Entrevistas
STEVE WYNN
OS MILAGRES JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM
Steve Wynn é um “gentleman” do indie-rock, simpático, bom conversador e com aquela aura de sabedoria que os anos garantem. Na apresentação do novo “Static Transmission”, um álbum mais calmo e introspectivo que o anterior, que diz ser reflexo dos tempos que atravessamos, passou por Lisboa, para um curto “showcase” e algumas entrevistas promocionais. Apresentou-se a solo, em regime acústico, e foi exactamente com o mesmo tipo de abordagem, simples e frontal, que encarou as perguntas da Mondo Bizarre.

Steve Wynn, a voz dos lendários Dream Syndicate, tem estado em alta nos últimos tempos, muito por causa do seu excelente duplo álbum de 2001, “Here Come The Miracles”. É este um disco em que demonstrou que, vinte anos depois do início da sua carreira, a fonte de inspiração para escrever canções está tudo menos esgotada. Na ressaca deste álbum e dos acontecimentos por que a América e o mundo passaram nestes últimos dois anos, surge, agora, “Static Transmission”, um álbum mais denso e negativo. Um reflexo dos tempos que traz, também, um Wynn com uma postura mais política.

O seu novo álbum apresenta uma abordagem mais intimista e melancólica que o anterior, “Here Come The Miracles”, que era uma gravação mais expansiva e ecléctica. Sentiu a necessidade de regressar a alguma tranquilidade após um álbum extraordinariamente luminoso e energético?
Acho que foi simplesmente a música que estava a ser feita. Fiquei tão contente com o álbum anterior que quis regressar ao mesmo estúdio, ao mesmo produtor, às mesmas condições. E quis deixar a situação correr. Mas as canções começaram a ter um outro tipo de ambiência: mais introspectiva, mais melancólica, o que gerou um álbum mais perturbante. Alguém lhe chamou “música soul perturbada”, e gostei dessa definição. É como se o álbum anterior fosse o irmão mais velho, confiante e bem sucedido, e este o irmão mais novo, mais confuso e tímido. Gosto de ambos, e ambos surgem do mesmo sítio. Acho que se complementam bem.

Há realmente um pouco mais de música soul no novo álbum. Desde sempre afirmou que gostava do género, mas pelos vistos aqui assumiu-o um pouco mais… Achou que era o tipo de música mais apropriada para o momento?
Sempre gostei de soul e r&b dos anos 70, fazem parte do meu “background” musical. Mas nunca tentei fazer esse tipo de música, porque achei que nunca a conseguiria tocar - só porque se gosta de um determinado tipo de coisa, não quer dizer que a consigamos fazer. Mas sempre achei, por exemplo, que os Dream Syndicate eram uma “groove band” ou uma “soul band” do mesmo modo que os Velvet ou os Stooges o foram. Tem tudo a ver com repetição e com encontrar um ambiente e aprofundá-lo o máximo que se puder. Antes de ir gravar este álbum fiz cópias do “There’s A Riot Going On”, dos Sly And The Family Stone, para todos os elementos da banda. Não queria fazer um álbum de soul ou funk, pedi-lhes apenas para sentirem o quão claustrofóbicas e íntimas eram aquelas canções. Queria aquela sensação de estar num quarto sem janelas e sem saída. Queria algo assim e acho que o conseguimos. Se calhar só na minha mente é que isto faz sentido. Penso que o álbum é calmo e seguro, mas negativo e horripilante ao mesmo tempo.

Mas há uma canção em particular, “Maybe Tomorrow” que é mesmo uma canção soul, com arranjos de violinos e tudo. Afinal sempre quis mesmo fazer uma canção pelas regras do estilo?…
Sim, acho que adorava ouvir o Barry White cantá-la. (risos) Mas também “The Ambassador Of Soul” têm um pouco desse ambiente e “What Comes After” é praticamente gospel. Vem na tradição do gospel, sendo libertadora através da escuridão e da tristeza. É tentar subir acima de uma determinada situação que não é boa.

“Álbum pós-11 de Setembro”

No fundo porquê este sentimento geral de negatividade e de perda ao longo do disco, principalmente depois de um álbum bastante mais energético e positivo? Foi o reflexo de alguma má reacção ao seu álbum anterior, que era excelente?
Não, não. A reacção ao “Here Come The Miracles” foi óptima. Na América foi o melhor acolhimento que tive na minha vida. A todos os níveis: em termos de críticas, de vendas, etc. Não foi isso. Penso que escrevo melhor de um ponto de vista da escuridão e da melancolia. Se estou infeliz cinco por cento do tempo, é sobre isso que quero escrever. E sem querer debruçar-me demasiado sobre este ângulo, muito aconteceu em Nova Iorque, que é a cidade onde vivo, nos últimos dois anos. E não há dúvida que a ambiência da cidade neste período influenciou de forma determinante este disco. É sem dúvida um álbum pós-11 de Setembro. Acho que todas as emoções que existem aqui têm a ver com as emoções que senti na minha cidade, a combinação de tristeza, arrependimento, horror e terror ao mesmo tempo, a necessidade de encontrar a luz e a esperança adiante. Há muito de morte e de raiva neste disco, e até de humor negro. Não quis fazer um álbum sobre o assunto, como o Bruce Springsteen. Mas, olhando agora, tem tudo a ver, eu vivi no meio daquilo tudo. Já escrevi muito sobre más pessoas, que fazem coisas horríveis, mas essas canções agora parecem-me menos relevantes. Vivemos em tempos muito mais esquisitos e assustadores agora.

A América centrou-se muito em Nova Iorque nos últimos tempos, e nessa altura estava a escrever canções para este álbum como “Hollywood” ou “California Style”, que evocam o seu passado na costa Oeste. Parece um pouco paradoxal. Foi uma maneira de olhar para o outro lado das coisas, para uma outra América?
Mesmo em “Here Come The Miracles” escrevi bastante sobre a Califórnia. Vivi lá durante 34 anos, portanto faz mesmo parte da minha vida e sempre fará. Para mim é mais interessante escrever agora sobre a Califórnia do que quando lá vivia. Usá-la como metáfora para um lugar de romance e intriga. Escrevo sobre o que a Califórnia é: um lugar de “freaks”, e Los Angeles uma cidade de insatisfeitos. Nova Iorque é uma cidade funcional, as pessoas andam na rua o tempo todo. Se alguém não gosta de alguma coisa, grita: “sai do meu caminho”. Na Califórnia toda a raiva é mantida no íntimo. É por isso que há lá mais escuridão, toda a gente vive um bocado dentro da sua cabeça. A Califórnia é uma óptima metáfora para o isolamento e para os impulsos obscuros que guardamos dentro de nós. Talvez por isso tenha mais tendência a escrever sobre o assunto.

Em canções como “What Comes After”, “Maybe Tomorrow” ou “A Fond Farewell” parece estar a lidar com a passagem do tempo, com o passado e com memórias. Pensa que há um momento específico em que se começa a pensar sobre estes assuntos?
Desde sempre que escrevo sobre a nostalgia, o arrependimento ou a culpa. Mas, de facto, quando se começa a ficar mais velho há uma certa tendência para ir buscar mais esses assuntos. Olha-se para trás, vê-se as escolhas que se fez, e perguntamo-nos se foram as correctas. Olha-se para a frente e as possibilidades são menos e é preciso lidar com isso. Vê-se a Morte e perguntamo-nos o que fica entre o presente e esse ponto. Isto torna-se mais relevante. Por exemplo, olho para o Bob Dylan e para um álbum como “Time Out Of Mind”, que é um óptimo disco que ele nunca poderia ter escrito quando tinha 20 anos. Não me sinto velho, não sinto que os meus dias estejam contados, mas tenho agora muito mais experiências, que me trouxeram até este ponto, e, por vezes, pergunto-me como seria se tivesse tomado outras opções.

Vê-se como um existencialista?
Acho que este é um disco existencialista. Enquanto o escrevia, passei o tempo todo a dizer: “este é o meu disco existencialista”: como chegámos aqui? porque estamos aqui? para onde vamos?” Talvez seja assim por causa dos acontecimentos de Nova Iorque, mas também tem a ver com acontecimentos pessoais. Gosto muito da canção “A Fond Farewell” porque é uma canção que faz contas com o passado e não dá grande valor ao assunto. É uma canção divertida e irónica: “Os meus ossos vão tornar-se poeira que irá acabar em poços de petróleo.” Não é muito importante onde acabamos, isto pode ser uma boa viagem na mesma.

O facto de o ex-Come Chris Brokaw não pertencer à banda que gravou este álbum, ao contrário do anterior, tem alguma coisa a ver com esta mudança de direcção musical?
O Chris Brokaw tem sido o meu guitarrista principal durante anos. Tem uma personalidade musical forte e espero voltar a trabalhar com ele no futuro, mas ele não conseguiu encaixar no meu calendário de digressões e então não gravou o disco. Acho que a mudança na música advém do facto de as pessoas estarem noutro tipo de situação, de se terem passado dois anos. Começámos estas sessões quase como se fossemos gravar “Here Come The Miracles Part II” mas ao fim de dois dias soubemos que isso não ia acontecer. Os métodos alteraram-se, e tentámos todos ir mais fundo neste álbum. O outro era mais divertido, mas penso que este é mais recompensador se lhe tivermos atenção.

No final de “Here Come The Miracles” há uma canção chamada “There Will Come A Day” onde diz em tom meio jocoso: “Virá um dia em que os pacientes serão recompensados e os atormentadores irão pagar.” Acredita haver alguma espécie de justiça divina neste negócio da música? E no mundo em geral?
Bem, não tenho qualquer preocupação, expectativa, fé ou ódio pelo negócio da música. A minha vida tornou-se completamente independente deste negócio de uma forma muito agradável. Nos últimos 5 ou 6 anos financiei os meus álbuns e encontrei um modo de ir ao encontro das pessoas que gostam da minha música e não me sinto mais parte da indústria musical do que da indústria do fast food ou do negócio automobilístico. É algo que existe de forma separada do que faço, o que é uma óptima sensação. Se a indústria está interessada nos Limp Bizkit ou na Kelly Osbourne, óptimo, isso não tem nada a ver com a minha vida. Quanto ao resto: justiça no mundo, justiça na Humanidade… Espero que sim. Penso que se chega a um ponto da nossa vida onde encontramos a nossa própria justiça. Tem a ver com o processo de envelhecimento: já não esperamos um triunfo absoluto, encontramos o nosso próprio canto do mundo e encontramos os nossos triunfos aí. Penso que quando se tem 20 anos pensa-se que é possível ter um êxito enorme e que é possível mudar a face da música pop para sempre. É um sonho bonito e em cada década há algumas pessoas que conseguem. De certo modo penso que os Dream Syndicate o conseguiram. Mas quando se fica mais velho descobre-se o que nos pode fazer felizes e o que pode fazer feliz um certo número de pessoas, pensa-se que é possível expandir a nossa vida para pontos interessantes. E isso é óptimo. Simplifica-se muita coisa. Espero que isso não signifique aborrecimento. Por exemplo, com o “Here Come The Miracles” foi uma questão de fazer as coisas com as pessoas certas no momento certo com as canções certas. Acho que nunca gravei um disco tão facilmente na minha vida. Não houve grandes planos, mas isso só acontece algumas vezes.

Não pensa que este álbum mais denso poderá levar os ouvintes a ficar um pouco desapontados, depois de um álbum tão esfusiante quanto esse?
Quando acabámos o “Static Transmission”, estava em conversa com a nossa baterista, e ela avisou-me para me preparar, porque as pessoas iriam dizer que o outro álbum é que era bom e este nem por isso. Até agora a resposta tem sido boa, mas penso que as pessoas têm de se esforçar um pouco mais com este. É um disco que reflecte a nossa disposição quando o gravámos, mas também um pouco o ambiente do tempo presente. O que aconteceu nos últimos anos foi muito marcante. O mundo está um bocado lixado, não foi só o que se passou em Nova Iorque. As pessoas estão todas na expectativa. Há dois anos as pessoas pensavam que o futuro era ilimitado. Faziam planos para quando tivessem 50 ou 60 anos. Agora não sabem o que vai acontecer na semana que vem. Este sentimento de insegurança está patente neste álbum, sem se mencionar deliberadamente o assunto, e penso que as pessoas se podem relacionar com isto.

Mas não é precisamente neste tipo de períodos que as pessoas necessitam de mais escapismo e entretenimento?
De facto, nos últimos anos, nos Estados Unidos os programas tipo “Big Brother” ou comédias parvas tornaram-se muito mais populares. As pessoas precisam desse tipo de fantasia. É um tipo de aproximação. A minha é diferente. O meu disco favorito do ano passado foi o álbum dos Wilco, “Yankee Foxtrot Hotel”, que é um disco bastante perturbante, que oscila constantemente entre a felicidade e a desolação. E aquilo fez sentido naquele ano.

“Não confundam os americanos com o governo”

Ultimamente tem-se sentido uma reacção de embaraço e quase vergonha por parte da comunidade artística norte-americana em relação às posições políticas do governo dos Estados Unidos. Pensa que os artistas devem assumir essas posições de uma forma mais frontal?
Penso que há muita gente zangada com esta situação. Muitos dos meus amigos músicos estão muito descontentes. Eu toquei nuns concertos anti-guerra, na Noruega, recentemente, e foi muito excitante. Mas fazer um disco acerca disso… O mundo muda tão rapidamente, hoje em dia, que fazer um disco acerca de situações específicas é muito arriscado. Quando o disco sair, o assunto pode já ter passado à história. Eu leio jornais, e sou razoavelmente bem informado, mas não me considero um comentador político. Até ao ano passado, quando o assunto surgia numa entrevista, eu fugia dele. Mas este ano já é diferente, acho que estamos mesmo a atravessar maus tempos, as pessoas precisam de falar de qualquer modo que o possam fazer. Ao mesmo tempo, acho que nunca vi um governo ou uma administração que se importe menos com o que as pessoas pensam. É incrível, porque eles não se importam com a opinião pública, com os media ou o que for. Vão fazer o que querem fazer. Tem tudo a ver com intolerância e manter as pessoas num estado de medo. No entanto, é importante que as pessoas não confundam os Estados Unidos com o governo dos Estados Unidos. Não odeiem o Muddy Waters por causa de George Bush. Penso que é mau ficar silencioso, mas também é verdade que o facto de falarmos sobre o assunto não vai alterar muito. Nesses concertos na Noruega foi o que tentei dizer: não vai mudar nada o facto de estar neste palco, é só uma maneira de demonstrar que nem todos os americanos pensam da mesma maneira.

Como cantor-compositor americano, como vê esta multidão de novas bandas que surgem de países como a Noruega, a Suécia ou a Nova Zelândia e que tentam fazer rock’n’roll ao modo americano?
Acho isso bastante cool. Nos anos oitenta visitei outros países em digressão e tinha sempre curiosidade de saber que tipo de bandas havia por lá. E toda a gente dizia que não se passava grande coisa, que não havia nenhuma cena. Agora há uma cena de bandas nesses sítios. Vê-se na Alemanha, na Noruega, em Espanha. Há boas bandas a surgir um pouco por todo o lado. É bastante cool. E bandas que tentam combinar a tradição musical do país com rock’n’roll, o que também pode ser interessante. Por exemplo, adoro os Hives e é muito interessante que se possa pegar neles para mostrar às pessoas coisas acerca dos Sonics ou dos Stooges. Isso é óptimo. O mundo está a encolher a toda a hora. Toda a gente já pode ter acesso às mesmas coisas.

O rock’n’roll já existe há cerca de 50 anos e, ao que se diz, está prestes a morrer todos os anos. O que pensa que o rock ainda pode ter para dizer às pessoas, seja numa vertente mais hard, mais psicadélica ou mais folk?
Bastante. Sempre que parece estar a morrer, de repente, acontece alguma coisa que nos surpreende. As modas morrem, o rock’n’roll vive para sempre. As tendências parecem sempre ser a última palavra, mas dois anos depois já ninguém quer ouvir falar delas. O rock, não como uma tendência ou um movimento, mas como uma maneira de expressar emoções, é sempre relevante. Não há nada melhor do que ver uma banda ou estar numa banda que consegue ultrapassar todas as tretas e atingir um ponto sensível. Isso é possível com a música, é muito emocional. Quando os Dream Syndicate surgiram, há 20 anos atrás, as pessoas diziam-nos: “vocês tocam rock, tocam guitarras, isso está tão fora de moda.” Isso foi antes dos Nirvana, dos Strokes, dos White Stripes, até antes dos Pixies e dos Mudhoney. Nessa altura já se dizia que o rock estava morto. Mas o rock continua a encontrar novas maneiras de comunicar. Acho que a música não são modas, é uma maneira de transmitir emoções.

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 14)