Entrevistas
SHARON JONES
A MADRINHA DO FUNK
A senhora calma e simpática que acabamos de entrevistar não pode ser a mesma mulher louca que provoca incêndios nos espectáculos ao vivo. Sharon Jones é um furacão funk autêntico: tem quase cinquenta anos, dois discos gravados, uma excelente banda com muito estilo e energia que nunca mais acaba. E chamemos-lhe “madrinha”, que o James Brown não deve chegar a ler isto.

É natural da mesma cidade que James Brown. O “godfather Of funk” foi uma grande influência para si?
Eu nasci em Augusta mas fui criada em Nova Iorque. Lá para 1966, quando, eu tinha uns dez ou onze anos, eu e o meu irmão costumávamos imitar o James Brown, a cantar e a dançar as suas músicas. Mas só muito mais tarde, quando comecei a cantar, é que percebi a importância daquela música, e só então é que entendi que sim, que ele influenciou muito a música que faço agora.

O funk costuma ser associado ao mundo masculino, enquanto que a soul é mais feminina. Concorda com esta afirmação?
Não, não acho que o funk seja algo mais masculino ou feminino. Há vários tipos de funk, o funk da Bootsy's Rubber Band, o funk dos 70’s, o funk dos 80’s e a música que nós estamos a fazer é o funk clássico, do fim dos anos 60 e início dos 70. Não é uma questão de ser música de homem ou mulher, o funk, para mim, tem a ver com aquilo que se sente, aquilo que vem cá de dentro: vem dos blues, da música, dos instrumentos… da alma!

O mundo da música ainda é, como dizia James Brown, “a man's, man's, man's world”?
Bem, o James é um homem, por isso ele tem de dizer essas coisas… Mas ele também canta [e começa a cantar]: “it would mean nothing without a woman or a girl” – ele já sabia isto. Já não vivemos num mundo só de homens. E eu sou um exemplo, estou aqui para fazer o meu “funk stuff”!

Começou a cantar há já muito tempo mas só recentemente gravou em nome próprio. Como aconteceu isto?
Eu já tinha feito algumas coisas antes. Há um par de anos atrás, fiz uma música com o DJ Greyboy, que se chamava “Got To Be A Love (I Can Call My Own)” – fui eu que escrevi a letra da canção. Ele fez duas versões do tema, uma versão funk e outra meia-house, com scratch e com alguém a rappar por cima [imita batidas house e canta a música]. Por isso, antes gravar com os Dap-Kings, já tinha trabalhado com outras pessoas.

Como prefere ser tratada, por “Queen Of Funk” ou “Soul Sister #1”?
Por mim tanto faz. Comecei a ouvir “Soul Sister Number One” quando fui a França e ganhei o título de “Queen Of funk” quando estive em Londres. Gosto de ambos. Pode ser que aqui me dêem um novo nome… talvez “Godmother Of Soul” ou “Godmother Of Funk” – mas depois o James Brown podia ficar chateado. (risos)

Até agora os seus discos são muito dançáveis, sempre cheios de funk pesado. Já pensou fazer fazer um trabalho mais calmo, só com baladas soul, por exemplo?
Não, de momento não penso nisso. O Bosco [Mann], o nosso baixista, é que compõe a maior parte da música e nós fazemos aquilo que nos apetece, nunca pensamos fazer um disco só de um estilo ou só de outro. Fazemos o que gostamos e vamos continuar a trabalhar assim.

O seu repertório é quase só constituído por temas originais. Já pensou fazer mais versões?
No primeiro álbum fizemos uma versão de um tema da Janet Jackson, “What Have You Done For Me Lately?”. E no último disco também fizemos uma versão do “This Land Is Your Land”, uma música que toda agente conhece. Mas não vamos fazer versões só porque as pessoas nos pedem ou porque gostavam que nós fizéssemos, vamos continuar a fazer como fizemos até aqui, temos originais e se nos apetecer fazer alguma versão fazemos.

Se neste momento pudesse escolher qualquer artista, com quem gostava de trabalhar?
Neste momento estou muito contente com os músicos com quem trabalho, os Dap-Kings. Para já gostava de trabalhar com um teclista, que devia ser um bom contributo para o som da nossa banda. Mas, se pudesse mesmo escolher qualquer músico, escolhia… o Stevie Wonder.

Talvez um dia ainda venha a trabalhar com ele…
Adorava que isso acontecesse, isso seria mesmo muito bom. Era perfeito ter daqueles teclados do Stevie a acompanhar as minhas canções. E se o Quincy “Mr.” Jones estivesse por perto, também gostaria muito de trabalhar com ele.

O que acha da reacção da Europa à sua música? É diferente da da América?
Ó meu Deus! Completamente! O público europeu é muito diferente do americano porque aqui sente-se que as pessoas apreciam mesmo a música. Lá há tantos bares e tantas bandas diferentes que as pessoas saem para beber um copo aqui ou ali e nem ligam à música. Mas aqui as pessoas vão a festivais, vão mesmo para ouvir a música, interessam-se quando lêem artigos sobre nós, as pessoas estão atentas ao que anunciam nos jornais, revistas e rádios. Isso ajuda-nos e aqui as pessoas gostam de nós. E eu adoro estar aqui porque as pessoas sentem mesmo a música.

A música nos seus discos está sempre cheia de energia. Como é transpor essa energia para o palco, para os espectáculos ao vivo?
Se as pessoas já gostam da energia do disco, ao vivo têm muito mais energia. Eu digo sempre às pessoas: “sim, o disco é porreiro, mas já ouviram isto ao vivo?” e elas respondem “não” e então eu digo-lhes “então tem de ver um espectáculo nosso!” Porque o espectáculo é diferente, as canções ao vivo são muito diferentes. Por exemplo, quando canto “This Land [Is Your Land]” ou “ [What If We All Stopped Paying] Taxes” também há muita actuação teatral, faço piadas, etc. O espectáculo tem mais vida.

Muitos dos seus fãs descobriram a soul/funk através do hip hop, que sempre usou samples da música dos 70’s. O que pensa do sampling?
Acho que é bom. E estou contente por fazer a música que faço para que eles me possam samplar a mim também. Os mais novos têm de fazer a música deles, por isso não os censuro, deixemo-los fazer a música à sua maneira. Acho também que da nova geração de cantoras há algumas raparigas que têm muito boas vozes, vozes fortes. A Alicia Keys, por exemplo, mas podia enumerar mais uns quatro ou cinco nomes. O que eu espero dos jovens é que aprendam a tocar os instrumentos para fazer a sua própria música e que sejam criativos. É importante que se saiba tocar para, por exemplo, se algo correr mal no palco, saber improvisar na hora.

A sua música dá vontade de começar a dançar. O que acha de ver a sua música transformada por DJs?
Essa ideia agrada-me. Gosto de ouvir vários estilos de música e gostava de ver a nossa música remisturada mais vezes. Não me importo que seja dado tratamento electrónico à nossa música desde que se faça boa música, isso é o que interessa mais. Nós adoramos aquilo que fazemos, isto é o mais importante e isto nunca ninguém nos vai poder tirar.

Nuno Catarino
(Mondo Bizarre - Setembro 2005)