THE SIGHTS
Pop De Cave
São uma banda de Detroit, mas não são mais uma banda de Detroit. Claro que a profusão de garagens na Motor City se traduz em momentos de rugosidade eléctrica, mas é no olhar embevecido para a tradição pop britânica que os Sights se distinguem dos conterrâneos. Ao segundo álbum, “Got What We Want”, o encontro torna-se altamente compensador. Eddie Baranek, vocalista/guitarrista, não contraria a ideia.
Pelo que dizem a maioria dos músicos de Detroit, não existe por ali nenhuma cena. Existem, isso sim, uma série de bandas com uma visão semelhante da música popular urbana. Uma série de bandas que partilham elementos, estímulos e digressões. Normalmente, é a história musical da própria cidade a fornecer as ferramentas para o início da construção. De um lado, a soul da Motown – e das muitas outras pequenas editoras dedicadas à música negra –, do outro, a génese garage punk’n’roll de MC5 e Stooges. O resto faz-se de expressão própria. No caso dos Sights, essa deu origem a um travo pop insinuando-se riff adentro. Imaginem-se os Supergrass. Amantes fervorosos da história pop, retalham-na em vários pedaços apenas para, com prazer óbvio, os reunirem novamente em diferentes combinações. Imaginem-se agora uns seus primos do outro lado do Atlântico. Fuzz e blues rock em vez de psicadelismo Floydiano, feed-back prolongado em vez de teclado saltitante. Os mesmos viciantes “pa pa pas”. Os Sights. “Fuck, man! That’s perfect”, diz-nos Baranek. Empatia gerada para a entrevista sobre “Got What We Want”, sucessor de “Are You Green?”, o álbum de estreia editado em 1999.
Os Sights parecem ter um “sotaque” britânico pouco usual em bandas de Detroit. Não relativamente aos sons quase omnipresentes da “British Invasion”, mas quanto à vertente cantarolável de uns Supergrass, por exemplo. Em “Got What We Want” isso é ainda mais evidente que antes, com a space-pop combinando-se com a urgência primária do rock’n’roll.
Os Supergrass são óptimos. Uma boa banda actual que criou um som próprio. Gostava de aspirar a isso. Quanto à mistura de que fala, é certamente uma boa forma de nos apresentar. Gosto de ver essas duas forças primordiais combatendo-se mutuamente ao longo do álbum. Mas não quero ver apenas uma delas a vencer.
“Got What We Want” é, sem dúvida, um álbum bem mais conseguido que “Are You Green?”, onde, apesar das boas vibrações rock’n’roll, se expunham explicitamente referências que vagueavam entre Jimi Hendrix ou os Jam de Paul Weller. Sinal que os Sights estão a aproximar-se daquilo que querem realmente ser?
Suponho que, à medida que envelheces, te vais afastando das influências e começas a aproximar-te de ti próprio. Não sou fã do Hendrix e o Weller era porreiro quando eu tinha quinze anos, mas isso está fechado no passado. O meu estreito snobismo em relação a certos tipos de música acalmou um pouco e apaixonei-me por coisas a que naturalmente não ligaria com aquela idade, como hillybilly, por exemplo.
Será o legado musical de Detroit um fardo muito pesado para uma nova banda carregar? Há a Motown, os MC5, a mitologia do Grande Ballroom... Deve estar constantemente a ouvir gente daquela geração contando histórias de como tudo era fantástico naquela altura.
Adoro ouvir velhas histórias de guerra do Grande e do Eastown Theatre. Costumava tocar numa banda de cinquentões. Embebedava-me com eles e começava: “conta-me a tua história entre 1965-73”. Ser de Detroit não é um fardo, é algo de onde retiras inspiração. Andre Williams e Edwin Starr estavam a fazer grandes discos nessa altura. The Keggs gravaram um óptimo single chamado “Girl”, os Gories fizeram grandes álbuns. Os MC5 e os Stooges eram cool, mas seja. Gosto dos Rationals e dos SRC. E hoje tens os The Hentchmen, os Paybacks, os Soledad [Brothers]...
Declarou mais de uma vez a sua paixão pelos Traffic e pelos Flying Burrito Brothers. Onde encontramos então Steve Winwood e Gram Parsons nos The Sights? Estão a guardar o country-rock e o psicadelismo jazzy para o futuro?
Os dois primeiros álbuns dos Traffic com Dave Mason têm muito de rock’n’roll. Ainda assim, não penso que iremos contratar um percussionista nos tempos mais próximos. A influência do Parsons não será tão directa, talvez apareça em forma de coração destroçado. Mas sim, sou grande fã dos dois. Aquilo que o Steve Winwood fazia, aos dezasseis anos, no Spencer Davis Group, era completamente insano! Roubar o Ray Charles de forma tão notória e soar tão magnificamente. Com aquela idade.
“Nobody”, a última canção do disco, é interrompida por uma citação de “How Many More Times”, dos Led Zeppelin. Acaso de estúdio ou homenagem a uma banda que admiram?
Uhh, não gosto de Led Zeppelin. O primeiro álbum deles é ok, acho. Esse riff foi ideia do baixista, que já não toca connosco. Arrependo-me dessa parte.
O New Musical Express classificou “Got What We Want” como “o álbum mais cool e melhor concretizado a sair de Detroit desde “White Blood Cells”“. O que significa para vocês um elogio como este, vindo do maior arauto, para o bem e para o mal, do chamado “rock’n’roll revival”?
É porreiro, mas seja... Neste ponto tudo o que diz o NME é paródia, por isso não o levo muito a sério. Mas adoro fazer digressões em Inglaterra. É fantástico.
Tendo, nesta altura, 22 anos, está bastante próximo dos sonhos de estrelato rock’n’roll que nos atacam em início de adolescência. Eram parecidos com o que vem vivendo desde a entrada dos Sights no circo pop?
Tem sido tudo bastante louco até agora. Estou a divertir-me imenso. Mas ainda chego a casa das digressões e vou trabalhar no dia seguinte, por isso o sonho não me está a pagar as contas.
Por último, uma provocação. Porque não devemos olhar os Sights apenas como mais uma garage band de Detroit?
Porque não somos. Somos pop de cave.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 15)
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