SNAPCASE
O Desenho do Progresso
São um caso à parte dentro da cena hardcore. A cada disco conseguem superar o anterior em termos criativos sem perderem a sua sonoridade característica. Com “End Transmission”, os Snapcase voltam a estar um passo à frente dos seus pares. Com um culto cada vez maior só tem falhado a exposição mediatica merecida. Em conversa com a Mondo Bizarre, o vocalista Daryl Taberski, explica o porque de não querem pagar o preço da liberdade.
Depois de ouvir o novo album é notória a evolução do vosso som em relação ao disco anterior existindo uma certa experimentação com novos sons. Este facto tem a haver com o facto de terem trabalhado a pré-produção no vosso próprio estúdio?
Existem uma série de factores responsáveis por esta situação. Acima de tudo investimos muito do noso tempo neste disco. Sempre que estavamos em casa, nos intervalos das digressões, trabalhavamos nos novos temas. Para além disso todos os elementos da banda deram o seu contributo criativo, algo que já tinha acontecido no disco anterior mas que neste foi mais explorado. Dessa maneira conseguimos afastar-nos ainda mais do passado sem perder, no entanto, a nossa identidade. Também trabalhámos com um produtor diferente, que nos ajudou bastante durante a pré-produção, e isso tudo ajudou ao resultado final do disco.
Apesar de todos os elementos terem contribuido para a escrita das canções, não é muito fácil identidicar se um dado tema foi escrito por um dos guitarristas ou pelo baterista...
Temos a consciência que não será fácil para alguém exterior à banda perceber isso, mas se se tomar uma maior atenção, ao fim de algumas audições isso começa a notar-se. No entanto isso é algo que não nos preocupa já que queremos ver este disco como o trabalho de um colectivo e não a junção de temas individuais.
Algo novo nos vossos discos é também a inclusão de alguns pequenos trechos atmosféricos...
Esse tipo de experiência é algo que já queriamos fazer anteriormente. Apesar de serem semelhantes, foram escritos por pessoas diferentes e servem para criar uma certa abertura dentro do disco, para que os outros temas possam respirar.
Sem alterarem o som dos Snapcase, experimentaram novas soluções e conseguiram alcançar novo patamar dentro do vosso estilo. Será esta mais uma prova de que com empenho é possível ser-se criativo?
Eu acho que sim. E penso que é importante, não apenas como banda, não nos repetirmos a nós próprios disco após disco, mas também é importante desenvolvermos o nosso som. E essa progressão e os resultados que obtemos dela é o que ainda nos mantém vivos.
Acham que os vossos fãs irão compreender estas mudanças e continuar a apoiar a banda como até aqui?
No disco anterior fizemos algumas mudanças e os resultados foram muito positivos, mas como este disco é mais criativo, vamos esperar para ver as reacções. Nós já tocámos alguns destes temas ao vivo e notamos uma emoção muito grande por parte do público. É possível que alguns dos fãs mais antigos se afastem mas possivelmente outros se irão identificar com aquilo que fazemos actualmente. O disco pode ser um pouco diferente, mas mantém a mesma identidade da banda.
Num país como a América, quais são os vossos canais de promoção?
Em termos de rádio, normalmente somos tocados nas college radios. É muito raro uma radio mais mainstream tocar os nossos discos, mesmo que seja um programa onde passem outras bandas pesadas do mainstream. Só as bandas das multinacionais é que têm acesso a esses canais. Nas revistas não é tão complicado, porque existem muitas publicações alternativas e muitos fanzines onde podemos aparecer. Aliás acho que os fanzines são um factor vital para a sobrevivência da cena e de muitas bandas. É aí que a maioria das coisas começam, é nos fanzines que normalmente se descobrem bandas novas que mais cedo ou mais tarde acabam por crescer. Os fanzines são a base sólida para o crescimento de qualquer banda.
Fazendo parte da cena harcore de Nova Iorque, como é que vêm esta súbita fobia pelas bandas novaiorquinas liderada pelos Strokes?
Nós não somos propriamente de Nova Iorque, vivemos em Buffalo que apesar de ser no mesmo estado fica a seis horas de carro. Ainda assim é importante estar próximo e ser influenciado pela cena musical de Nova Iorque. Pessoalmente eu gosto muitos de bandas comos Strokes ou os Yeah Yeah Yeahs.
Essa revelação poderá espantar alguns dos vossos seguidores. Normalmente esperam que gostem de bandas dentro do estilo que praticam...
Nós já fazemos música há muito tempo e à medida que vamos ficando mais velhos temos tendência a abrir os nossos horizontes musicais. Acima de tudo há sempre algo a aprender com cada estilo, com cada banda. Não temos que soar como os outros para aprender com um determinado ritmo, com a estrutura de um tema. Por outro lado também gosto de me afastar do tipo de música que fazemos quando não estou a tocar. Pode parecer estranho, mas os Readiohead são, neste momento, uma das minhas influências...
Em “End Transmission” existe algum conceito a nível de letras?
O conceito principal do álbum é sobre uma sociedade do futuro que foi transformada numa prisão cultural. Os mais desfavorecidos são aqueles que têm mais coragem para lutar e tentar algo novo, algo que lhes é desconhecido. Acima de tuso queremos que fazer com que as pessoas pensem. As minhas letras podem ser um pouco complexas mas penso que as pessoas as podem compreender. As letras que escrevo por vezes são interpretadas de maneiras diferentes e isso é algo que me entusiasma, já que nos concertos as pessoas vêm falar comigo e falam-me das suas interpretações.
Ao fim de tantos anos já conseguem fazer uma vida confortável como músicos?
Quando estamos em casa tentamos trabalhar quando podemos, o que se torna difícil porque a banda está quase sempre ocupada, seja em estúdio, a gravar videos ou em digressões. Nós conseguimos viver da banda, mas não vivemos muito bem da banda (risos).
Em alguma altura chegaram a pensar assinar por uma multinacional?
Antes de gravarmos o álbum anterior chegaram a haver alguns contactos com multinacionais. O tipo de música que fazemos estava a tornar-se hype e apesar de haver bom dinheiro em jogo achamos que seria inútil porque eles não tinham a mínima noção de onde vinhamos ou de que cena faziamos parte. Para eles seriamos mais umas cobaias que poderiam manipular. Para nós a liberdade criativa é muito importante, por isso decidimos ficar onde estávamos.
Foi nessa altura que pensaram em separar-se?
Na realidade a banda chegou a separar-se, mas por um curto espaço de tempo. As pressões externas eram tantas que tivemos alguma dificuldade em aguentar tanta gente a tentar traçar o nosso caminho. O 'Progression Through Unlearning" tinha alcançado números que não estavamos à espera e toda a gente queria que passássemos a nossa vida na estrada. Quando voltamos foi porque decidimos que queriamos ser uma banda de novo e porque apesra de isto ser o nosso trabalho conseguiriamos retirar todo o gozo possível sem ceder a pressões.
Os Snapcase podem ser vistos como uma banda Straightedge?
Como banda não somos straightedge, apesar de individualmente todos nós o sermos. Eu não tento forçar as minhas ideias à pessoas. Prefiro que as pessoas pensem por si, e se por acso as minhas letras os ajudarem a ultrapassar certos problemas fico bastante contente. Não acho correcto quando alguém nos tenta abrir a cabeça e nos obriga a partilhar das mesmas ideias.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 12)
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