos terem uma mentalidade muito neandertal de Nova Iorque, tipo mentalidade de gang - só porque eu saí do grupo, isso significava que os estava a insultar. Por isso, nos anos que se seguiram, eles aproveitavam todas as oportunidades para me rebaixar nas entrevistas. Principalmente o [Jerry] Nolan, mas o Johnny [Thunders] também o fez algumas vezes. O Johnny e eu ficámos sempre amigos e víamo-nos - ele vinha a Nova Iorque, eu ia a Londres. O Jerry era pior, parecia que ele tinha sempre que me deitar abaixo. E chegaram mesmo a mentir. Acrescentaram os nomes deles a "Chinese Rocks" e devem ter dito a alguns entrevistadores que me tinham expulso do grupo, porque foi assim que tudo acabou por ser descrito. O Lee Childers tinha começado a ajudar-nos no agenciamento, foi o manager durante pouco tempo antes de eu sair e via o que se estava a passar na banda. Ele foi honesto e contou a história. Mas os outros devem ter dito coisas diferentes. E nem sequer havia ressentimentos da minha parte, só que a banda tinha uma visão muito limitada. Eles queriam tocar sempre o mesmo tipo de coisas. Eu só queria alargar os horizontes. Havia coisas que eu queria tentar e com as quais eles não queriam ter nada a ver. E também me comecei a sentir idiota a fazer o tipo de canções que eles queriam, que eram como o "Going Steady" Eu não estava interessado em fazer uma canção sobre namorar, embora as canções fossem excelentes. Algumas das melhores músicas no rock'n'roll de todos os tempos têm letras completamente imbecis. O que é óptimo, mas eu sentia-me desonesto ao fazer uma canção assim.
Mas está contente com a selecção incluída na compilação?
Sim, quer dizer, todas elas são canções minhas. Escrevi todas as letras, excepto a de "Can't Keep My Eyes on You'". O Nolan escreveu dois terços da letra, mas quis que eu cantasse. O que quero dizer é que adorava o trabalho de guitarra e de composição do Johnny. Ele acabou por ficar muito preguiçoso, como muitos drogados. Geralmente ele roubava-se a ele próprio e o que produzia era realmente pouco. Mas ele tinha os melhores instintos de composição, era muito bom em termos de construção de uma canção, as partes de guitarra e os padrões. Eu adorava a forma como ele compunha e sempre desejei ter colaborado mais com ele.
Então não queria que o Johnny saísse do grupo?
Não, nada disso!! De facto, o Nolan é que dizia essas merdas! Não! Nunca me ocorreu tal coisa. O grupo ia continuar, a questão era se eu ia continuar com eles ou não. Eu não conseguiria estar naquele grupo sem o Johnny. Eu só me apercebi que precisava de mais espaço para tentar ir noutras direcções.
Penso que o mais interessante em algumas das suas canções, como "You Gotta Lose" ou "Blank Generation", é a forma como diferem do estilo punk mais simples. Têm um tipo de ambiente mais relaxado, quase jazz, como a música burlesca dos anos 50...
"As primeiras versões de "Blank Generation", com os Television, eram mais assim nesse género. A canção derivava daquela música parva do Robbie Hewlitt, "The Beat Generation", feita em jeito de piada, mas depois evoluiu e tomou a sua própria forma.
Existem duas gravações antigas dos Voidoids na compilação "I'm Your Man" e "Betrayal Takes Two" - presumo que tenha rejeitado, ou refeito, algumas das gravações originais para "Blank Generation"?
Fizemos versões diferentes de muitas das canções quando a edição se atrasou, porque a Sire estava a mudar de distribuidores. Logo depois de termos acabado as gravações, eles fecharam um contrato com a Warner Brothers, daí o atraso, e, já que tínhamos que esperar, pedimos para voltar ao estúdio e continuar a brincadeira. Existe o mito que acabámos por usar versões piores. Recentemente estive a ouvir algumas delas e as que usámos eram muito melhores. Só usámos duas ou três versões novas e as que usámos eram melhores que as primeiras. Mas não tenho a certeza se são essas que estão no CD, não me lembro. O Quine deve saber...
Parece bastante cansado com a vida, com o estado das coisas do período de 1979, e [até] a escolha das versões...
"Going Going Gone" e "I Live My Life". Isso foi num estádio de completa desintegração do grupo - e de mim! Mas, para mim, também é o centro do disco. Adoro aquele conjunto de cinco canções: "Time", essas duas versões, "Ignore That Door" e "Crack of Dawn".
Algumas delas acabaram por ficar em Destiny Street (álbum de 1982 dos Voidoids).
Nunca gravámos "Crack of Dawn", penso que esta versão de "Time" é a melhor, "Ignore That Door", sim. Mas nunca gravámos "I Live My Life", só para essa demo. Mas, sim, estava arrasado e isso reflecte-se no material.
De volta ao presente, o que está a preparar?
Estou a trabalhar num romance, uma sequela de "Go Now", mas completamente diferente. É na terceira pessoa, é um mundo que eu não conheço de todo. É sobre poetas em Nova Iorque nos anos 70 e eu não conhecia nenhum poeta, quero dizer, não no mundo de que estou a falar. É tudo completamente fabricado e conceptualmente complexo, estar tudo a ser recordado pelo tipo - esse mundo de poetas nos anos 70 - na sua cama de hospital, no presente, final dos anos 90, início do século XXI. E tem amostras dos poemas. É realmente interessante do ponto de vista conceptual!
Hugh Gulland
Exclusivo: Bucketfull Of Brains/Mondo Bizarre
Tradução de Frederico Mendes
(Mondo Bizarre # 13)
| | |