SOFT CELL
DO OUTRO LADO DO MUNDO
Os Soft Cell estiveram ausentes quase duas décadas. Tempo mais do que suficiente para a maioria dos artistas desistir de qualquer possibilidade de regresso. Afinal, em 18 anos, os fãs casaram, ganharam barriga e rugas e já não estão na mesma sintonia de onda. Nada disso, no entanto, afligiu os Soft Cell que tem em "Cruelty Without Beauty" um disco à altura do seu passado. A conversa com Dave Ball.
Dezoito anos é muito tempo para uma banda estar ausente. Como se sente agora que os Soft Cell voltaram a fazer parte do cena musical activa?
Pessoalmente continuei a fazer parte da cena musical só que estive enfiado num estúdio. Por um lado gosto de manter os fãs antigos mas por outro gosto de ver pessoas novas nos nossos concertos a vibrarem com a música. Isso é muito importante para os dois. Não estamos apenas a fazer música para as pessoas que gostam de nós desde os anos 80, se conseguirmos agradar às novas gerações talvez elas possam ir desenterrar o nosso fundo de catálogo.
Como é que os fãs antigos estão a reagir ao vosso regresso?
Têm sido muito favoráveis. Quando fizemos os primeiros concertos no The Ocean, as pessoas pareceram muito contentes por estarmos ali. Para além disso fizemos alguns festivais, como o V2002, onde não tocamos só para o nosso público. As reacções foram tão fantásticas que devem ter sido os melhores concertos que demos.
Há alguns anos, quando os ABC e os Culture Club se voltaram a juntar, falou-se num regresso das bandas dos anos 80. O único motivo pelo qual essas bandas decidiram regressar parece ter sido o dinheiro. O que fez os Soft Cell regressarem?
Acima de tudo a hipótese que tivemos de tocar e o facto das pessoas querem que voltássemos, e o facto de haver quem quisesse editar um novo disco. Não tem a haver com o facto de andarmos a pensar nisto há muito tempo, é mais pelo facto das pessoas terem vindo ter connosco. Se nos estão a dar esta oportunidade não faz sentido não a aproveitar. O mais importante é que achamos que ainda temos alguma coisa a dizer, essa é a grande importância do disco. Fazer alguns comentários sobre os tempos em que vivemos fazendo uma comparação com a altura em que começámos e como nos sentimos agora. Se as pessoas se estão a interessar por isso é óptimo.
Quais são as principais diferenças que encontra entre o momento presente e a altura em que começaram?
O primeiro single do novo álbum, “Monoculture”, resume de alguma maneira a nossa visão do mundo de hoje. Uma das maiores diferenças é a ideia de globalização que quer tomar conta do mundo. O Mundo está muito mais corporativo do que no início dos anos 80.
É por causa disso que filmaram o vídeo num restaurante de fast food? Acha que está tudo e ficar cinzento e medíocre?
Exactamente. Há muita gente que não está interessada em ser individual, parecem aceitar o facto de lhes ser imposto que devem usar este tipo de sapatilhas, comer esta comida. Parece que estão a usar um uniforme. Nós sempre estivemos dentro de uma sub-cultura, e talvez com o passar do tempo essa sub-cultura tornou-se numa coisa mais underground, porque quando nós começámos era algo mais visível e à superfície.
Acha que é perigoso o facto de estarmos a caminhar para uma só cultura?
Apesar de achar que sempre existirão indivíduos, há muita gente que se sentirá satisfeita por fazer parte dessa mediocridade, desse vazio. É uma opção mais fácil do que tentar ser único. Acho que durante os anos 70 e os anos 80 as pessoas preocupavam-se mais em ser diferentes.
A cultura pop mudou muito desde que os Soft Cell decidiram suspender a sua actividade e os grupos que actualmente escalam as tabelas de vendas são muito diferentes dos de há quase duas décadas. Acha onde acha que um disco como “Cruelty Without Beauty” pode chegar?
Sim, as coisas mudaram, e parece que cada vez mais há menos espaço para as coisas boas. Parece que existem cada vez mais coisas más, como aquelas coisas de karaoke que estão a invadir as tabelas de vendas. Parece que a música em si já não é tão importante para os adolescentes e para os jovens como era à 15 ou 20 anos. Hoje em dia toda a gente coloca etiquetas em tudo e ninguém se importa que usem a sua música em anúncios. Nos anos 80 era algo que não acontecia.
Deixaria que usassem um tema vosso num anúncio?
Provavelmente, se nos pagassem bem... (risos) Todos nós temos orgulho não é?... (risos)
Optaram por regressar assinando com uma editora independente. Foi um voltar atrás, ao início dos Soft Cell e à época da Some Bizarre?
Foi uma mistura de várias coisas. Quando as multinacionais ouviram as nossas demos começaram a dizer que gostavam que soassemos desta ou daquela maneira e que podiam falar com um produtor para mudar aquilo. A dada altura eu e o Marc começámos a lembrar-nos dos bons tempos que passámos na Phonogram quando começámos com os Soft Cell e decidimos que não queríamos assinar por uma multinacional. A Cocking Vinyl é como que uma editora independente multinacional, mas desta maneira temos a liberdade artística que queremos. Nesta altura da nossa carreira não fazia sentido termos um A & R de 22 anos a dizer-nos o que devíamos fazer. Do ponto de vista artístico era o passo certo a dar.
O disco chama-se “Cruelty Without Beauty” (“Crueldade Sem Beleza”). Se houver beleza a crueldade é mais aceitável?
Se for num contexto S & M provavelmente sim. Mas o título tem mais a haver com o facto do mundo de hoje ser um lugar bastante cruel, mesmo se tivermos a falar do que se passa na televisão, como a “reality TV” em que o objectivo é ridicularizar as pessoas e fazer com que pareçam um lixo. O mesmo se passa com a imprensa tablóide. Não sei o que se passa em Portugal, mas em Inglaterra adoram dar cabo da imagem das pessoas. É apenas uma observação sobre os tempos em que vivemos.
Apesar de sempre terem sido uma banda de cariz electrónico os Soft Cell estão muito longe duma certa imagem estereotipada da electrónica: a que diz que a música electrónica é fria, distante, sem alma...
Tudo depende do tipo de som que se quer obter. De quanto se quer soar como um grupo pop melódico em que em vez de usar instrumentos pré-programados, usa instrumentos que toca na altura. Nós optamos por seguir uma técnica que nos permite programar os nossas máquinas para soarem como fossem instrumentos a serem tocados no momento da gravação ou do concerto. E nós escrevemos as nossas canções de um modo muito tradicional o que ajuda bastante a que soemos como um grupo pop convencional.
Acha que os instrumentos de sopro (tocados por músicos e não samplados) , que têm usado ao longo da vossa carreira também ajudam a dar um ar mais “orgânico”, mais humano e com alma à música dos Soft Cell?
Sim, acho que sim. Sempre gostei muito de instrumentos de sopro: trompetes, trompas, fliscornes, saxofones, trombones, clarinetes, etc. Aprecio bastante a combinação entre metais e sintetizadores e acho que no caso dos Soft Cell essa junção tem funcionado muito bem.
Nunca pensaram em utilizar cordas?
Ouve uma ou outra vez em que falamos nisso mas não é uma opção para que me incline muito. Julgo que utilizar cordas, devido ao tipo de música extremamente intenso e dramático dos Soft Cell, seria demasiado exagerado e correríamos o risco de ver as canções afundarem-se.
Porque incluíram uma versão de “The Night” de Frankie Valli and the 4 Seasons no álbum?
Quando gravámos o “Tainted Love” havia duas hipóteses, duas canções que podíamos gravar, e a outra era o “The Night” que acabamos por nunca gravar. Quando nos juntámos novamente achámos que seria uma boa ideia gravar esse tema e ver como soava, porque é uma canção negra, é quase como o hino “escuro” do álbum. Nós sempre gostámos muito desse tema, e disseram-me que existe uma estranha versão desse tema editada nos anos 80, mas eu não a ouvi...
São vistos como os avós da cena electro-pop-dançável. Como é que se sente no papel de avô?
Isso é a percepção das pessoas. Não passamos a vida a pensar que somos os padrinhos/avós de coisa nenhuma. É bom sentir que as pessoas ainda respeitam a nossa música e é bom saber que fomos uma influência. Agrada-me o facto das pessoas nos citarem como influência porque quer dizer que fizemos algo de importante, porque fizemos com que alguém visse as coisas de uma forma diferente e percebesse que existiam outras possibilidades. E se elas quiserem pegar nas nossas ideias e transformá-las em algo deles isso é fantástico. E isso que todos os músicos a sério fazem.
Como vê a actual cena musical?
O que é a cena musical actual? Hoje em dia só vemos essas estrelas pop fabricadas, o electroclash, e um monte de áreas musicais... Provavelmente existe espaço para toda a gente.
Pelas suas palavras depreende-se que não gosta de electroclash...
Por electroclash preocupa-me um pouco por ser uma moda, e por ser uma moda pode matar esse movimento. Acho que os Fischerspooner perceberam isso quando tocaram em Londres. Era uma coisa tão “hype”, e apareceu tanta gente da moda, mas as críticas foram más. Eu gostei do álbum deles e gosto de uma boa parte das outras bandas mas não posso dizer que estou particularmente interessado nessa cena, é mais pelo facto de serem bandas novas interessantes. Acho que os Ladytron e Miss Kittin & The Hacker são realmente bons.
Sabe que até se dizia que “Merge” dos Fisherspooner era o novo “Tainted Love”…
Pois, mas obviamente não é. (risos)
“Tainted Love” tornou-se um clássico, uma melodia de sempre. O que sente quando houve essa canção?
É fantástico quando a tocamos ao vivo, porque as pessoas ficam bastante emocionadas, mas não é um tema que eu ouça quando estou em casa. Mas ficam ainda mais emocionadas quando tocamos o “Where Did Our Love Go”.
Quando gravaram esse tema faziam ideia no que se tornaria?
Não, porque o single que gravámos antes, “Memorabilia”, só chegou até ao número 100 das tabelas, e o “Tainted Love” conseguiu um pouco mais que isso. Nós queríamos ser uma banda underground de música electrónica, não tínhamos ideia que seriamos catapultados para o mega estrelato. Ficámos tão surpresos como as outras pessoas, e por um lado foi algo negativo para nós porque ao ter-mos um mega sucesso tão cedo na nossa carreira fazia com que fosse impossível manter esse estatuto. A partir daí seria sempre a descer. Era preferível que tivesse acontecido mais à frente, mas as coisas nunca acontecem assim... Depois de “Tainted Love” tivemos outros singles que foram êxitos, mas a editora queria que fizéssemos álbuns cheios de temas como o “Tainted Love”. Se lhes tivéssemos dado o que queriam tinham ficado satisfeitos mas as coisas nunca são assim, pois não?
O regresso dos Soft Cell está a ser extremamente bem recebido nos Estados Unidos. Há alguma razão especial para isso?
Não sei, não tenho ainda a noção do que está a acontecer. Vamos andar em digressão pelos Estados Unidos assim que o Marc melhorar. Nós só tínhamos tocado lá nos anos 80 mas nós sempre fomos muito populares em Los Angeles. É uma experiência estranha voltar lá. No princípio deste ano estivemos em Nova Iorque a actuar no programa da manhã da NBC, que é o maior “breakfast program” da América com vinte milhões de espectadores... Foi muito assustador actuar às oito da manhã, ao ar livre, enquanto as pessoas vão para o trabalho. Foi estranho porque eles fecharam a 5ª Avenida que estava cheia de americanos aos berros, controlados por polícias armados. Tudo isto à s oito da manhã em plena Manhattan.
E quanto ao Reino Unido e à Europa Continental?
Era suposto estarmos em digressão em Inglaterra e depois irmos para a Europa do Norte e depois para a América, mas o Marc teve que ser operado a uma hérnia e espero que possa recuperar a tempo da digressão americana. A digressão teve que ser toda remarcada por isso só devemos tocar no Sul da Europa mais tarde.
Hugo Moutinho e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 13)
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