Entrevistas
SIX ORGANS OF ADMITTANCE
E A FOLK FAZ RUÍDO
Sob o nome Six Organs of Admittance, Ben Chasny (também guitarrista dos Comets On Fire) é um dos expoentes máximos de uma nova geração de músicos que voltou a fazer do rock uma música emocionante, surpreendente e única. Ben Chasny, que esteve em Portugal duas vezes no ano passado, volta a visitar-nos no dia 21 de Abril, para apresentar o seu novo disco, “School Of The Flower”.

Há já algum tempo que queria falar com Ben Chasny. Desde que, pela primeira vez, (há cerca de três anos, com o álbum “Dark Noontide”) ouvi a sua música. De onde é que nasce aquela sonoridade, aparentemente tão simples? Para alguém menos atento, são apenas canções, que não trazem nada de novo; uma guitarra e uma voz frágil e melancólica. E, no entanto, os Six Organs Of Admittance (é com este nome mágico que Ben se apresenta nos seus discos) são únicos e fascinantes. Em 2005 editam um novo disco, “The School Of The Flower” (o primeiro para a Drag City), e foi por aí que começou a nossa conversa. Ben esteve em Portugal duas vezes no ano passado e essas visitas foram marcantes para os que lá estiveram e para o próprio, como podemos ver a seguir.

O novo disco, “School Of The Flower”, parece representar o culminar de uma viagem musical e espiritual começada há quase sete anos com o seu primeiro disco. Ao escutar-se os discos dos Six Organs Of Admittance sente-se que, ao longo desse período, construíu um mundo muito próprio no qual pode expressar livremente os seus sentimentos e emoções e onde nós, como ouvintes, nos sentimos parte de um todo muito particular e único. Concorda com esta maneira de olhar para a sua música? É uma catarse, para si e para quem o ouve?
É muito agradavel da tua parte. Acho que o melhor que posso esperar daqueles que ouvem os meus discos é que se revejam naquilo que tento dizer nas canções. A melhor música é uma catarse para todos os que a ouvem. Acaba por complementar os sentimentos e a vida de cada um. Não quero apontar caminhos a ninguém... só quero ser um amigo, no que se refere à musica. Os meus discos favoritos acabaram por me acompanhar nas diferentes fases da minha vida... é o que espero da minha música.

Pode dar-nos alguns exemplos desses discos/músicos cruciais para si em determinadas alturas da sua vida?
Claro! Neste momento é o Townes Van Zandt. Os Current 93 foram uma boa companhia há uns anos atrás e o mesmo posso dizer de Nick Drake, Nikki Sudden, Ghost, Major Star e de Keiji Haino. Não existe um estilo definido ou um padrão. Aquilo que me liga a estes músicos é a forma como comunicam através das canções.

O que representa “School Of The Flower” para si? Parece-lhe diferente, pelo facto de ter sido gravado de uma forma mais convencional (a sua primeira vez num estúdio) e para uma editora como a Drag City?
Para mim, acabou por ser o disco mais experimental. Nunca tinha estado num estúdio antes e aproveitei por jogar com varias ideias e sons. Em relação à editora, a única diferença é que agora tenho oportunidade de ir para estúdio e aí colocar em práctica as minhas ideias. Tenho esse apoio financeiro. A Drag City é uma editora com muita alma e adoro-os por isso!

Há uns meses recebi o seu novo disco em CDR sem quaisquer informações relativamente à gravação e ao título das canções. Escutei-o, sem saber que tinha sido gravado em condições especiais e, sinceramente, não notei nada de particularmente diferente. Aquilo que eu esperava, e queria, de um disco dos Six Organs Of Admittance estava presente - a beleza e genialidade das canções -, e só quando recebi o disco acabado me apercebi que havia circunstâncias diferentes neste disco. Pensa que a sua música beneficiou alguma coisa com melhores condições de gravação?
Este disco não foi especial pelo facto de ter sido gravado num estúdio. Resultou assim porque o estúdio era sensacional. As pessoas com quem trabalhei foram extraordinárias e o Chris Corsano estava lá para me direccionar e ajudar. Foi maravilhoso. Um período de grande criatividade e energia!

A presença de Chris Corsano neste disco é muito subtil, mas de uma eficácia brilhante. Parece que interioriza a sua música com uma grande sensibilidade. Tem planos para tocar com ele num futuro próximo?
Tens toda a razão. O Chris Corsano interpreta e percebe as minhas canções com uma sensibilidade única. É um músico espantoso. Se ouvires as gravações que fez com o Matt Valentine ou com o Paul Flaherty, aquilo que sobresai é a capacidade que ele tem em perceber a música que está a ser tocada. E, depois, só faz aquilo que lhe é natural, ou seja, tocar bateria como mais ninguém. Tenho pena que este disco não espelhe um Chris Corsano em toda a sua força, mas tivemos que fazer o disco com as gravações que tínhamos. De qualquer maneira, a minha próxima digressão americana vai ser feita com o Chris na bateria - espero que se prolongue para a Europa -, e vamos ter oportunidade de explorar ideiais que nos surgiram na gravação do disco.

A última canção de “School Of The Flower” chama-se “Lisboa”. Esteve cá duas vezes no ano passado (a tocar na Galeria ZDB, com Fursaxa e no teatro Ibérico com os Current 93, Baby Dee e Simon Finn). Foi uma boa experiência? Notei que o público de ambos os concertos se identificou bastante com a sua atitude e com as suas canções. Foi recíproco?
Acho que existe uma forte possibilidade de, algures no ciclo da minha existência, já ter sido português. Obviamente, devo ter feito alguma coisa horrível para ter que reincarnar como americano. Talvez votando contra toda esta merda da agenda política da Direita norte-americana volte a reincarnar em Portugal. Os dias que aí passei foram dos melhores tempos da minha vida. E não o consigo explicar... o mar, as ruas, as pessoas e os sons são fantásticos. Fiquei a sonhar com a comida portuguesa durante semanas. Acabei por ter sorte, pois tenho um amigo, o Pedro Gomes, que me guiou por lugares extraordinarios, descrevendo tudo com uma grande sensibilidade. Apaixonei-me por Portugal imediatamente.

A canção é dedicada “à memória e alma de Carlos Paredes”. O que é que a música de Paredes significa para si? É curioso que mencione a palavra alma ao falar dele, pois, para muitos, ele representa hoje a alma de um Portugal que já não existe, um sentimento de nostalgia muito típico dos portugueses...
Essa relação com a música do Carlos Paredes proporcionou-se através de outro amigo que encontrei em Lisboa, o José Pacheco. Enviou-me alguns CDs e um livro com alguns ensaios sobre o Paredes que me ajudou a compreender a pessoa e a sua música. Quando visitei Portugal pela primeira vez, todos me diziam que tinha que ouvir o Carlos Paredes. Era-me descrito como o John Fahey de Portugal. Ainda penso que essa era, de facto, uma descrição perfeita, até porque o John Fahey também só foi inteiramente compreendido e apreciado após a sua morte. Não sei se o mesmo se passou exactamente assim com o Paredes, mas sei que a sua música deveria ser muito mais popular do que é actualmente. E não só em Portugal. Deveríamos ter como missão mostrar, aos que não a conhecem, a beleza da sua música! Foi por isso que lhe dediquei a canção “Lisboa”, desejando paz à sua alma. Para além disso, o Carlos Paredes ainda pode ensinar muito a todos os guitarristas que se mantém obcecados pelo John Fahey. Deveriam também tomar tanta atenção à mão que toca no pescoço da guitarra como à mão que toca nas cordas da guitarra.

Tal como diz, o John Fahey parece ser uma influência determinante para muitos guitarristas contemporâneos. Por exemplo, para Glenn Jones e para Jack Rose. Ele é assim tão importante para si?
Na verdade, o John Fahey não é assim uma influência tão grande para a minha música. Sempre dei mais importância aos discos do Leo Kottke. Acho que é um génio muito subvalorizado. Já o vi em concerto cinco vezes e foi sempre muito bom.

Recuemos um pouco no tempo. Como é que a música nasceu para si? Quais foram as suas primeiras influências marcantes tanto musicais como literárias?
O Neil Young for o primeiro musico que me marcou, desde muito novo, ao ouvir os discos do meu pai. O primeiro livro de que me lembro, que influenciou a minha vida, foi “Dreamtime”, do Hans Peter Duerr. É acerca da loucura e da civilização.

Para além dessas influências que refere, existe a sensação de que como ouvintes dos seus discos, retiramos deles sentimentos e emoções diferentes, consoante o local ou a circunstância em que os ouvimos. De que maneira é que aquilo que o rodeia ao escrever e gravar condiciona o seu processo criativo?
É difícil saber. Como disse, quero que a minha música seja uma companhia. Um conforto para quem a escuta. E é com isso que me preocupo. Isso significa que, quando eu faço um som, cabe ao ouvinte intepretá-lo. Sinceramente, as pessoas influenciam a minha música muito mais do que o ambiente fisico que me rodeia. Exceptuando algumas situações...

Para muitos, é um dos mais importantes e influentes músicos de uma nova geração de artistas que parece apadrinhar e partilhar os projectos de cada um. Sente-se parte de uma comunidade que parece estar a crescer dia a dia? Parece haver mesmo um espirito comunitário, que foi essencial para a grande visibilidade que um determinado número de discos teve recentemente.
Obrigado. Mas não considero aquilo que faço mais relevante ou importante do que qualquer outra pessoa que faça musica. Fazer musica é o importante. Acho que a música é essencial para nos aproximarmos dos outros. Com esta música, de que falas, não estamos a fazer nada de especial. Não estamos a trazer nada de novo para a cultura ou para a arte, nem sequer a criar novos limites. É o que menos me preocupa e deixo essa análise para os professores e estudantes discutirem. Acaba até por ser aborrecido. Aquilo que me inspira é a busca da esperança e da inspiração através das canções. Tenho muita sorte de fazer parte de uma comunidade tão viva e criativa, sempre pronta apoiar novas ideias e projectos. Olhem para o Matt Valentine e para o Joshua Burkett!!!

Para além do novo disco, o álbum de Six Organs Of Admittance que mais ouço é “For Octavio Paz”, sem dúvida, um dos meus disco favoritos. Qual foi o álbum que mais gostou de escrever e de gravar?
Sinceramente, nunca gostei muito de gravar os meus discos, exceptuando “School Of The Flower”. Com todos os outros parecia que estava a vomitar emoções, o que não é nada divertido. “For Octavio Paz” foi um dos discos que gostei mais de gravar, mas só porque o resultado final se aproximou muito daquilo que eu idealizei quando comecei a escreve-lo. No entanto, não se pode dizer que tenha gostado de o gravar. É estranho. Estou sempre a ouvir sons e discos na minha cabeça e tenho que os tirar cá para fora. Com o novo álbum, foi como que uma experiência e as pessoas com quem eu gravei tornaram-na muito divertida.

Actualmente, é membro fixo dos Comets On Fire. Como concilia os dois projectos, aparentemente irreconciliaveis? Ouvindo com atenção os dois últimos álbuns, a música dos Comets On Fire parece complementar a dos Six Organs Of Admittance, reflectindo um lado mais agressivo. Isto faz algum sentido para si?
Totalmente! Acaba por não ser assim tão diferente. Se inverteres uma das bandas, aproximas-te da outra. Nunca tocaria com os meus amigos dos Comets on Fire se a sua música não se aproximasse dos Six Organs Of Admittance. É tudo o mesmo. Ou melhor, é tudo sobre o mesmo: amizade. Não existe mais nada no mundo. Nenhuma destas bandas procura revolucionar o que quer que seja, é tudo muito simples. Amizade, amor e companheirismo... é tudo...

Toca regularmente ao vivo com os Comets On Fire? Como é um concerto tipico da banda?
Neste momento, sou parte integrante dos Comets On Fire e toco com eles sempre que não tenho concertos dos Six Organs Of Admittance. São os meus melhores amigos. E foi por isso que me juntei a eles. O concerto típico é nós estarmos mais bêbados do que devíamos e depois acabo por rebentar com a minha guitarra esmagando-a contra o chão. Fica um barulho insuportável, completamente e irremediavelmente desafinado. Às vezes gritamos uns com os outros em cima do palco. Outras, embarcamos numas jam sessions entre os ZZ Top e os Sightings... É assim... apenas miudos a tentar divertir-se.

Outra faceta da sua capacidade criativa é a banda Badgerlore. Só tenho um disco vosso, mas não sei muito sobre o projecto. Ainda existe?
Claro que sim. Acabamos de gravar um novo disco que sairá pela FPS, editora do meu amigo e guitarrista dos Badgerlore, Rob Fisk. O Tom Carter dos Charalambides é também agora parte da banda, tal como o Pete dos Yellow Swans.

No fim do ano passado, Jandek deu o seu primeiro concerto (num festival na Escócia), após mais de 25 anos de total obscuridade. Foi uma grande surpresa, que não foi anunciada. Li algures que o único concerto que ele viu foi o dos Six Organs Of Admittance, na noite anterior. Sabia que ele estava lá? Viu o concerto?
Não fazia ideia que o Jandek estava presente, até ao momento em que ele subiu ao palco. Foi fascinante!!!! É difícil de acreditar que foi o seu primeiro concerto, já que ele parecia um Deus em palco. Deve ter uma banda de bares e toca em sítios que ninguém conhece... é a única explicação. E não acredito que ele tenha estado a ver o meu concerto. De maneira nenhuma! Devia estar apenas a ver o palco, ou qualquer coisa assim.

Tem planos para gravar proximamente? Com os Six Organs Of Admittance ou outro projecto paralelo?
O próximo projecto é gravar com o Hiroyuki Usui, que fazia parte dos Fushitsusha. É um dos músicos que mais admiro e também grava a solo (com o nome L). Sairá mais para o final do ano. Estamos a escrever novas canções para os Comets On Fire e, como já disse, há um novo disco dos Badgerlore. Se tudo correr bem, sairão também alguns 7” durante o ano. Durante as próximas semanas, sairá também um triplo LP que terá um lado sob a responsabilidade de 6 diferentes músicos, Six Organs Of Admittance, Matt Valentine, Joshua Burkett, Dredd Fool, Jack Rose e Fursaxa.


Nuno Robles
(Mondo Bizarre # 22)