Entrevistas
SPEEDBALL BABY
NOVA IORQUE FORA DE HORAS
São Nova Iorque em banda sonora. Olham para os excêntricos nas ruas como Burroughs, tocam o blues como a Blues Explosion e assinam o seu melhor momento com o último “The Blackout”. Matt Verta Ray concorda já a seguir.

“New York is a fucked up town”, gritava Ron Ward, em pleno Barreiro, aquando da segunda passagem dos Speedball Baby por Portugal. Não espanta, então, que quatro “habitués” da baixa nova-iorquina façam música igualmente “fucked up”. Têm um poeta beat disfarçado de vocalista e, como canções, o musicar da sua invocação imagética. Tal resulta numa sucessão de planos – que os leva de ecos rockabilly a cetim soul, de blues urbano a negro Velvetiano – com mise en scène pouco previsível. Estrearam-se em 1995, com “Cinema”, fartaram-se das restrições multinacionais (editavam pela MCA), refugiaram-se num sótão e decidiram fazer por si sós o trabalho todo. “Uptight!”, em 2000, foi o primeiro passo do novo processo. Continuaram as comparações com Jon Spencer, os atestados de autenticidade “Big Apple” e a afirmação como banda de catalogação difícil. É o que costuma acontecer quando o rock’n’roll pensa em mais que música. Pelo que ouvimos em “The Blackout”, ainda bem que beats, freaks, Burroughs, Scorceses e Warhols fervilham no caldeirão criativo dos Speedball Baby.

Conta-se que os Speedball Baby se formaram na festa de casamento de Ron Ward. Estamos perante uma história tão boa que se impediu a verdade de a estragar, ou foi realmente um encontro feliz num momento e local pouco ortodoxos para a fundação de uma banda?
A história é, de certo modo, verdadeira. Conhecia o Ron das vezes em que ele vinha de Boston visitar Nova Iorque. Toda a gente tinha uma banda, por isso, a vertente rock’n’roll não era novidade. No Ron, acho que reconheci uma centelha extra de imaginação. Tinha uma série de poemas a que espontaneamente recorria sempre que uma festa acalmava, mas, como o conhecia por ser baterista dos Blood Orange – que tocavam uma espécie de bluegrass punk -, nunca cheguei a pensar nele como vocalista. Quando, para minha surpresa, me convidou para o seu casamento, encarei a situação da forma irónica que quem se imagina “hipster” lida com eventos tradicionais. Afinal, acabou por ser divertido e encantador. Os pais dele dançaram o seu rockabilly e toda a gente ficou bastante “tocada”, incluindo a banda contratada para o evento. Dado que os convidados eram, na sua maioria, gente do rock’n’roll, alguns de nós pegámos em instrumentos para uma “jam bêbada”. O Ron dominou microfone, cantando, cantarolando e improvisando. Tinha uma presença em palco electrizante. Tratei logo de fazer uma nota mental: trazê-lo a Nova Iorque para criarmos qualquer coisa juntos. Funcionou! A banda há muito que ultrapassou em duração o casamento.

“The Blackout” soa como o mais bem concretizado álbum da discografia dos Speedball Baby. Aquele em que a esquizofrenia natural da banda se combina na perfeição com uma coerência narrativa que cola todos os elementos mais firmemente que antes.
Também penso que este é um dos nossos melhores discos. Penso que conseguimos, finalmente, o balanço correcto entre o som cheio e quente e a nossa estética de “desmoronamento eminente”. Sou da opinião que as nossas gravações mais antigas sofrem de demasiada racionalização do processo de gravação. Quando os Speedball Baby começaram, tinha acabado de deixar o lugar de baixista nos Madder Rose, uma banda de “dream pop”. Editávamos por uma major e tínhamos todas as restrições que tal implica; um grande orçamento – significando que há muito em jogo -, produtores contratados e pouco controlo sobre a forma como a música era registada. Quando os Speedball arrancaram, estávamos determinados a não seguir quaisquer regras de composição, som, relações com editoras, tudo. Foi muito libertador e ajudou-nos a sermos exactamente nós próprios em vez de um produto contente por se inserir na máquina industrial. O lado mau desta atitude era tentarmos demasiado ser um clube secreto com cuja música apenas os “ultra-habitués” se conseguem relacionar. Na altura em que fizemos “The Blackout”, em vez de sermos um “Vão-se foder!” snob àqueles que não nos compreendiam, sentimo-nos mais receptivos a acolher pessoas interessadas no que vínhamos fazendo e abertas à nossa ideia de arte como forma de comunicação.

Como aparecem no disco uma lista de convidados que inclui Jon Spencer, Judah Bauer, Cristina Martinez ou Mick Collins? Chamaram os amigos que podiam acrescentar algo a “The Blackout”?
Ter o Mick Collins nos nossos discos tornou-se quase uma tradição. Ajudou-nos bastante no disco anterior, “Uptight!”. Neste, tínhamos uma canção com que nenhum de nós conseguia lidar correctamente. Era suposto que “Cash Cow” fosse um cruzamento entre Mose Allison e Billie Holiday, um chulo cantando uma canção de amor à sua futura prostituta/namorada. Requeria, portanto, um peso emocional com o qual nem toda a gente consegue soar “cool”. Ainda não tinha acabado a letra quando o Mick Collins chegou ao estúdio, por isso, fui até um café para terminar o trabalho enquanto ele iniciava a sua “preparação” para a gravação bebendo até ficar completamente torto. Se a ouvires com atenção, percebes que ele está um pouco mais desequilibrado que o normal. Ainda assim, fez um bom trabalho. É um cantor a sério, dos melhores que por aí andam. O Jon Spencer e a Cristina apareceram no estúdio quando estávamos a gravar “The Diddler” e acabámos por convencê-los a tocar nela. O Jon tocou guitarra acústica, a Cristina tocou percussão e fez alguns coros. O Ron parecia zangado essa noite e estava a “atacar” o tema de uma forma muito beligerante, o que era estranho. Na altura não conseguíamos perceber se estava a sair dali algo de interessante, contudo, enquanto procurava no gravador um espaço livre para gravarmos, os outros começaram um “groove” porreiro e o Ron saiu-se com o “wanna scratch it, baby?”. Carreguei no “rec”, comecei a segui-los e esse curto momento acabou por ser a parte central de “Wanna Scratch It?”, a minha canção preferida do disco. Quanto ao Judah Bauer, que é também nosso amigo e, na minha opinião, um dos melhores guitarristas de Nova Iorque, surge pelos problemas que estávamos a ter com a canção “Do The Blackout”. Acabámos por despi-la a guitarra acústica e chamámos o Judah para gravar harmónica, que acho ser aquilo que conduz toda a música. Outro convidado que merece menção é o grande James Chance, que contribuiu com saxofone – e a história do dedo perdido – em “Pimp Hand Strong”.

Os Speedball Baby são, muitas vezes, comparados à Jon Spencer Blues Explosion e, de facto, existe entre ambos uma similitude de processos na abordagem ao rock’n’roll; uma construção musical em polaroids que, no caso da Blues Explosion, é guiada pela música em si e, no vosso caso, pela narração cantada de Ron Ward. Digamos que, onde eles são Elvis, os Stones e o anfitrião de uma festa soul num só; os Speedball Baby são Burroughs e um Scorcese (ainda mais “street-wise”) exprimindo-se através de cinquenta anos de história da música popular. Revém-se nesta linha de pensamento?
Desde o nosso início (pouco depois dos JSBX começarem) temos sido referidos como próximos e, de facto, existem algumas semelhanças superficiais: o gritar cantado em vez de canto canónico, a música baseada em riffs blues, o ênfase na bateria, o cabelo curto e as roupas escuras de Nova Iorque. Fomos muitas vezes classificados como uns Blues Explosion de segunda, mas os factos são estes: acontece que num período particular, coexistiam no mesmo reservatório gasoso da East Village nova-iorquina os mesmos elementos químicos. Eu e o Jon passámos os dois por escolas de arte. O Ron e o Jon são ambos de New England. O Judah e eu somos, desde sempre, obcecados por blues e pela cultura afro-americana. O Ron e o Judah preferiam as mesmas drogas. Estávamos todos enclausurados na mesma cidade com colecções de discos absurdamente semelhantes, da Sun Records a Sun Ra. Dito isto, sobram, como apontaste, as tais diferenças. O que fazemos é construído, basicamente, à volta da imaginação e da criação vocal do Ron. O resto da música surge como um enquadramento das letras. Não sei como compõem os JSBX, mas imagino que seja ao estilo dos Stones; “jammando” até aparecer um “groove” e esperando que surjam algumas palavras “idiotas” para que se lhe possa chamar canção. Os dois estilos acabam por resultar em óptima poesia surreal, mas atingem-na partindo de ângulos diferentes. O William Burroughs é uma influência óbvia em nós. Era um grande escritor, mas também um mestre na declamação. Essa é uma qualidade que nos é muito querida. De certa forma, é ela a essência da banda: aquele fixar do momento decisivo em que forma e conteúdo são inseparáveis.

Afirmaram em entrevista que, “se não é vital e significativo neste preciso momento, então mais vale não o fazer”. É isso que os Speedball Baby pretendem atingir? Criar o “agora” com tudo aquilo que é visível “aqui”? Não tentar a imortalidade da vossa música, mas a sua urgência imediata?
No que diz respeito à imortalidade em arte, aquilo que foi criado de forma inconsciente de si própria, acaba por suportar a passagem do tempo. Johnny Thunders, Leonard Cohen, Lou Reed, Jack Kerouac, Charlie Parker. Grande parte daquilo por que são recordados é resultado de terem retido um instantâneo de algo que lhes fluía do cérebro num momento específico. Nunca mais quero ouvir uma ópera rock pretensiosa dos The Who, mas tenho os discos do Lester Young que o meu pai me deu. Ouço-os desde pequeno e ainda hoje me emociono com a sua inventividade. A maioria das canções são standards, mas a simplicidade de tocar aquelas notas, naquele momento, com aquela tonalidade, soa-me verdadeira. A sua música acaba por tornar-se imortal precisamente por se deixar fotografar para um presente musical que era uma reacção natural a quem ele era, àqueles com quem tocava, às circunstâncias à sua volta. Gosto da pintura abstracta dos expressionistas da década de 50 basicamente pelas mesmas razões. As pinturas eram inseparáveis do processo que as originou. Não é uma canção do Captain Beefheart semelhante a um quadro de Rauschenberg?

Ouvem-se muitas bandas falar de um renascimento artístico de Nova Iorque desde o 11 de Setembro e, olhando um pouco atrás, desde a passagem de Giuliani pelo lugar de Mayor. As suas leis rígidas relativamente à vida nocturna ou a “limpeza” das ruas levada a cabo para satisfação da classe média, parecem ter estimulado a vontade de seguir o caminho inverso. Musicalmente, o resultado traduz-se no hedonismo dance-punk do elektroclash, no anti-folk de uns Moldy Peaches ou numa cena rock’n’roll influenciada pelo punk (pós e new-wave) onde se incluem os Liars, os Strokes, os Mooney Suzuki ou os Radio 4. Como alguém que viveu de perto a cena musical nova-iorquina desde há cerca de duas décadas, que opinião guarda do momento actual?
Não posso falar pelo resto das bandas, mas suspeito que sempre que uma “cena” é reconhecida, é-o pelo exterior e após ter acontecido. Toda a gente fala da era CBGB’s em finais de 70 como se fosse uma grande e generosa comunidade de almas com ideais semelhantes. Não estava lá, mas quase aposto que era bem mais dividida e estilhaçada do que os críticos rock quiseram fazer parecer mais tarde. Egos, drogas, inseguranças e as dificuldades normais da tentativa de criação artística asseguram desde logo muito com que lidar qualquer que seja o ambiente envolvente. Agora, se há diferenças, a inquestionável entre a Nova Iorque da era CBGB’s e a actual é o facto de, na altura, viver o dia a dia ser muito mais barato. Podias vaguear por aí, arranjar um trabalho como “dominatrix” ou doador de esperma e ter muito tempo livre para actividades criativas. Não sei até que ponto o Giuliani é culpado, mas Nova Iorque transformou-se numa cidade para os ricos, os burlões ou os muito sortudos. Nós conseguimos manter-nos na zona gravitando entre a muita sorte e a burla ocasional. A menos que te insiras numa destas duas categorias, como é possível manter uma banda que consiga produzir algo visível? Só para pagar a renda tens que trabalhar o tempo todo. Aplaudo estes novos grupos que o estão a conseguir.

Do presente para o passado. O que recorda da passagem pela Factory de Andy Warhol, onde trabalhou como pintor de cenários?
Arranjei lá trabalho a meio da década de 80. O mundo das artes plásticas estava em ebulição e o Andy Warhol ainda era o rei do social. Havia um “hype” tremendo à sua volta e muito disso nascia do seu carácter brando e do facto de não emitir opiniões objectivas. Era um “ecrã em branco” perfeito, no qual todos podiam projectar as suas próprias neuroses. Limitava-se a estar lá, causando reacções de insegurança nas pessoas e utilizando-as depois na sua própria arte. No geral, apesar de tudo, um gajo porreiro e, no que me diz respeito, sempre agradável. Naquele período, todos os traços de loucura dos primeiros anos da Factory tinham desaparecido. Era um ambiente muito empresarial, embora bastante sofisticado e rodeado de arte fantástica. Lembro-me que era Sábado quando ouvi que Warhol tinha morrido. Estava num táxi e o meu primeiro pensamento foi: “Será que ainda tenho emprego na Segunda?”. Quando lá voltei, ainda havia muito para fazer. Os abutres que andavam pela tipografia empurravam-se uns aos outros, forjando assinaturas do Andy em impressões e pinturas deixadas inacabadas. Quando alguns meses depois apareceram vários trabalhos assinados no mercado, reconheci um monte deles. E, definitivamente, não estavam concluídos à altura da sua morte.

Uma última questão. É sua a produção de "Fuck The Beatles, Go Country", dos portugueses Tédio Boys. Está a par dos projectos em que os seus antigos membros estão agora envolvidos?
Todos os antigos membros dos Tédio Boys são nossos amigos e apoiamos os seus trajectos musicais desde então. Gravei outro álbum dos Tédio Boys que nunca foi editado. [N.R. Paulo Furtado confirmou à Mondo Bizarre a existência desse álbum - que considera como o melhor que os Tédio Boys gravaram -, de nome "Pussy Nest", mostrando-se triste com o facto o disco nunca ter sido lançado.] Imagino que o gajo da editora esteja à espera do momento ideal para o lançar. Tocámos com os d3o em Coimbra desta última vez e com os Wray Gunn na penúltima visita a Portugal. Gostei dos dois. Dos Bunnyranch e dos Parkinsons só conheço a reputação, ainda não os vi ao vivo. Entretanto, estamos a planear uma digressão para Portugal e Espanha na Primavera, com os Subsonics - uma óptima banda de Atlanta - e o projecto a solo do Paulo Furtado, The Legendary Tiger Man.

Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 14)