Entrevistas
SMOG
A dor ficou para trás?
Vem a caminho ou, por esta altura, já está entre nós, se não partiu entretanto. Chama-se Bill Callahan e é a força criativa que se esconde sob o nome Smog. Significado de outrora canções presas a um torpor doloroso, é agora sinónimo de pequenas histórias musicadas com um sorriso tímido.

Fechar a obra de Bill Callahan (ou dos Smog) dentro de uma qualquer categoria musical, seja ela o risível alternative-country ou outra qualquer, é um erro crasso. É que esta, alimentando-se de diferentes géneros, acaba por os transcender com uma simplicidade desarmante. Na verdade, a este escritor de canções norte-americano pouco mais interessa do que o momento bruto. Aquele em que conclui as suas canções, na companhia de outros músicos, depois de as criar num recôndito algures. Como o rasgar de um papel, o embate de uma pedra na água ou o fechar abrupto de uma porta, as suas canções invocam o som e aquilo que o precede: o gesto. O gesto das relações amorosas ou os gestos perdidos das adolescências. Sem dramatismos, mas com uma bonomia que de tão fria chega a queimar. Ou já queimou mais, como “Supper”, o seu mais recente trabalho, deixa transparecer. É que a voz de Bill Callahan está a doer menos.

Como acontece o processo de criação musical no interior dos Smog?
É um processo onde reina alguma incerteza. Trata-se de juntar as pessoas e esperar que uma qualquer química surja entre elas. Esta é parte principal de todo o processo de gravação de cada disco dos Smog. Na verdade, trata-se de reunir indivíduos, que muitas vezes nem se conhecem, e pedir-lhes para tocarem juntos.

Pode explicar melhor essa química de que fala?
Bem, normalmente tenho uma ideia clara de como quero que o disco soe e revelo-a aos músicos. Nunca o faço, contudo, senão no momento da gravação. Por vezes, gravo eu próprio esses sons de uma forma mais ou menos bruta, como um esboço. Noutros casos, limito-me a expor verbalmente aquilo que quero para os temas. Nesses momentos existe também uma certa pressão. As pessoas tendem a trabalhar como se estivessem envolvidas numa situação de emergência, e a adrenalina sobe rapidamente. Não existe, portanto, um planeamento prévio, com uma ou duas semanas de antecedência. Este método de trabalho, pela sua espontaneidade, traz ao de cima aquilo que as pessoas têm de melhor...

Trabalhou com homens e mulheres. Sentiu alguma diferença entre os dois géneros?
Bem, trabalhei com muitos mais homens que mulheres. Sobre estas, contudo, posso dizer que sempre me pareceram mais frágeis. Não sei se foi coincidência ou não, mas parece que precisam de mais tempo para tomar uma decisão. Tendem a planear mais do que a ser espontâneas.

“Supper”, tal como “Rain On Lens”, parece um disco bem mais optimista que trabalhos anteriores. Actualmente a sua música parece mais interessada em curar do que em fazer doer...
Sim, penso que sim. Os meus primeiros discos exprimiam emoções ou sentimentos à volta da dor, um pouco como a maioria dos blues. Não era música para fazer as pessoas sentirem-se melhor. Era música que tratava assuntos difíceis... Confesso que hoje já não é tanto assim...

“Supper” tem uma canção, “Driving”, que, pela sua natureza sonora, parece destoar das restantes. Como surgiu?
Escrevi a letra há uns cinco ou seis anos atrás numa tarde de Agosto, mas nunca me lembrei de a passar à composição musical. Na altura, pensei que serviria para o fim de uma canção e não enquanto canção em si. Quanto à melodia, procurei algo que as pessoas pudessem interpretar de forma mais livre. Para a poderem ouvir para sempre e nela ir descobrindo coisas diferentes.

As suas letras devem, com certeza, basear-se em textos, imagens e até sons. Podemos dizer que também existe lugar para uma certa marca autobiográfica?
Tento afastar-me ao máximo do aspecto autobiográfico. Caso contrário, estaria a ser um pouco egoísta, falando só de mim. As minhas canções são uma mistura de inúmeras coisas. Não privilegiam um aspecto em detrimento de outro. Cada canção tem, ou nasce, de várias histórias...

Recordo passagens de canções suas como: “Anybody who’s ever had a hole in their heart / knows how hard it is to start / a new day” ou “O Honey, I love you and that’s all you need to know.” Nestes dois casos a quem se está a dirigir?
Penso que são ambas, como todas as minhas canções, dirigidas ao público. Mesmo que, de alguma forma, soem pessoais, têm na verdade um objectivo, que é serem universais. Não pretendem ser exclusivas, nem de mim próprio, nem de outra pessoal qualquer.

O modo como escreve as letras é um processo lento ou está mais próximo de algo como a action-painting?
É algo, como acabou de dizer, mais parecido com a abordagem da action-painting. Por vezes posso perder tempo em busca de uma palavra, ou existe mesmo uma pequena luta à volta da escrita, mas normalmente esta tende a ser imediata. Penso que demasiada preocupação à volta da escrita pode acabar por destruir a canção.

A ouvirmos um dos seus temas, especialmente “Morality”, encontramos as letras e os sons, por exemplo, na forma de um riff, que as acompanham. Podemos dizer que estes dois aspectos são autónomos, ou são uma só entidade?
Julgo que são uma só entidade. Não as podemos separar. Penso que para um melhor entendimento da música dos Smog não é possível ficarmos a sós com as letras. Estas não podem ser dissociadas, por exemplo, do ritmo que a guitarra impõe. O acto de cantar, as letras e os sons caminham lado a lado. São definitivamente uma só coisa.

Ao contrário do que acontece com a música de uma boa parte dos outros cantautores contemporâneos, a música dos Smog é bastante mais crua. Chega a raiar aquela agressividade característica do rock. Porquê?
Penso que isso acontece pelo facto de os meus discos serem gravados ao vivo. Quando digo ao vivo, estou-me a referir a um estúdio, mas sem grandes arranjos. Por isso, num concerto, soam exactamente da mesma maneira. Penso que é isso que acontece em “Morality”.

O seu trabalho versa muito as relações pessoais amorosas. Partindo da ideia de amor eterno, acha que a vida quotidiana é mais parecida com os filmes de Stanley Kubrick ou com os filmes de Jean Vigo?
Optaria, provavelmente, pelo Kubrick.

Porquê?
Não sei... Essa é uma pergunta difícil... Talvez não possamos falar só de um cineasta para definir a vida quotidiana, as relações... Julgo que fazemos o melhor que podemos. Algumas têm sucesso, outras não. Tudo depende daquilo que somos e daquilo que desejamos. Talvez a vida não tenha que ser apenas um filme de um ou de outro realizador. Em diferentes momentos encontramo-nos ora no interior de um filme de Vigo, ora no interior de um filme de Kubrick. Quanto ao amor eterno... temos que acreditar nele, de uma maneira ou de outra. Mesmo que nunca aconteça.

Fez parte do elenco de “Pola X”, de Leos Carax, e participou na respectiva banda-sonora, da qual Scott Walker foi o responsável. Como foi trabalhar com estes dois artistas?
Tudo começou quando, há uns anos atrás, o Leos Carax foi a um dos meus concertos e se ofereceu para realizar um vídeo dos Smog. Isso nunca se concretizou, e, posteriormente, ele convidou-me para participar no filme. Aceitei apenas porque estava curioso, pois nunca havia estado num local de filmagens. Mas tudo aquilo acabou por ser uma experiência cansativa e desinteressante. Passei horas de um lado para o outro, a fazer sempre o mesmo. Quanto ao Scott Walker, falámos pouco mais de um minuto, mas penso que ele gostou da minha música, pois convidou-me para o Meltdown Festival em Londres...

Gostou do “Pola X”?
Não... não foi um bom filme. Ao contrário do “Les Amants du Pont-Neuf”...

O que acontece às canções dos Smog quando são transportadas para os concertos? Ficam presas no estúdio, com a emoção captada na gravação?
Não... as canções mudam à medida que as vou tocando. Por vezes, encontro dificuldades em reconhecer a versão original depois de a tocar ao vivo mais de cem vezes. Não sei muito bem explicar porquê, ou como, mas elas transformam-se...

O que podemos esperar dos Smog em relação às três datas em Portugal? Vai trazer alguns convidados especiais?
Penso que vão ser concertos normalíssimos. Vai acompanhar-me uma banda com quatro músicos. Um baterista, um guitarrista, um baixista e alguém nos teclados que vai cantar um par de temas comigo...

José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 15)