Entrevistas
RITA CARMO
ALTAS-LUZES
Rita Carmo é fotógrafa do Blitz há 12 anos e “altas-luzes” (Assírio & Alvim) é o seu primeiro livro. Álbum fotográfico luxuoso, na embalagem (capa dura, formato quadrado de 24,5 x 22,5 cm) e no conteúdo, com mais de duas dezenas de fotografias que retratam 13 anos de música em Portugal. Imagens de concertos ou captadas em entrevistas, as fotografias de “altas-luzes” são um documento único para todos os que têm na música a sua paixão. Dos Nirvana aos Ornatos Violeta, de P.J. Harvey a Isabel Silveste, de Julian Cope a Caetano Veloso vários géneros musicais aqui se cruzam, revelados na força, no recolhimento, na exuberância, na elegância oferecida pelos fotografados. Num país onde a edição livreira dedicada à música popular é quase existente, mais ainda se de trabalhos nacionais originais se tratar, “altas-luzes” é uma obra arriscada, mas plenamente justificada.

O que te levou para a fotografia?
Eu gosto de coisas que tenham uma execução rápida, que estejam na minha mão e que não me façam depender de outras pessoas. Dai, por exemplo, a minha ideia de fazer roupa, ainda que só para mim. A minha profissão teria sempre que ser algo que começasse e acabasse em mim. Inicialmente, no Blitz era assim. Eu agarrava no filme, fotografava, revelava e imprimia. Não precisava de mais ninguém. Agora voltou a ser assim pois há uma semana que estou a trabalhar com digital.

Isso leva à minha próxima pergunta, preferes o analógico ou o digital?
Só agora é que eu estou a trabalhar com o digital. Mas desde que estou no Blitz, e desde que comecei a namorar com o Afonso [marido de Rita Carmo], que me habituei a vê-lo e aprendi a trabalhar com o Photoshop e com o Quark. E depois comecei a trabalhar graficamente. O facto de poder trabalhar as imagens no computador levou-me a duas conclusões: 1º - não há nada como o analógico e o digital ainda não o consegue ultrapassar; 2º - o digital facilita-me imenso a vida e voltei a não estar dependente de ninguém. Inicialmente, no Blitz, fazia tudo a preto e branco e mesmo os slides, pois era eu quem revelava e fazia a química numa máquina, que um dia pifou e já não havia arranjo. Depois tive de depender de outras pessoas. Agora já estou outra vez a poder fotografar e chego aqui ao meu Mac, descarrego as fotos e escolho-as. Mas, por acaso, acho que tratar muito as fotografias não é uma boa opção. Pelo menos no fotojornalismo porque se perde a ideia de fotografia. Depois já é uma composição de arte. O fotojornalismo pressupõe que uma fotografia não seja perfeita, é o momento, a captação daquilo que aconteceu, supostamente em real. No outro dia estava a falar com o Álvaro Rosendo, que trabalha na Visão como infografista, e ele dizia-me que não tem pruridos nenhuns em fazer colagens, em limpar, em cortar na fotografia, e nós (estava com um fotógrafo da Visão) não temos muito essa ideia. Eu até o reenquadrar me faz alguma confusão. É muito raro eu reenquadrar fotografias. Para o livro há três ou quatro que foram reenquadradas por que ou eram verticais e passei-as para horizontais, ou eram horizontais e passeia-as para verticais. E quando me reenquadram as fotos no jornal fico um bocado lixada. (risos)

Qual é a tua relação com as imagens que saem no jornal? Em geral, excepto se for uma revista de fotografia, as fotos acabam, quase sempre, por ser um suporte do texto...
É uma luta... Actualmente já tenho alguma voz na matéria. Entrego as fotografias de que gosto e depois o editor manda digitalizar as que escolheu. Muitas vezes só na página é que se vê quais é que servem mesmo. Mas é uma luta. Eu sou um bocado teimosa e não me vou cansar de lutar para que a imagem tenha a mesma força que o texto. Ainda para mais, quando a mim, é mais importante porque capta imediatamente o olhar do leitor. Enquanto que o texto é preciso que o leitor esteja predisposto para o ler.

Lembras-te do que sentiste quando viste pela primeira vez uma fotografia tua na capa do Blitz? Lembraste de qual foi?
Lembro, lembro. Era do Rui Reininho e foi em 1992. Lembro-me de ter comprado o Jornal, vi a capa, não a reconheci e continuei. Folheie, fui ver as fotos lá dentro e só depois é que vi: “olha, fui capa!”. Eu fiz aquele trabalho e ninguém me disse que era para capa. O Rui Monteiro não me disse. Não sei se foi de propósito... talvez não, pois eu já lá estava há alguns meses e não deve ter sido numa de “não lhe dizemos para ela não ficar nervosa e depois até pode não ser capa...”. Eu nunca fui muito nervosa com o trabalho... Acho é que não sabiam se iam, ou não fazer capa com os GNR e depois acabou por acontecer.

E agora, já achas banal ter fotos tuas na capa do Blitz?
Agora eu normalmente já sei que vão ser capa, já são feitas para a capa. Mas é sempre uma boa sensação. É engraçado é andar no Metro e ver uma pessoa com o Jornal. Dá vontade de ir lá dizer “é minha, é minha”. (risos)

Entre as fotografias de pose – nas quais é preciso direccionar o retratado –, e as fotografias de concertos, onde não há controlo da situação, qual preferes?
Gosto das duas. Mas no concerto sinto-me mesmo fotojornalista. Estou lá para captar o que acontece e é muito raro pedir para aumentarem a luz. Na outra parte já não me sinto tanto fotojornalista porque realmente tento fazer uma composição. Até mesmo naquelas entrevistas de Hotel, onde temos que despachar o assunto e é ali naquela salinha, tento por a pessoa de outro modo. Por exemplo, na foto da P.J. Harvey, ela não fez a entrevista naquela janela, mas pedi-lhe para se sentar ali. Enquanto a entrevista decorre eu vou andando por ali à volta, pelo Hotel, a ver onde posso fotografar as pessoas. A foto do Blixa Bargeld foi feita no topo do Sheraton, numa parede. Andei à procura de um local que tivesse luz da rua, do sol, e encontrei aquela paredezinha que não parece de Hotel.

Preferes a cor ou o preto e branco? Achas que a cor distrai do essencial?
Não. Por acaso, antigamente não gostava da cor. Achava que fotografia fotografia era a preto e branco. Mas, cá em casa, fotografo a preto e branco. As fotografias de família são a preto e branco.

Ou seja, fotografas a família. Não é “em casa de ferreiro, espeto de pau”.
Não, fotografo, mas não muito. Mais quando estamos em viagem, mas de certeza menos que a maior parte das pessoas. Tenho uma máquina pequenita, uma Olympus 2.8, com uma grande angular, que é a que levo para férias. Uma máquina com pouco peso e normalmente levo sempre rolos a preto e branco. Da cor gosto com cor saturada. Por isso gosto dos slides. O slide dá tonalidades que o negativo cor nunca consegue, que torna tudo muito normal, muito quotidiano.

Voltemos um ao início da tua carreira. Começas-te por ser fotógrafa de Moda, como foste parar à Música? Há uma grande diferença entre a fotografia de Moda e a fotografia de Música?
Quando fui para o Blitz, foi a Cristina Duarte que me levou para lá. Ela pensou em mim para fotografar as produções de Moda que fazia. Depois, mais tarde, o Didelet teve que escolher entre o Sete (onde também colaborava), por imposição deste jornal, e o Blitz. Entretanto fomos comprados pelo Balsemão e o Blitz teve que arranjar um fotógrafo permanente para a Redacção. Eu era mais ou menos certinha e já tinha fotografado alguns concertos e eles começam a dizer-me que não haveria grande diferença entre os desfiles e os concertos. No [mundo] da Moda eu movimentava-me um bocadinho mais à vontade. Nessa altura acabei o IADE, onde estava há três anos, conhecia os estilistas todos e a maior parte dos manequins, e tinha até trabalhado na Moda Lisboa. Em relação à música, e aparte ter os meus gostos musicais, praticamente não ia a concertos. Não conhecia grande coisa. Sabia quem eram os Xutos, os GNR ou os Madredeus. Se me pusessem o Zé Pedro, dos Xutos, à frente, sabia quem ele era. Mas se me pusessem o Cabeleira, acho que não o conhecia. Não tinha grandes conhecimentos musicais. Nesse sentido não era exactamente a mesma coisa [que na Moda].

E então, o que é que a Rita Carmo, fotógrafa de Música, ouve?
Ah! (risos) Bem, sou de extremos. Tanto ouço os ABBA como ouço exaustivamente Radiohead, até me cansar e ficar maluquinha. E gosto de bandas portuguesas. Sou fã há muitos anos de Madredeus.

A pergunta inevitável: porquê editar um livro? Ainda para mais numa altura como esta, de crise apregoada...
Eu tinha pensado no livro para 2002, que era quando eu fazia 10 anos de trabalho. Mas houve quem, na altura, me tivesse chamado maluca e me tivesse dito que o país estava em crise e que o ano seguinte, 2003, também ia ser de crise. Inicialmente eu queria fazer uma edição de autor porque não queria que me estragassem a ideia que tinha. Ou que me impusessem a capa, ou o tamanho. Queria fazer a coisa sem intromissões ou imposições. Até porque eu e o Afonso conseguíamos um modo de a feitura não depender de mais ninguém a não ser de nós os dois. Tínhamos contactos com gráficas, trabalhávamos nisto desde o início, e desde a digitalização ao final conseguíamos fazer isto só à base do nosso trabalho. Depois, cheguei a Maio e pensei que não perdia nada em fazer uma maqueta com o que estava a pensar fazer e experimentar. Mandei à Assírio e para mais duas editoras um e-mail a apresentar o projecto, e no dia seguinte a Assírio telefonou-me. Nunca imaginei... e a Assírio seria a minha escolha de eleição, por várias razões, incluindo já terem uma relação com a música. E mais contente fiquei quando me disseram que podia ser num tamanho maior – eu tinha pensado num quadrado, mas mais pequeno –; e 220 páginas. Depois houve o patrocínio da Jaba que permitiu que houvesse a capa rija e uma maior tiragem.

Uma imagem vale mesmo 1000 palavras?
Vale muito mais. (risos) Muito mais do que 1000 palavras. (risos). Não, acho que as imagens valem o que lhes quiserem dar. Nem todas valem 1000 palavras. E também valem muitas vezes por aquilo que a pessoa fotografada quiser dar.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 18)