SIX BY SEVEN
Código Vermelho
Quase ignorados com os seus dois primeiros álbuns, os Six By Seven preparam-se ao terceiro para alargar fronteiras. Melodias mais fortes, mais espaço para as canções respirarem, mas a mesma intensidade de sempre, podem ser ingredientes suficientes para trazer o grupo para fora do seu círculo de admiradores habituais. A Europa já parece estar a reparar neles. “The Way They Feel Today”? Mais directos e positivos!
O Reino Unido sempre tem produzido muita música para além das correntes mais óbvias. Para lá das cenas do brit-pop, da sempre efervescente música de dança, ou até mesmo do rock mais pesado, há sempre pequenos espaços para irredutíveis bandas que com alguma dificuldade vão lutando por estabelecerem uma individualidade fora das tendências dominantes. Os Six By Seven, de Nottingham, cidade pouco reputada pela sua criatividade musical, são um desses casos isolados. Com três álbuns no activo têm vindo a aspirar a algum reconhecimento na cena independente britânica, reconhecimento esse que pelo menos já não lhes é negado em palco - diz quem já os viu ao vivo que são uma das bandas mais excitantes de Inglaterra. A sua música, que transpira a energia e o noise do punk e a ambição de algum rock progressivo, é densa e intensa, bem ao modo de uma linhagem de bandas que começou no post-punk com o Eixo Liverpool/Manchester e que hoje em dia ainda tem adeptos nos Elbow, Spiritualized ou Radiohead. Depois de um período conturbado e de mudanças de formação, e com “The Way I Feel Today”, o novo álbum “vermelho” da banda, o ambiente desanuvia e a música torna-se um pouco mais simples. Chris Davis, o baterista deste agora quarteto, conta-nos porquê.
A sonoridade dos Six By Seven é característica por ser construída em diversas camadas: guitarras, teclados e vozes. Às vezes até cordas. Pensam que ao perderem um guitarrista o vosso som global pode ter-se tornado mais simples?
Desde que perdemos o Sam Hempton, o nosso segundo guitarrista, que houve de facto uma mudança de som. Acho que tornou-se mais simples e coerente. Com apenas uma guitarra o espaço que era da segunda guitarra é ocupado pelas teclas. Se se ouvir o nosso novo disco nota-se que há mais espaço nas músicas e que as canções respiram mais. Penso que as vozes e em especial as melodias também se tornaram mais fortes como consequência.
Será que o facto poderá tornar o projecto mais fácil de entender para as pessoas?
Totalmente. Uma maior simplicidade já nos trouxe beneficios. As pessoas estão a prestar-nos mais atenção e a imprensa tem falado bastante de nós. O álbum anterior era mais noise, tinha muitas camadas de guitarras e era muito menos acessível. Este é o nosso álbum mais directo.
No período entre o lançamento do vosso álbum anterior, “The Closer I Get”, e o novo, houve portanto algumas mudanças de formação. Chegou mesmo a haver uma rapariga na banda. Mas agora estabilizaram em formato quarteto…
Sim, agora somos quatro. Tivemos uma rapariga durante uns meses, após a saida do nosso outro guitarrista, mas ela só deu quatro concertos connosco. A entrada dela para a banda não resultou. Mas nessa altura fizemos muita promoção e até acabámos por ficar com fotos dessa época com ela. Nós conhecemo-nos há muito tempo e tocamos juntos há cerca de seis anos e ela não se conseguiu adaptar a nós, ao ambiente da banda.
Na música dos Six By Seven é possível encontrar traços que vão do punk-rock ao progressivo. Como conciliam essas sensibilidades aparentemente antagónicas?
Há sempre dois lados para tudo. Nós temos, de facto, essas duas vertentes, o punk-rock e as muitas camadas de guitarras que confudem as pessoas que não estão à espera deste tipo de fusão. Construir as coisas com uma enorme massa de guitarras foi o que sempre fizémos e vai ser difícil fugir a isso. Mas no próximo disco vamos ter que nos concentrar noutras abordagens.
“Seis por sete” representa um compasso bizarro, um esquema rítmico que não é dos mais imediatos. Com um nome desses pretendem avisar as pessoas que a vossa música não é a mais fácil do mundo?
Bom, a nossa música não é a mais simples do mundo mas acho que não precisamos de usar o nosso nome para avisar as pessoas. Quando vêem os Six By Seven ao vivo as pessoas entendem-nos. Os nossos concertos são auto-explicativos. Mas as canções deste álbum estão abertas a qualquer pessoa. A partir delas as pessoas podem entrar no nosso som e compreender a banda.
A melancolia e a densidade presentes na vossa música têm alguma coisa a ver com o lugar de onde vocês são? Ou é apenas uma questão de preferências musicais?
Costumava pensar que a nossa música tinha que ver com o local de onde vimos. Que o facto de sermos de Nottingham se refletia no nosso som. Que eramos influênciados pelo que víamos e pelo que ouvíamos aqui à nossa volta. Agora já não vejo as coisas da mesma maneira. Temos mais anos de vida, estivémos em muitos lugares e vimos muitas coisas mas o nosso som, mesmo que mais aberto, continua semelhante.
Para descrever a música dos Six By Seven usaria um termo simples: intensa. A intensidade é de facto uma característica que procuram para o que fazem?
Julgo que sempre vimos a nossa música como algo não padronizado pois somos uma banda que nunca se comprometeu com o que quer que fosse. Ver a nossa música como intensa significa que temos agressividade e formalidade ao mesmo tempo. Mas de facto gosto de música densa e intensa e o resto da banda também. Adoramos os Spiritualized e os Mercury Rev, duas das maiores influências dos Six By Seven. São bandas com muitas camadas de guitarras. A nossa música acaba, na verdade, por ser uma combinação da música de que gostamos e do lugar de onde vimos.
Nomes da década de 80 como os Echo & The Bunnymen ou os Psychedelic Furs têm também alguma importância para vocês?
Sim. São bandas muito importantes e com grande influência, a vários níveis, no que fazemos. Os Bunnymen e os Furs foram algumas das razões que nos fizeram querer ter uma banda. Tentámos uma versão de “Sister Europe” dos Furs mas não tivemos êxito a gravá-la. Mas acho que vamos voltar a tentar.
Há um par de anos era quase obrigatório e de bom tom utilizar a electrónica para fazer música. Hoje parece que o rock’n’roll mais básico está de novo na ribalta. Como é que uma banda como os Six By Seven que não alinha em nenhuma dessas vertentes se ajusta a este esquema de coisas?
Há alguns anos havia muitos discos feitos com recurso à electrónica e agora estão outra vez a surgir discos mais rock. Mas há muitas bandas que sempre gostaram do formato baixo-bateria-guitarra. Nós gostamos desse formato mas não desdenhamos a electrónica. O próximo álbum poderá vir a ser mais electrónico. Muita da música actual que ouvimos, como os Boards of Canada é electrónica por isso acho que vamos enveredar um pouco por esse caminho. Até já estamos a escrever canções para o próximo disco. E enquanto vamos em digressão levamos os nossos computadores portáteis e vamos fazendo música. Por ora as canções ainda não passam de amostras, onde utilizamos loops, caixas de ritmos electrónicas e esse tipo de coisas. Temos que ver para onde nos levam. Mas deve ser um disco mais calmo, baseado em samples.
Os Six By Seven parecem ter um culto forte no Reino Unido, talvez devido aos concertos. No entanto apesar de ainda mal conhecidos no resto da Europa, agora começam a aparecer mais. Pensam que o resto do mundo está preparado para vocês?
Bem, pode não parecer, mas a Inglaterra é um lugar duro para nós. Países como Espanha ou Itália entendem muito melhor a nossa música. Em Itália interessam-se mesmo bastante pelo que fazemos. Estivémos recentemente na Alemanha, na Áustria a na Suíça e fomos muito bem recebidos. Agora estou a fazer entrevistas para Portugal o que prova que começa realmente a haver um interesse por nós fora de Inglaterra.
E já houve alguma receptividade por parte da América, o Eldorado das bandas de rock?
A América exige tempo e dinheiro e nós não tínhamos meios que nos permitisse ir para os EUA em digressão. Esperamos que este Verão as coisas mudem pois temos duas digressões americanas marcadas para essa altura. Recentemente fizemos alguns show-cases na Costa Oeste que correram muito bem.
A capa do vosso novo álbum é bastante diferente das anteriores, a primeira era mais “arty” e a segunda mais punk. Esta é mais ligeira e talvez menos esquisita para quem olha…
Sim, o grafismo é diferente do que temos feito atá aqui. Escolhemos árvores para ilustrar este disco porque tínhamos visto uns santuários para aves, em França, que nos inspiraram. Já tínhamos um disco com uma capa preta e um grafismo muito rudimentar, muito punk. Estou muito contente com a capa deste novo disco porque tem muito mais “pinta”.
Se caracterizássemos o vosso primeiro álbum, “The Things We Make”, como “azul” e o segundo, “The Closer I Get”, como “negro” que côr é que poderia definir o novo “The Way I Feel Today”?
Boa pergunta. Vermelho!!! Porque simboliza o fogo e é, ao mesmo tempo, uma cor positiva.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 11)
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