Entrevistas
THE SEA AND CAKE
UM QUARTO COM VISTA PARA O MAR
Estiveram connosco em Setembro do ano passado, por ocasião dos concertos do 10º aniversário da editora à qual estão ligados desde o início, a Thrill Jockey. O seu mais recente álbum, “One Bedroom”, foi editado há poucas semanas e serviu de pretexto óbvio para uma conversa telefónica com o guitarrista, vocalista, pintor e fotógrafo Sam Prekop, líder da formação mais pop e mais “tropicalista” da cena pós-rock de Chicago.

Os Sea And Cake – que assim se chamam por John McEntire ter desta forma interpretado o nome do tema “The C In Cake”, de uma das suas outras bandas, os Gastr Del Sol – iniciaram a sua carreira em 1993, quando os dois ex-Shrimp Boat Sam Prekop (voz e guitarra) e Eric Claridge (baixo) convidaram o ex-guitarrista dos Coctails, Archer Prewitt, e o já então baterista dos Tortoise, John McEntire. Dez anos mais tarde e seis álbuns depois – “The Sea And Cake” (1994), “Nassau” (1995), “The Biz” (1995), “The Fawn” (1997), “Oui” (2000) e este “One Bedroom” (2003) – a formação mantém-se inalterada e com o vigor suficiente para que continue a produzir canções imediatamente agradáveis ao ouvido e portadoras uma frescura própria de outras latitudes e outras paragens que não a cinzenta Chicago. Registe-se ainda as experiências a solo de Prekop – “Sam Prekop” (1999) – e de Prewitt – “In The Sun” (1997), “White Sky” (1999) e “Three” (2002) –, ficando os inúmeros projectos em que todos os membros do grupo participam, na melhor tradição da hiper-movimentada cena de Chicago, para outras contagens mais aventureiras.

Em “One Bedroom” voltamos a poder ouvir as melodias de fácil acompanhamento a que os Sea And Cake habituaram o seu público nos álbuns anteriores, não sendo de esperar que ao sexto álbum o grupo venha a produzir diferenças dignas de grandes observações de surpresa. Para além do já habitual toque tropicalista (ou aquilo que um americano pode retirar da pop e da bossa nova brasileira), os Sea And Cake investem também nos padrões rítmicos do kraut rock, particularmente nas duas primeiras faixas. A maior surpresa é mesmo a forma como termina o álbum, com os Sea And Cake e os Aluminum Group a fazerem uma versão para “Sound & Vision”, de David Bowie. Sobre tudo isto e mais, falámos com Sam Prekop nesta entrevista.

O ÁLBUM

“One Bedroom” estava para sair em Outubro do ano passado, mas os Sea And Cake e a sua editora adiaram a sua edição para Janeiro. Como se sente uma banda numa situação destas?
Sim, o álbum estava para sair em Outubro, mas tivemos que adiar a sua saída por questões de agenda da Thrill Jockey. A digressão de aniversário, em Setembro de 2002, fez com que algumas coisas tivessem que ser adiadas. Mas eu até fiquei contente, pois assim tivemos mais tempo para ensaiar antes de avançar para a digressão, a qual já teria começado, caso o disco tivesse saído na data inicialmente prevista.

O que é o “One Bedroom”?
Bom... Basicamente são duas palavras que apanhei no ar. Têm a ver um pouco com a fotografia da capa. Aliás, o título surgiu depois da fotografia estar escolhida. Aqueles edifícios muito impessoais de qualquer cidade sugerem, em conjunto com o título, uma mistura interessante, que acaba por dar a ideia de alguma melancolia. E eu acho que este é um dos nossos discos mais tristes.

Mais tristes?
Sim, embora os temas tenham, como sempre, um toque “up-tempo”, há uma atmosfera geral que o torna um dos nossos álbuns mais melancólicos. Não sei se consigo explicar bem porquê.

De que fala este disco?
Fala de pequenas coisas que vão acontecendo. De uma forma geral, tentei escrever pequenas histórias de uma forma mais ou menos impressionista sobre coisas que ocorrem no quotidiano. Sem o explicar de forma muito concreta, para que cada pessoa que ouça as letras também as possa interpretar à sua maneira.

Em “One Bedroom” mantém-se algumas das referências à pop e ao jazz brasileiro que marcavam já presença nos vossos discos, e em particular no seu álbum a solo. Quando e como começou este interesse pelo Brasil musical?
O meu interesse pela música brasileira começou quando, aqui há alguns anos, ouvi um disco de um brasileiro chamado João Donato, “Quem é Quem” [N.R.: João Donato é um dos mais importantes pianistas do movimento bossa nova, e tem vindo a colaborar, desde os anos 50, com inúmeros artistas, brasileiros e não só, destacando-se a relação estreita que teve com o “afilhado” João Gilberto; o álbum de que Sam Prekop fala é de 1972 e foi o primeiro em que o músico cantou]. Nós gostamos muito de bossa nova e outras coisas que aqui vão chegando. E é natural que isso acabe por se reflectir na nossa música.

Há também uma referência ao kraut rock, e em particular aos Neu!, algo que não era tão nítido antes.
Sim, há uma faixa onde isso se nota mais: “Four Courners”. Talvez seja um pouco o regresso aos nossos álbuns mais antigos, como “Nassau” (1995). Talvez tenha muito de Neu!, talvez tenha a ver com o que íamos ouvindo ou nem por isso. Um disco reflecte sempre inúmeras influências, muitas das quais nem nos apercebemos de forma consciente.

Como é que aparece aqui a versão para “Sound & Vision”, de David Bowie?
Surgiu através do John [McEntire]. Nós andávamos a pensar, aqui há uns cinco anos, numa versão para tocar em concertos e ele lembrou-se de “Sound & Vision”. É uma canção de que gosto muito, aliás, todos somos grandes admiradores do Bowie. No entanto, eu e os outros não achámos inicialmente piada à ideia de a ter neste disco. Eu era mesmo contra isso, mas depois acabei por concordar e até acho que ficou muito bem.

Os Aluminum Group participam nesta versão. Como chegaram até eles?
Os Aluminum Group são amigos nossos há muito tempo e eu achei que precisava de ajuda nas vozes, pois o meu tom é agudo demais para este tema. E os irmãos Navin lá deram uma ajuda.

Também há nos Aluminum Group uma certa adoração pela música brasileira. Coincidência?
Sim, creio que se trata de coincidência. Talvez tenhamos gostos parecidos [risos]. Nós conhecemo-nos há muito tempo aqui de Chicago. E entretanto nós também colaborámos no último álbum deles, “Happinness”.

CARREIRA A SOLO

Porque é que decidiu fazer um álbum a solo depois de “The Fawn” (1997)?
Bom, o John [McEntire] nessa altura ia precisar de estar ocupado uns meses com outros projectos [N.R.: o baterista John McEntire é aliás hoje um dos músicos mais prolíficos da chamada cena pós-rock de Chicago, integrando, além dos Sea and Cake, as formações dos Tortoise e dos Gastr Del Sol, e gravando e produzindo os trabalhos de grupos como Stereolab, Rome, Eleventh Dream Day ou Trans Am]. Por outro lado, eu tinha material escrito que queria fazer sair. Falei com uma série de pessoas e arranjei as coisas de forma a gravar um álbum a solo. Eu gosto de estar sempre a fazer coisas, mas nunca faço duas coisas ao mesmo tempo. Adquiri uma disciplina de trabalho há muitos anos. Sou ordenado e metódico no que faço. Não necessariamente como num emprego das nove às cinco, mas nunca misturo as minhas artes. Se estou a pintar, estou a pintar; se estou a fazer música, estou a fazer música. Cada uma dessas coisas é feita em períodos separados. As fotografias, em geral, são tiradas em digressão porque há sempre muito tempo morto e não gosto de estar sem fazer nada. Então prefiro passear pelos sítios a onde vou e fazer fotografias.

Como é o processo de trabalho nos Sea And Cake?
Não é muito diferente de qualquer outra banda. Cada um traz um pedaço da música, um riff, por exemplo, e depois em conjunto trabalhamos o tema, com jams entre todos ou com trabalhos mais específicos. As letras são minhas, mas toda a gente participa na composição e toda a gente tem também algo a dizer durante a fase da mistura das canções. Os discos são produzidos por todos nós, porque trazemos ideias para o estúdio que são usadas nos discos. Mas em termos mais técnicos é o John [McEntire] quem decide. É ele o responsável pela captação do som e por todas as questões técnicas da gravação.

É por essa razão também um trabalho diferente daquele que houve para o álbum a solo, portanto.
Sim, no álbum a solo fui eu que fui decidindo quase tudo, até porque não estava com qualquer uma das pessoas durante todo o tempo de fabricação do disco, ao contrário do que acontece nos Sea And Cake, em que estamos todos presentes do início ao fim.

É porque nenhum de vós se dedica a tempo inteiro ao grupo que têm conseguido garantir esta estabilidade ao longo dos anos?
Sim, creio que essa deve ser a razão principal. Só o facto de não vermos as caras uns dos outros todos os dias leva a que as coisas funcionem melhor. Ao contrário de outros grupos, não andamos sempre em digressões, não nos cansamos de nós mesmos. Cada um de nós tem os seus outros projectos [N.R.: o guitarrista Archer Prewitt, por exemplo, já tem vários álbuns a solo: ver entrevista na última Mondo Bizarre], que não passam apenas pela música. De forma que, de cada vez que nos juntamos, há um grande espírito e uma grande vontade de fazer as coisas bem feitas, sem qualquer espécie de atrito a assinalar. Bom, por vezes as coisas podem-se tornar tumultuosas [risos], mas não é frequente.

Coloca a hipótese de vir a abraçar outra experiência a solo?
Sim, claro. Quero continuar a fazer as minhas coisas, embora o trabalho com os Sea And Cake esteja a correr da melhor maneira e para já só queira pensar nisso.

CONCERTOS E DIGRESSÕES

Guardou alguma memória do concerto de Lisboa?
Do concerto não creio que me recorde de muita coisa. Lembro-me mais de Lisboa. Cidade linda. Ah, lembro-me do concerto dos Trans Am aí mais do que dos outros. Acho que foi um espectáculo cheio de garra.

E do resto da digressão de aniversário da Thrill Jockey?
Não há nada de especial a destacar. Talvez o arranque, em Londres, que teve concertos excelentes. Fora isso... não sei. Gostei muito dos concertos mas nós ainda não tínhamos a maior parte do nosso material e estávamos com medo que esses concertos fossem muito semelhantes aos que tínhamos dado na digressão anterior. Mas acontecem sempre bastantes coisas interessantes. Nós adoramos andar na estrada em concertos. Ainda agora viemos de uma série de boas datas no Japão.

Como é a reacção dos japoneses à vossa música?
É óptima! Eles adoram-nos. Eles adoram tudo, aliás. Correu tudo muito bem. É engraçado a forma como eles respeitam a banda, sem fazerem qualquer barulho enquanto estamos a tocar.

Estamos, possivelmente, na madrugada de uma nova guerra no Iraque. Isso poderá vir a ter influência na próxima digressão europeia dos Sea And Cake?
Não sei bem. É muito triste saber que pode estar uma guerra aí para rebentar. O Bush é um idiota... Não sei ainda de que forma isso vai poder afectar as nossas datas. Para já, não estão nenhumas definidas. Vamos tocar aqui nos EUA, mas ainda não sabemos como vai ser depois.

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 14)