SHIVAREE
“A MÚSICA FAZ-NOS SENTIR JOVENS PORQUE NÃO TEM FIM”
Ambrosia Parsley tem graça. Quando a encontramos num elegante hotel da baixa lisboeta, está a acabar de dar uma entrevista para a televisão. Saúda-nos de forma efusiva, deitando por terra a pose distanciada e glamourosa das fotografias, e confessa que não gosta nada de câmaras. Contrapomos que é muito fotogénica, e a justificação não se faz esperar: “Isso é porque retoco muito as minhas fotografias!”.
Na conversa que se seguiu, a vocalista dos Shivaree fez uso da mesma frescura e naturalidade para falar sobre “Who’s Got Trouble?”, o disco que marca o regresso da banda, após uma longa travessia no deserto. “Rough Dreams” (2002), o segundo disco, nunca foi lançado nos EUA, porque antes que houvesse tempo para isso, Ambrosia Parsley, Duke McVinnie e Danny McGough quiseram sair da EMI e encontrar uma editora mais consentânea com a sua ambição e a sua música.
O divórcio foi penoso mas terá valido a pena, pois em 2005 os Shivaree lançam, pela pequena etiqueta Zoe, aquele que é, muito possivelmente, o melhor disco da sua carreira. Inspirado no filme “Casablanca” (1942), “Who’s Got Trouble?” devolve a banda de “I Oughtta Give You A Shot In The Head...” ao cabaret, aos romances de faca na liga e aos sonhos pop feitos à medida de grafonolas e telefonias antigas.
Nem de propósito, Ambrosia Parsley conta-nos que, para ganhar a vida, cantou durante um ano as notícias numa rádio norte-americana. “Ambrosia Parsley Sings The News” e o genérico final de “Kill Bill”, para o qual Quentin Tarantino repescou o êxito ‘Goodnight Moon’, ajudaram Ambrosia e amigos na ressurreição. Qual Uma Thurman a sair da campa, a diva que se ri quando sabe que há quem lhe chame isso esteve pela «sexta ou sétima vez» em Lisboa. As palavras e o riso, no filme que se segue.
Os Shivaree estão em digressão há quanto tempo?
Desde Janeiro. Tem sido divertido tocar o novo álbum ao vivo, e também gostamos de apresentar as músicas que não estão no disco. Já temos umas quantas.
As pessoas ainda ficam surpreendidas ao saberem que os Shivaree estão de volta?
Não sei bem... Eu nunca senti que me tivesse ido embora, porque nunca parei de trabalhar. Não conseguimos promover convenientemente o último disco (“Rough Dreams”, 2002), mas acredito que se desejarmos uma coisa com força suficiente, ela acaba por acontecer. Rompemos com a editora e isso roubou-nos um ano da nossa vida. Basicamente, foi isso que nos aconteceu. Podia ter sido pior, podia ter sido melhor. Depois daquele segundo disco, que nunca chegou a sair [nos EUA], começámos a escrever outro. Por acaso gosto bastante de escrever discos, por isso fiquei satisfeita (risos).
Será que o “Rough Dreams” alguma vez vai sair nos EUA?
Duvido. “Bye bye, record!...” (gargalhada) Está na gaveta.
Mas aproveitaram uma música desse disco para o novo “Who’s Got Trouble?”...
Sim, quando deixámos a editora tivemos autorização para regravar algumas das músicas desse disco. Escolhemos uma [‘2 Far’], que era a que se encaixava no novo álbum.
Como é que os Shivaree mantiveram a moral durante o período de rescisão com a editora?
Bem, fomos nós que quisemos sair. Foi por isso que a rescisão levou tanto tempo. Um pesadelo legal, que nos obrigou a esperar e esperar... Não fazíamos sentido numa grande editora, na América. Não fazemos esse tipo de discos, não estamos interessados nesses jogos, pelo que ficámos muito satisfeitos por abandonar a empresa. Mas de repente deixou de entrar dinheiro nos nossos bolsos, enquanto escrevíamos o disco novo. Por isso, o Duke foi em digressão com a Joan Baez e o Danny com os Social Distortion. E eu cantei as notícias para a rádio Air America, durante um ano. Basicamente, foi isso que fizemos. [Nota: a rádio Air America é uma estação de orientação política de esquerda, criada pelo comediante Al Franken para servir de contraponto às estações conservadoras.]
Como é que foi essa experiência?
Foi giro! Soube-me bem trabalhar para o meu seguro de saúde mandando vir com o Presidente [Bush] uma vez por semana, assim como poder ajudar um pouco... Sou só uma cantora e escritora de canções, pelo que geralmente não me chamam para intervir nestas áreas. Com o estado da política neste momento, toda a gente na América tem muita paixão pelo assunto, de uma forma ou outra. Foi muito divertido poder fazer uma coisa engraçada no meio de um programa que transmitia as notícias mais deprimentes e horrorosas durante o resto do dia. Gostei de fazer rir as pessoas, uma vez por semana.
No novo disco, é a Ambrosia que assina muitas das músicas. Qual a sua principal inspiração, quando compõe?
É engraçado quando uma história nos volta a aparecer e diz: “Cá estou eu outra vez!”. Como um pequeno fantasma a entrar numa sala... e tu tens de encontrar espaço para encaixar [a história]. Às vezes é um certo pormenor ou a forma como a luz incide na sala que te recorda alguma coisa que aconteceu há muito tempo, de uma maneira tão nítida... É assim que me surgem as histórias. Simplesmente, aparecem.
Escreve mais de dia ou de noite? “Who’s Got Trouble?” é um disco bastante nocturno...
Tanto de dia como de noite. Como acabo de dizer, nunca sabemos quanto é que as histórias nos vão aparecer.
O novo disco foi produzido por Victor Van Vugt mas tem uma ambiência característica dos discos de Joe Henry, que produziu o vosso primeiro álbum...
Sim, o Joe Henry foi o responsável por uma boa parte do primeiro álbum. Mas esse ambiente... é parte da nossa cena, é mais ou menos o que fazemos. Gravar o “Who’s Got Trouble?” foi um processo bastante simples. O Victor é um produtor que vai directo ao assunto – tal como o Joe, de resto. Metem-nos no estúdio e dizem: “Agora toquem!” e está feito. Mas este último disco foi especialmente rápido. Gravámos em duas semanas, fizemos as misturas nas duas semanas que se seguiram e pronto!
Sentem-se orgulhosos do resultado final?
Penso que resultou benzinho... é sempre complicado avaliar as coisas que fazemos. Não consigo ouvir o disco nem nada, mas gosto muito de cantar as músicas ao vivo.
Qual a sua favorita, para tocar ao vivo?
Depende. Vai mudando todas as noites, o que é bom. Quando trazemos músicos diferentes em digressão ou mesmo quando mudamos uma só pessoa no line up da banda, durante parte da tournée, o som fica logo diferente, o que é divertido.
Qual o melhor concerto desta digressão até agora?
Gosto de todos. Dos grandes, dos pequenos... Gosto sobretudo daqueles com bons monitores, em que me consigo ouvir a cantar (risos). É só isso que peço. Isso e bom catering – yeeeaah!
Costumam ter isso em Portugal?
Aqui somos sempre tratados muitíssimo bem.
Esta é a segunda vez que vem a Lisboa...
Mais, mais! Já cá estive muitas vezes. Esta deve ser a sexta ou sétima. Vim cá de férias, em trabalho, para concertos...
Concertos foram dois, e em ambos esteve um amigo meu, no público, a pedi-la em casamento. Aparte esse episódio, guarda alguma memória dos espectáculos em Lisboa?
(Gargalhada) É muito bom poder fazer aquilo de que gostamos com as pessoas que adoramos. [Os Shivaree] estão juntos há quase dez anos e ainda gostamos uns dos outros, ainda gostamos de tocar uns com os outros, ainda nos surpreendemos mutuamente, o que é óptimo.
Quando em digressão, passa o tempo a dar entrevistas, fica hospedada em bons hotéis... Há um grande contraste entre essa imagem de diva pop e o seu quotidiano?
Hum... definitivamente, não sou uma diva pop (risos).
Há quem pense que sim...
A sério? Porque é que hão-de pensar uma coisa dessas? (gargalhada) Bem, eu gosto de andar na estrada. Há uma certa simplicidade nisso. Não pensamos em mais nada. Levantamo-nos, dão-nos os nossos 15 euros por dia, metem-nos num carro, levam-nos até ao sítio do concerto, fazemos o soundcheck, comemos, tocamos, vamos para a cama. E é só. É tudo tão simples! Às vezes, custa-me acabar a digressão e voltar para casa, porque não sei o que fazer comigo mesma. Há demasiadas coisas em que pensar, pilhas enormes de correio que me põem toda stressada, e-mails que não leio há três meses, e depois o telefone toca e eu não quero ter um ataque cardíaco (risos). Por isso é que gosto de andar em digressão. Podia fazer isto anos a fio! Não vou fazê-lo, até porque não seria possível, mas conseguia fazê-lo, na boa.
“Who’s Got Trouble?” é um título inspirado no filme “Casablanca”. É uma admiradora de filmes antigos?
Sim, embora não seja nenhuma fanática. Apenas gosto muito de cinema. E certo dia o “Casablanca” passou na televisão. Estava a chover, o “Casablanca” na televisão e eu pensei: “Bora ver!”. E foi aí que o filme me pareceu muito sinistro e de certa forma familiar: o fascismo, a paranóia e o medo... Pus-me a pensar: “Chegámos a este ponto outra vez”. Entretanto o Danny tinha-me enviado um excerto de música, que acabaria por ser a primeira canção do novo disco, e eu estava a tentar decidir o que fazer com ela. Então usei pequenos pedaços do filme, contando uma história sobre a Casa Branca... porque Casablanca significa Casa Branca (“White House”).
Qual foi a sensação de ouvir “Goodnight Moon” na cena final de “Kill Bill 2”?
Foi espectacular! Fui ao cinema, comprei pipocas e doces, sentei-me lá a rir-me sozinha e diverti-me bastante, porque sou uma grande fã do Quentin Tarantino. Foi algo de único.
Identifica-se com a personagem da Uma Thurman, de uma mulher forte e invencível?
Adoro a Uma Thurman, mas eu... eu não sei o que é que sou! (gargalhada) Mas como ela não sou... não sou nada violenta. No entanto, a personagem dela é certamente muito interessante.
Acha que o facto de a música aparecer na banda-sonora do “Kill Bill 2” vos garantiu alguma popularidade extra?
Talvez... Estou certa que algumas pessoas que nunca ouviriam falar de nós acabaram por ficar a conhecer-nos. Mas não notei nenhuma maluqueira especial à nossa volta. [Quanto às vendas dos discos], têm estado muito suaves... O negócio dos discos está num triste estado e sem dúvida que é cada vez mais complicado fazer da música o nosso ganha-pão.
Tendo em conta a qualidade de discos como “Who’s Got Trouble?”, considera os Shivaree uma banda subvalorizada?
Sim, claro!!! Não... (risos) Não sei dizer, em primeiro lugar porque não leio nada sobre nós, não consigo ler. Não ando à procura do meu nome no Google. A única vez que o fiz ia tendo um ataque cardíaco (gargalhada) e pensei para mim mesma: “Nunca mais faças isso!”. É melhor nem saber. Não podemos controlar o que os outros pensam de nós... Mais vale não querer saber, é um mau hábito.
Os outros elementos da banda também pensam assim?
Sim. Quando começamos a preocupar-nos demasiado com isso, deixamos de prestar atenção à música, e se fizermos música para agradar às outras pessoas, seremos sempre escravos delas, não estaremos a fazer o nosso próprio trabalho. Se estivermos sempre preocupados com o que as pessoas vão pensar, isso acaba por distrair-nos. Temos de nos preocupar é em fazer o nosso trabalho e depois afastarmo-nos dele – ter a nossa família, a nossa casa, a nossa vida e tentar que tudo isso seja “fucking nice”!... Já é tudo tão complicado como é... não é preciso dificultar a vida a nós mesmos e àqueles que nos rodeiam.
Ouve mais discos antigos de blues e jazz, como sugere a sonoridade de “Who’s Got Trouble?”, ou também está atenta aos artistas contemporâneos?
Ouço de tudo. Para mim, há boa música e má música, e o prazer da música passa muito por descobrir coisas novas. Quando estou cá [em Portugal], gosto de ir ouvir fado. Às vezes ponho a tocar um disco da Polinésia, outras vezes um disco de punk rock, outras ouço jazz... ou country... Essa é uma das melhores coisas da música: nunca deixa de fazer com que te sintas jovem. A música faz-nos sentir jovens porque não tem fim. Há sempre mais alguma coisa para descobrir, para encontrar, para aprender... Somos sempre alunos dela e isso faz-nos sentir jovens. Gosto disso.
Também lê muito. Algum livro que gostasse de recomendar?
Acabei agora o “The Plot Against America”, do Philip Roth. Vou a meio do “Libra”, de Don DeLillo... e gosto de todos os livros do Nick Tosches. As biografias dele são um espectáculo.
Texto: Lia Pereira / Foto: Luís Bento
(Mondo Bizarre - Junho 2005)
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