Entrevistas
ROGUE WAVE
A Grande Vaga

“Out of The Shadow” apanhou-nos tão desarmados que não demorámos a concluir que morava no primeiro álbum “Rogue Wave” um daqueles episódios irrepetíveis em que encantamento e relevância andam alegremente de mão dada. Estranhamente (ou não), é ao segundo álbum que Zach Rogue diz ter “encontrado” uma banda.

Há pouco mais de um ano, dizia-se por estas mesmas páginas que “Out Of The Shadow”, o primeiro álbum dos Rogue Wave, era música para ouvir no Outono a pensar na Primavera. Ao segundo disco, “Descended Like Vultures”, a impressão é – numa primeira análise – a mesma. Reside em Zach Rogue, o mentor deste quarteto de Oakland, um perfeito artesão de ânsias e desilusões pintadas a naturalismo e, musicalmente falando, com discreto tratamento pop movido a uma sensibilidade que encontramos mais frequentemente na folk psicadélica. Mais: os Rogue Wave, tal como os Shins (o eterno termo de comparação, como adiante se verá), deslocam para o campo dos sonhos (ou da peculiar divagação ensonada) o seu imaginário, conjugando cordas de guitarra e voz no cimo de uma nuvem da qual só se sai a custo (e um dos motivos da descida até poderá ser o menos conseguido single de apresentação “10:1”, dona de musculação pouco habitual por este terreno). Continuamos no domínio de uma música de sorrisos, suspiros e outras coisas vagamente desajustadas com a tensão dos tempos que correm.

Compostos por Zach Rogue (voz, guitarra, órgão wurlitzer), Evan Farrell (baixo), Gram LeBron (guitarra, teclados) e Pat Spurgeon (bateria, teclados, samples), os Rogue Wave são hoje uma banda provavelmente mais multifacetada do que no início (os seus elementos são instrumentistas eclécticos) e, talvez por isso, “Descended Like Vultures” já não soa a trabalho de um homem só (e amigos para ajudar) como o seu antecessor. O som é mais preenchido, menos despido de artifícios e sente-se, aqui e ali, o contributo dos parceiros de aventura de Rogue – na forma como a cândida “Bird On A Wire”, tema de abertura, se transforma em açúcar sónico, a partir do meio; na bateria bombástica de “Publish My Love”. Temas como “Catform” e “California” (documentos maioritariamente acústicos) servem, no entanto, de testemunho de um passado mais solitário. Passado que, nas palavras de Zach Rogue, constituem a “ignição” de uma banda pronta para outras velocidades.

Não foi assustador lidar com pessoas para quem “Out Of The Shadow” foi uma espécie de remédio, de antídoto para as chatices do dia-a-dia?

Nunca ouvi essa antes! No entanto, “Out Of The Shadow” ajudou-me a superar os meus aborrecimentos.

Sente-se confortável ao lidar com as eternas comparações com os Shins, sendo que os vossos modelos são, provavelmente, mais antigos?

Ninguém se satisfaz ao sentir-se uma cópia a papel-químico de outra coisa. Mas não faz mal. É melhor que apareça alguém a dizer que somos parecidos com os Shins do que com uma banda verdadeiramente terrível. Quem me dera soar tão bem como os Shins! Penso, francamente, que eles são uma das melhores bandas que existem embora não concorde que os Rogue Wave soem como eles. A não ser se estivermos a falar do conceito guitarra/baixo/bateria/voz que lhes roubámos.

Perderam um elemento [a baixista Sonya Westcott] entre o primeiro e o segundo álbum. São agora uma banda 100 por cento masculina. O que se passou?

Só em condições excepcionais as bandas mantêm a mesma constituição para sempre. As coisas mudam, as pessoas entram e saem. Eu não cresci com irmãos, pelo que esta tem sido uma experiência interessante.

Diz-se que para “Descended Like Vultures” entraram em estúdio com material para gravar três álbuns. Onde estão os outros dois?

Bem, temos que os gravar antes de os editar. Adoraria começar já a gravar material novo – é a parte divertida disto tudo.

Referiu, aquando do lançamento do novo álbum, que “Descended Like Vultures” representa o início da banda (“isto é o começo, é aqui que começamos realmente”). “Out Of The Shadow” foi uma falsa partida?

O que eu disse significa que a banda Rogue Wave é mais do que uma pessoa. Há quatro indivíduos a contribuir com ideias e isso faz alterar o som do grupo e cria uma nova identidade. Não consideraria o primeiro álbum uma falsa partida. Chamar-lhe-ia antes uma ignição. O carro está em movimento nas estradas a tentar encontrar estacionamento. Mas odiamos o estacionamento paralelo.

“Descended Like Vultures” soa a um álbum de banda, em vez de um trabalho de uma pessoa apenas com uma banda emprestada. Mas pode dizer-nos qual foi, especificamente, o papel dos outros elementos?

Depende da canção. Toda a gente na banda toca múltiplos instrumentos, pelo que há uma grande liberdade em estúdio. Conseguimos tocar vários instrumentos ao mesmo tempo, ao vivo. Enquanto uma pessoa desenvolvia uma parte de piano, a outra pode estar a braços com uma linha de baixo. Toda a gente é encorajada a encontrar novas partes para as canções, a fazer harmonias de contraponto, etc.

Por essas razões, há algo no novo álbum que não fosse possível na altura em que trabalhou para o disco de estreia?

Tudo é possível. Só que eu gosto da forma como isto soa com toda a gente envolvida a tocar coisas estranhas em todo o lado! E os instrumentos soam melhor agora porque estão em melhores mãos.

Os Rogue Wave nunca tocaram em Portugal. O que é que estamos a perder?

Tentamos que a música tenha um significado ao vivo. Não estamos interessados numa mera cópia do que está no álbum. Levamos algumas das melhores ideias que tivemos em estúdio e interpretamo-las.

Há algo que simplesmente não suporte no decorrer de uma digressão?

A parte da condução pode tornar-se monótona. Sinto-me mal quando estou fechado um dia inteiro numa carrinha. Sinto-me como uma lesma, sem movimentos. Também me canso das estações de serviço. Espero que, a dada altura, nos mudemos para uma carrinha a biodiesel para evitar este tipo de coisas.

É admirador de Jon Stewart [apresentador do “Daily Show” na Comedy Central e confesso opositor da administração Bush]. Qual é o impacto que ele tem em si e como é que o compara a uma figura como Michael Moore [realizador, também contrário à política de Bush]?

O “Daily Show” é completamente diferente de qualquer outro programa na televisão norte-americana. Jon Stewart (e os argumentistas do programa) são capazes de satirizar a política de uma forma que não é apenas uma reacção automática a outros meios de comunicação. Parecem realmente corajosos nos assuntos abordados e independentes num sentido não-formulaico. Jon Stewart é, para mim, uma das pessoas mais importantes. Também admiro a coragem de Michael Moore. Alguns acusam-no de seleccionar a informação da mesma forma que os que critica o fazem mas quando olharmos para os filmes dele daqui a vinte anos, imagino que o consideremos certo.

A Sub Pop [editora dos Rogue Wave] tem agora um catálogo bastante extenso. Há alguma banda relativamente obscura que edite pela Sub Pop e que todos devamos conhecer?

Não faço ideia de o quão desconhecido será ele mas toda a gente devia conhecer Chad Vangaalen e o seu álbum “Infiniheart”. É um requisito.


Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 24)