THE SEA AND CAKE
O LADO DISCRETO DA POP
Aproveitando a deixa do concerto conjunto com os Tortoise no passado dia 31 de Março, a Mondo Bizarre falou com os The Sea and Cake. Talvez Sam Prekop, líder da banda, fosse mais elucidativo. Contudo, a conversa foi com o baixista Eric Claridge, que nos deu algumas pistas sobre a forma de estar de uma das mais interessantes (e diferentes) bandas de Chicago, e uma das melhores expressões da pop actual.
Como é que definem a música dos The Sea and Cake?
A música é apenas aquilo que fazemos como grupo. Cada elemento tem os seus interesses e influências, e o resultado é o que acontece quando tocamos os quatro juntos. É diferente dos outros projectos que temos a solo. Pessoalmente eu não rotulo a música que fazemos.
Como é possível que uma banda como os The Sea and Cake ainda não tenha alcançado um sucesso correspondente à qualidade da vossa música?
As pessoas compram aquilo que lhes interessa. Se querem comprar um disco para dançar compram. Nós não nos autopromovemos e não fazemos vídeos porque não temos interesse nisso. Apesar de sermos todos artistas, e até podermos idealizar um vídeo, não vamos gastar milhares de dólares para nos mostrarmos. Estamos contentes com a música que fazemos, e não estamos preocupados em ir para um editora maior que nos possa vender a imagem. Não temos essa ideia pré-concebida.
Quais são as vossas principais influências e que bandas ou compositores iluminam as vossas melodias?
Provavelmente a soul e o jazz, mas não num sentido directo. No geral todos gostamos mais ou menos das mesmas coisas, se bem que cada um tem os seus interesses particulares. Eu gosto um pouco de tudo. O Archer Prewitt gosta de bandas pop dos anos 60. O Sam Prekop aprecia free jazz, mas tal como o John McEntire, tem gostos muito abertos.
A música dos The Sea and Cake parece que tem muitas influências dos anos 60 e 70. Qual é a sua opinião?
Tudo o que gostamos visual ou musicalmente influencia o processo de composição. Mas o mais importante é sem dúvida a química que existe entre nós.
Ouvi dizer que os músicos da banda, nomeadamente o Sam Prekop e o Archer Prewitt, são artistas para além de músicos...
Eu e o Sam pintamos e temos várias exposições, não só nos Estados Unidos, mas também na Europa, no Japão e na Austrália. O Archer é cartonista e tem uma publicação chamada Sof'Boy.
No seu caso, que tipo se pintura é que faz?
Eu sou um outsider, um artista autodidacta. Pinto muito animais.
Como é que conseguem conciliar o trabalho nos The Sea and Cake com o trabalho nas outras bandas em que participam, e até mesmo com os vossos trabalhos a solo?
Temos sempre algum hiato que aproveitamos. Enquanto os Tortoise estiveram a gravar o novo disco, eu estive a trabalhar no meu disco a solo. Nos três anos que passaram entre os dois últimos discos dos The Sea and Cake, o Archer editou dois discos e o Sam um, porque os Tortoise estiveram muito tempo em digressão. Nós temos tantos interesses, que enquanto os outros estão ocupados, ou pintamos ou trabalhamos nos nossos projectos a solo.
Trabalham muito a vossa música, ou preferem improvisar e experimentar?
Basicamente, o Sam aparece com um acorde, ou com uma ideia, e eu e o Archer trabalhamos com ele. Depois passamos ao John, que altera sempre alguma coisa. É uma combinação entre improvisação e experimentação, e depois trabalhamos a partir daí.
Quando estão em estúdio, gravam um instrumento de cada vez, ou gravam em regime live?
No álbum anterior, "Fawn", gravámos um instrumento de cada vez, porque trabalhámos com muitos samplers e caixas de ritmos. No "Oui" já gravámos os quatro ao mesmo tempo, e depois adicionámos a voz. Este foi um álbum muito mais orgânico, como se se tratasse de um disco ao vivo.
Hoje em dia, há uma questão inevitável quando se fala com um músico ou uma banda de Chicago: acha que existe uma cena de Chicago? E se existe como é que se pode definir?
O que se passa é que durante alguns anos Chicago foi um local barato para viver. Como era um sítio central, onde existiam bons clubes e estúdios de gravação baratos, vieram vários músicos dos arredores, e até de fora. Estava ali tudo o que era necessário. Mesmo assim, Chicago conseguiu ser ignorada pelas majors. Acho que é essa combinação de elementos que faz com que se fale de uma cena de Chicago. Mas acho que lá ninguém fala propriamente de um movimento em especial.
Mas se existe uma série de bandas como os Tortoise, os Shellac, etc., não se pode falar de uma cena local?
A maioria dos músicos são amigos e talvez esteja aí o carácter especial. Não existe nenhuma competição entre as bandas, apenas muito talento que produz bons resultados.
A compilação "Chicago 2018... It's Gonna Change" é um bom exemplo do que está a acontecer neste momento?
Lamento mas não conheço essa compilação.
Um dos locais míticos de Chicago, o Lounge AX, chegou a fechar ou ainda continua aberto?
Devidos às pressões e às ameaças estatais teve que fechar. Mas se tudo correr bem, vai reabrir em breve. Os donos estão à procura de um novo local. Nós somos amigos deles e chegámos a tocar lá. Era um espaço muito interessante.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 7)
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