SECRET CHIEFS 3
A CAMINHO DO ALÉM
Em Setembro de 2001 os Secret Chiefs 3 (SC3) editaram o seu terceiro álbum, “Book M”, um impressionante cocktail de metal, música indiana e árabe, drum’n’bass sideral, música medieval e até soul. Esta banda, que conta com o núcleo duro dos Mr. Bungle (Trey Spruance, Trevor Dunn, Bär Mckinnon e William Winat) quer mostar como se faz música do outro mundo. Falamos com o mentor, principal compositor e instrumentista dos Secret Chies 3, Trey Spruance.
Depois de um ano e meio a trabalhar em “Book M”, não acha que é reconfortante ouvir o disco e dar-se conta do quão gratificante foi tocar, gravar e produzir um disco tão admirável?
Por acaso é verdade. Geralmente não gosto de ouvir os meus discos depois de acabados. Só acho divertido o processo de feitura. Mas com este... Não sei, talvez tenha feito algo como deve ser? Consigo perder-me nele independentemente da aproximação escolhida. É isso é o que procuro na música que ouço. Talvez tenha feito um disco para eu próprio ouvir.
Se se ouvir as vossas primeiras gravações - os singles “The Lengendary Paper Project”, “Theatrum of Suprasensory Universes” e o álbum “First Grand Institution and Bylaws”-, nota-se que além de soarem ecléticas, étnicas e misticas, algumas das canções (ou deveremos dizer temas?) eram algo experimentais e divertidas. Mas “Second Grand Constitution and Bylaws” e especialmente “Book M”, nota-se um evoluir em direcção a um certo iluminismo. Concorda?
Iluminismo é uma palavra pesada. Mas acredito que a música agora seja mais “iluminada”. Mas também tem uma escuridão mais profunda. Geralmente denunciamos o espiritualismo moderno, não por sermos “contra a luz” mas por sermos contra qualquer tendência que se aproxime dos vícios das esperanças modernistas, pois ao pintar-se o mundo espiritual com uma leve sombra de “calor e indestinção” para um consumo metódico, espalham-se mentiras e não a verdade. Assim sendo, tais expectativas não devem ser acalmadas mas esmagadas. Se o necessário é arrependimento não basta dizer “estou bem, estás bem”. Mas de certo modo, os primeiros trabalhos eram mais iluminados pois eram mais “leves”, mais dada, menos enraizados na realidade. O “peso” da nossa escuridão costumava levar-nos à loucura iluminada. Agora estamos mais próximos do equilibrio e com um pé fora do mundo e outro dentro.
Até “Second Grand Constitution and Bylaws” eram um power-trio (Danny Heifetz, Trey Spruance, Trevor Dunn). Se, à época já eram vistos como uma super banda o que se consideram agora?
Nunca fomos uma banda. Estou sempre a dizer isto mas ninguém acredita em mim. Não acredito em bandas, mas como as aparências são tremendamente importantes entramos no jogo. O Danny e o Eyvind são os principais instrumentistas da campanha já que ambos conseguem fazer tudo. A bateria de “Vajra” foi tocada em duas horas e o Danny nunca tinha ouvido aquele pedaço antes de o gravar. Deixe-me que lhe diga que estou a trabalhar com “monstros”. Mas ninguém tem nenhuma necessidade particular de satisfazer o ego e estar numa banda quanto mais tempo para perder com politicas subservientes e copos. Ainda que, como pago royalties a toda gente, sejamos, nesse sentido como “uma banda”.
Tal como com os Mr. Bungle gosta de fazer versões com os SC3. E consegue dar um ar refrescante aos originais fazendo com que se encaixem no som dos SC3...
Há muita música boa por aí. Quem sou eu para achar que escrevo muito bem? Julgo que meio por meio é uma coisa boa. Neste momento temos 65 por cento de material meu e 35 por cento de versões. Um destes dias, como serviço aos ouvintes, deixo de escrever música compreensível e passo a tocar boas versões.
Mais uma vez trabalhou com músicos convidados, como o percursionista William Winant e alguns membros dos Estradasphere. Como foi o proceso de gravação de “Book M”?
Mais uma vez, se há 14 músicos presentes em “Book M” quais são os convidados? Não sei quem é a “banda”. Somos todos os que participamos no álbum. Foi incrível gravar tantos talentos diferentes em tão diversas localizações. Levei o estúdio até eles para que pudessem estar no seu habitat natural. Juro que é o único modo de fazer as coisas!
Este é o vosso primeiro álbum totalmente instrumental. Há alguma razão para não querer outro hino rock como “Killing of Kings”?
Não há razão nenhuma. Gravaria 8 milhões de hinos rock como “Kiling of Kings” se achasse que isso matava o mau rock e os modos de ser do mau rock. Mas isso não acontecerá. E há outros modos de o fazer.
“A honestidade já não voa como um papagaio; o vazio já não sustem o barco à superfície; o nihilismo é falso e a rapariga enfarinhada corta o bolo; o punk rock é o esconderijo mais fácil”. Olhando para todos os sítios é o que parece, não é?
Não me chame profético, mas já acontecia em 1996 quando gravei esse pedaço de trampa.
“A acção designada da vida é o maior treino da providência; e se o homem se ligar a ela não terá necessidade de igrejas ou ordenações, talvez excepto para a expressão da sua gratidão e homenagem. A sua vida tornar-se-à a doutrina sagrada, a vasta terra o seu altar; o seu incenso o sopro da vida (Ruach Elohim); o seu fogo sempre aceso por luzes infinitas”. A nossa salvação reside na vida ou é a morte que nos mantem longe do mal?
Nada nos mantem longe do mal. A morte é purificação e para mim a vida começa na nossa primeira morte. A nossa salvação reside na nossa vontade, o que só conseguimos entender após a morte. Lamento não poder ser mais elaborado e ter que falar tão cripticamente. Garanto-lhe que não sou um mistificador, só não tenho tempo para lhe explicar tudo detalhadamente.
Mudemos de assunto. Como tem corrido as coisas com a sua editora, a Web of Mimicry? Já se tornou rico?
Fiz milhoes! Se há coisa de que tenho a certeza é de que me safo melhor que a Warner Brothers. É um modo de vida e agradeço a Deus por isso. Mas também agradeço a Deus quando ele me cospe na cara, coloca infindáveis obstáculos no meu caminho e me envia caluniadores demoníacos que me dão como um charlatão que persegue mulheres. Por isso... Ganho o suficiente e gosto do modo como as coisas correm. Funcionamos por passa a palavra . Não temos publicidade, nem hype, nem grandes nomes. Enquanto as pessoas comprarem os CD’s posso ir fazer cada vez melhores discos uma vez que vou conhecendo pessoas e estou constantemente a aprender coisas novas. Estabelecer isso com um contracto implicito entre mim e o “publico de culto” existente. Estou convencido que esse é o único modo de se ser.
Nota: as citações que abrem as algumas das perguntas pertencem a textos da autoria de Nancy Spruance.
Carlos Cardoso
(Mondo Bizarre # 10)
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