SOLEDAD BROTHERS
FUGINDO AOS 12 BAR BLUES
Ao terceiro álbum, os Soledad Brothers expandiram o pântano onde o seu blues flutua. O slide continua a ditar lei, mas deixa-se levar mais facilmente pela distorção que, ao vivo, se mostrava felizmente incapaz de controlar.
John Sinclair, o ideólogo dos White Panthers, homem que pagava as despesas dos MC5 e que deles fez armas de propaganda revolucionária da contracultura de 60, utilizou a sua pena em “liner-notes” dos seus discos. O nome, Soledad Brothers, foram-no buscar a três prisioneiros negros que, em finais de 60, sob a alçada dos Black Panthers lutaram desde a prisão pelo fim da descriminação que reinava dentro e fora das celas. Jack White, o White Stripe, posou na capa do álbum de estreia e é um dos fãs mais entusiastas do grupo. E eles, os Soledad Brothers, são banda que deixa vincada a filiação – aquilo que fazem é um revolver do blues, descarnado e com pé carregando firmemente no pedal fuzz –, mas para quem pregar a revolução via música é coisa contraproducente. Bem vistas as coisas, “whether you are gonna be the problem or whether are gonna be the solution” é retórica com que o século XXI não parece fadado a conviver agradavelmente. Talvez por isso digam que “the best way to fight the Man is to feel good”. Talvez por isso deixem que o purismo blues anterior se contamine agora, ao terceiro álbum, “Voice Of Treason”, de acordes rock’n’roll para dança distorcida e de luminosidade psicadélica que os Moby Grape chamariam sua caso tivessem os Stooges – não os Byrds – como companheiros de quarto. Ainda assim, é uma voz negra ecoando sobre ritmo xamânico e maracas para ritual voodoo que se ouve na despedida “escondida”.
Em conversa desde a casa de Mr. David Viner – a história do, até há um ano, vendedor de merchandise dos Von Bondies conta-se nas páginas seguintes –, Johnny Walker, vocalista/guitarrista dos Soledad Brothers, fala-nos não de whiskey nem de pântano. Diz-nos que está ansioso por ver um jogo de futebol ao vivo, pergunta-nos se conhecemos o Legendary Tiger Man com quem partilhou palcos em Espanha e desemboca no fascínio por Billy Childish. É por aí que começamos.
Falava-me de Billy Childish. Uma das suas directrizes principais é prezar a autenticidade acima da originalidade. Está de acordo com a regra? Os Soledad Brothers parecem ser uma banda em que a entrega, a interpretação, é o ponto central da canção.
Completamente. É certo que existe um certo grau de composição envolvida. Tentamos organizar os arranjos, o que é, basicamente, uma forma de fugir ao esquema perverso dos “twelve bar blues”. Todos praticamos muito individualmente e podemos sentarmo-nos a tocar com qualquer pessoa independentemente do estilo, mas, como Soledad Brothers, gravitamos para aquilo ao som do qual crescemos, aquilo que ouvíamos quando a música começou a ser uma componente importante das nossas vidas. Falando por mim, tento tocar aquela que primeiro comecei a amar.
Que era?
Boogie blues, um pouco de jazz... O meu pai é grande fã dos MC5, portanto, isso sempre fez parte da minha vida, tal como, também por influência paterna, os Rolling Stones ou o Nat King Cole. Falando dos Soledad Brothers, o gospel também surge aqui e ali e, por vezes, entramos sem dar conta numa onda muito “free” – depois chegamos ao estúdio e transformamo-la numa canção. Temos uma série de influências e, não quero usar a palavra emular, mas tentamos prestar tributo, ou melhor, mostrar respeito pelas canções que, como disse, primeiro começámos a gostar quando verdadeiramente nos apaixonámos por música.
Sentem-se como alguém que acrescenta um elo a um círculo em eterna construção?
Exactamente. Estamos a tentar fazer algo de bom, a tentar estar a par daqueles que admiramos. Falávamos há pouco de Billy Childish. Conhecemo-lo o ano passado no Festival de Reading. É um homem introvertido, mas com um sentido de humor fantástico – eu sou um apreciador dos Thee Headcoats, e agora dos Buff Medways, desde há muito. É fantástico conhecer alguém como ele. Apareceu por trás da nossa carrinha enquanto eu carregava o material – não temos roadies nem nada disso. Apertou a minha mão depois do concerto, como se fosse uma aprovação e eu, “Uau!!”. O respeito pelos nossos pares, prestado por aqueles que admiramos, é o máximo a que posso aspirar – lembro-me que estava um papel no chão e o Billy Childish tentava colá-lo ao seu sapato. Não conseguia e eu disse-lhe para cuspir no papel. “Cola-se imediatamente ao sapato!”. (risos) Ele fê-lo e ficou fascinado enquanto andava pelo festival com um bocado de papel preso ao sapato. (gargalhada) Nada de óbvio. Muito Peter Sellers. Aprecio-o muito e foi óptimo conhecê-lo.
Falemos de “Voice Of Treason”, o vosso novo álbum. Parece mostrar um desejo por dança rock'n'roll mais evidente que o revelado pelo blues anterior.
Dançar é libertador. E não existe dança “cool”, o que é óptimo. (gargalhada) Todos o podem fazer. Lembras-te quando eras novo? Não pensavas duas vezes antes de dançar. Fazía-lo simplesmente. Liberta-te de toda espécie de inibições. Se a música que tocamos ajuda as pessoas a dançar e a perderem as suas inibições, então estamos a conseguir algo por si mesmo muito benéfico.
É por isso que afirmam “the best way to fight the Man is to feel good”?
Sim, sim. É muito isso.
Encontramos então aí, nesse “feel good”, o ponto principal da vossa agenda política?
Isso ajuda certamente. Muito gente sente-se mal com a forma como o mundo está neste momento. Muito gente pensa que a música blues é sobre estar deprimido, mas há um grande elemento de diversão envolvido. É suposto fazer sentires-te bem, tem algo de catártico envolvido. Se já te sentes bem, então só pode fazer sentires-te melhor; se estás um pouco em baixo, vai ver uma banda de que gostas, começa a dançar e atiras janela fora as sensações negativas. É libertador, verdadeiramente libertador. Lembro-me de uma situação em que íamos tocar numa pequena cidade do Kansas. Antes do concerto, estava a dormir na carrinha e apareceu um homem, sujo e esfarrapado, alguém com óbvias dificuldades de comunicação. Tentava dizer-me para não dormir na carrinha porque a polícia podia aparecer. Via-se que estava realmente preocupado, transtornado mesmo. Acalmei-o, disse-lhe que isso não seria um problema. Na sequência da conversa, acabei por incluí-lo na “guest-list” do concerto. De início, estava no bar, chapéu na cabeça. Acabou por chegar-se à frente, acabou por tirar o chapéu e, à quarta canção, estava a dançar freneticamente. No final veio ter comigo, deu-me um grande abraço e disse-me o quanto tinha apreciado aquela noite. Para mim, isso foi tão precioso como qualquer outro nível de sucesso.
Na sua génese, o blues falavam sobre o quotidiano de gente com vida banal – mas com talento acima da média para o descrever. Era o dia-a-dia tornado canção. Hoje em dia, podemos dizer que o que temos, no caso dos Soledad Brothers e de outros grupos que pegam no género como inspiração, é a romantização dessa mesma ideia de blues?
Até certo ponto sim, mas podes sempre escrever sobre aquilo que te rodeia. Afinal, a paixão nasce disso mesmo, daquilo que conheces. Até quando fazes versões, em que contas a história de uma outra pessoa, pode acontecer aquilo que cantas ser marcante o suficiente para te relacionares e reconheceres-te nela. A arte não tem necessariamente de imitar a tua vida. Podes cantar uma canção do Leadbelly e senti-la convictamente – se estiveres por dentro da canção, se ela significar muito para ti. Não é necessário um contacto directo com o seu autor ou com a realidade palpável cantada. O blues nem tem necessariamente a ver com o teu local de origem. Podes saber os acordes, as notas, as progressões, mas isso não quer dizer que o saibas tocar correctamente, não quer dizer que o consigas tornar interessante. Esse conhecimento não te servirá de nada se não souberes como interpretar as sensações por trás das notas.
Sendo que tal, pelo que me diz, deveria ser universal, como explica que o blues, linguagem musical americana, pareça ser mais apreciado na Europa que nos Estados Unidos – pelo menos desde a explosão do rock’n’roll?
Não sei. O Louis Armstrong, por exemplo, era reverenciado na Europa antes de ser sequer reconhecido nos Estados Unidos – e o mesmo acontecia com os bluesmen. Talvez isso aconteça por, tanto o jazz como o blues, serem linguagens musicais um pouco mais exóticas para os europeus que para os americanos. Ambas são uma amálgama de estruturas musicais europeias com ritmos e melodias africanos. Para nós, americanos, não é nada de especial. Vivemos e construímos esse contexto todos os dias. Para alguém de fora olhando para dentro, pode parecer algo fantástico. Acho que é impressionante ver, por exemplo, alguém como o Duke Ellington pegar em ritmos de bateria quase tribais e mesclá-los com instrumentos europeus e estruturas europeias de composição. Actualmente pode parecer banal, mas, na altura, ninguém tinha ainda pensado nisso.
Os Soledad Brothers retiraram o seu nome a um grupo de activistas negros de finais de 60, com ligações aos Black Panthers. Ao mesmo tempo, têm como fã e divulgador entusiasta John Sinclair, fundador dos White Panthers e líder espiritual dos MC5 de “Kick Out The Jams!”. São ou querem assumir-se como uma banda política?
Temos consciência política, mas tentamos não a derramar demasiado sobre a música. Em questões como essa, sou muito fã de subtileza. Há muito tempo, enquanto estudava a História do blues, percebi que o blues também não joga com coisas demasiado claras. Utiliza jogos de palavras, metáforas, segundos sentidos. Isso porque não era permitido aos negros falar directamente do modo como os brancos os tratavam. Também nós cantamos sobre determinados assuntos, mas fazemo-lo de uma forma subtil. Ser pregador perante o público tende a ser aborrecido e alienante. Isso é algo que não queremos fazer.
Referi há pouco John Sinclair, alguém para quem a acção política é indissociável da actuação artística. Sei que o conhece relativamente bem. Quais são as suas actividades actualmente?
Da última vez que ouvi falar dele, estava a viver em Amesterdão. O último contacto que tive com ele foi na noite da passagem de ano, em Nova Orleães, mas pouco falámos. Não estou realmente com ele há cerca de seis meses, porque andamos ambos bastante ocupados. Mas temos muitos conhecidos comuns em Detroit e, como disse, sei que está em Amesterdão, que é um bom sítio para ele viver. Tem muitos amigos por lá e estou certo que terá mais trabalho na rádio. Faz muitas actuações de spoken-word – foi numa delas que o conhecemos. É um homem muito astuto. Presta muita atenção ao que se passa à sua volta e vive muito confortável consigo e com a sua história de vida.
Criou-se a ideia que tentou fazer dos MC5 a sua marioneta política, algo que, em retrospectiva, não parece ter agradado muito à banda. Sabe algo que as biografias não contem?
Penso que eles seguiram a instrumentalização de livre vontade. O John é, ainda hoje, muito amigo do Wayne Kramer – e o Wayne é alguém de opiniões muito fortes, alguém que não tolera confusões e mal-entendidos. Essa ideia sobre a qual me perguntas, parece-me mais a história a funcionar – o ele disse, ela disse – que outra coisa qualquer. Afinal, o John Sinclair também teve um grande papel no sucesso dos MC5. O único que acha que foi lixado pelo John é o Dennis Thompson. Mas todos eles têm tanto com que se “entreter” actualmente, que esse revolver do passado será uma das suas últimas preocupações. Falei com o Michael Clarke acerca dos concertos de reunião dos MC5, sob o patrocínio da Levi’s, que serviram para toda a gente os acusar de vendidos à América corporativa. Ele disse-me simplesmente: “Tenho três filhos para alimentar”. Que se lixe o que todos pensam sobre integridade e popularidade. O legado é deles, cabe-lhes a eles tratarem-no como bem entenderem. Se algum miúdo “hip” dos subúrbios descobrir quem são os MC5 através do seu logotipo, seja. Há-de chegar à música e isso é que interessa. O logo faz parte da iconografia que lhes está associada e que não pode ser negada.
E que podemos escolher dos Soledad Brothers para iconografia? Questionados sobre como seria um concerto vosso, responderam certa vez: “Todos vão ter religião”. Pela faixa escondida de “Voice Of Treason”, imagino que seja uma marcada por magia negra...
Há sempre algo de místico envolvido naquilo que fazemos. Eu estou mais interessado na religião como fenómeno que como instituição – é aí que as pessoas se desiludem, é aí que, das Cruzadas para o passado e futuro, se aproveitam umas das outras. O fenómeno religioso, em si, é algo bom. As pessoas precisam de encontrar paixão e esperança onde quer que possam, e encontrá-las na religião é melhor que não as ter de todo. As linhas gerais de qualquer religião são, normalmente, boas directrizes para seguir. Não o cristianismo, o budismo ou o que quer que seja. O problema é quando a paixão se torna obsessão. Quem devota a sua vida a uma religião em particular, torna-se alvo de manipulação. Por mim, estou interessado em todos os tipos de religião e em nenhuma em particular.
O que não vos impede de cantar “done all my singin’ to the lord”.
Essa é um bom exemplo do que acabei de dizer. As pessoas que cantam gospel estão tão apaixonadas pelo seu Deus que fazem música impressionante. Mas Fred McDowell canta canções religiosas fantásticas e, aí, a ideia de amor é ainda mais evidente, porque canta com a mulher. Não é apenas sobre ele e Deus. É sobre ele e Deus, ele e a sua mulher, a sua mulher e Deus.
Da alma para o corpo. Tem um curso de Psicologia. Combinam bem em si música e ciência?
Conto-te uma coisa. A parte do cérebro que aprecia música situa-se no mesmo local, mas no hemisfério oposto, daquela que recebe e interpreta a linguagem. Tenho a teoria que, com a nossa evolução natural, a componente que aprecia música acabará por interpretá-la com a mesma complexidade e valor interpretativo daquela que decifra a linguagem. Já trabalhei num grupo de terapia para crianças com problemas de linguagem. Não conseguem seguir uma ordem com três comandos, mas, se as deres sob a forma de música conseguem-no. A música é um instrumento muito poderoso.
Com o trabalho que tem com os Soledad Brothers, tem tempo para se dedicar a essa outra vertente da sua vida, a Psicologia?
Estou algo dividido. Neste momento, sinto que estou a fazer coisas muito boas. A questão é perceber em qual actividade conseguirei ser mais benéfico. Agora, parece-me que aquilo que faço com os Soledad Brothers é o melhor. No momento em que isso deixe de acontecer, regresso ao Hospital. Ainda assim, contacto todos os dias com miúdos que procuram ajuda. Tento apoiá-los, o que é muito importante para mim, mesmo politicamente. Se, por exemplo, conseguir interessar os miúdos no simples acto de votar, isso pode fazer uma diferença – mesmo se votarem no George W. Bush. O importante é que se envolvam no que os rodeia. Se conseguisse pôr mil miúdos a ler o jornal todos os dias, isso já faria uma grande diferença. A política é parte de tudo o que fazemos na vida. Podes dizer que não te envolves, que não te afecta, mas é mentira. Tudo o que fazes é afectado pela política.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 18)
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