SYMPATHY FOR THE RECORD INDUSTRY
O PADRINHO
Longe vão os tempos em que Long Gone John se dava com as companheiras de Charles Manson. Há doze anos que gere sozinho uma das mais interessantes e prolíferas editoras independentes americanas, descobrindo a cada esquina bandas que mais cedo ou mais tarde se tornam importantes no mundo do rock e derivados.
Onde encontrou a motivação para fundar a editora em 1988? O que fazia nessa altura? Pelos meus cálculos, devia ter cerca de 40 anos...
Devia ter uns 37 anos, mas para ter a certeza precisava de uma máquina de calcular, o que é proibido pela minha religião... Há 11 anos e meio que tenho a editora e pouco falta para chegar aos 50. Na altura, andava envolvido em vários negócios ilícitos e não tenho a liberdade necessária para, de momento, os revelar. Qual é a próxima pergunta?
De onde veio o nome da editora?
Hmmm... Parece-me bastante óbvio. Foi roubado de um tema dos Rolling Stones, "Sympathy For The Devil". Pensei na indústria discográfica como uma entidade desprezível e maléfica [aqui, Long Gone John faz uma vózinha à Sylvester], que é tal como eu sou, ainda que a um nível menor, já que eu sou apenas uma pequena ameça para a sociedade...
Lançar mais de 500 discos em 12 anos não é fácil. Como consegue fazer tudo sózinho?
Na verdade é fácil: nunca dormir e aprender a funcionar em piloto automático. O presente número de edições está próximo das 600, com projectos já escolhidos até ao número 619. Faço tudo sózinho, por que me parece ser mais simples do que ensinar alguém. Sou uma pessoa extremamente complicada e impaciente. Fui clinicamente dado como anti-social, por isso, penso ser melhor não envolver mais ninguém nas minhas movimentações, de modo a não pôr essa pessoa em risco.
Como é lidar com mais de 400 bandas? Deve enfrentar muitas personalidades diferentes e muitos egos inflamados.
Tive a grande sorte de trabalhar com bandas excelentes. É verdade que não funcionam como a generalidade das pessoas. Por vezes, têm exigências extravagentes e pouco razoáveis. Mas são artistas e eu já espero esses comportamentes, por isso não acho estranho. Com artistas gráficos ou sónicos, tento dar-lhes a melhor possibilidade de exposição. Comigo, o projecto que trazem é aquele que é realizado, sem qualquer espécie de obstáculos ou imposições. Penso que é isso que faz com que as bandas gostem de trabalhar comigo.
Como escolhe as bandas? Continua a ir a concertos, à procura de novos talentos, ou as cassetes/cd's que recebe são suficientes?
Saio o menos possível. São poucas as bandas que vou ver. Se fosse assistir aos concertos de todas as bandas com que trabalho tinha que sair de casa todas as noites. Tenho demasiado trabalho para fazer e muita má televisão para ver. Já para não falar do tal factor anti-social. Quanto ao material que recebo por correio, ouço uma cassete/cd numa proporção de 1/50. Descobri poucas bandas pelo correio. Geralmente ouço as que vêm como oferta de algum produto, tipo incenso, mirra, gomas em forma de ursinho e claro, as que vêm acompanhadas de dinheiro - mas apenas se forem dólares americanos - o que faz sempre com que ouça as bandas que me chegam desse modo.
Olhando para o seu catálogo descobre-se que desencantou bandas, que agora são grandes, como as Hole, Rocket From The Crypt, Supersuckers... O que sente em relação a isso?
Atribuo parte dessas descobertas ao acaso e parte ao meu indescutível gosto e capacidade de prever o futuro. É muito divertido ver uma banda a gatinhar, a desenvolver-se, e, lentamente, a crescer, a fazer parte de algo maior. O sucesso pouco tem a ver com talento. É mais uma questão de sorte e de tempo. Muitas boas bandas continuarão desconhecidas enquanto bandas sofríveis se tornam adoradas e vistas como geniais.
Também lançou projectos especias com Roky Erickson e Ron Asheton. Como surgiram?
Conhecia e admirava o Roky de tempos anteriores à editora. Tinha ido a Austin entrevista-lo e tentei manter-me em contacto com ele. Como grande fã que era, estava realmente interessado em ajuda-lo de qualquer maneira possivel. Ele não ficou rico com os projectos que lancei, mas ficou melhor do que com muitas outras ajudas anteriores. O Ron Asheton conheci-o quando fui visitar a Niagara a Detroit.
Das mais recentes bandas da Sympathy, quais as que podem chegar mais alto? Se os Detroit Cobras não se tivessem separado também chegariam a ser muito conhecidos?
Bem... Todas as bandas com que me envolvo tem grandes possibilidades. Mas, infelizmnete, a generalidadre das bandas com que trabalho não parecem estar destinadas a conseguir singrar. O espaço é pouco e há demasiadas bandas a tentarem conseguir um lugar ao sol. Das que neste momento estão comigo, os White Stripes, Detroit Cobras -que se voltaram a juntar - The Coe Ons e os Sexareenos são as que tem maiores hipóteses de irem mais longe. Isto é injusto para as outras bandas da Sympathy, que também são optimas. Desejo a todas a melhor das sortes.
Editou quase todos os estilos: punk, música electrónica, garage, country, noise, pop, etc. Isso reflete os seus gostos musicais?
Parece-me evidente. Edito aquilo de que gosto e gosto de muitas coisas. Costumo dizer que gosto de quase tudo, excepto hip-hop e hard-core.
Nos dez anos da Sympathy, editou "Sympathetic Majesties Request", com temas dos primeiros 200 lançamentos da editora. Qual foi o critério usado para a essa escolha?
Escolhi temas que fossem importantes para mim. Foi complicado seleccionar 48 canções de 48 bandas que encaixassem umas nas outras. Havia canções que eu queria usar, mas por mais que tentasse não se adaptavam ao projecto. Estou muito orgulhoso desse disco e continuo a ouvi-lo.
Para quando o volume dois, com temas das 100 edições seguintes?
Vou começar a trabalhar no segundo volume em breve, que terá cerca de 48 temas. Vai ser ainda melhor do que o primeiro volume, pois as minhas edições tem melhorado.
Na edição dos dez anos trabalhou com Mark Ryden, a quem encomendou o quadro que serve de suporte à capa. Como lhe surgiu a ideia?
Hmmm... Eu sabia que a capa tinha que ser uma versão da de "Their Satanic Majesties Request", mas não sabia qual o esquema a utilizar. Quando conheci o Mark ficamos amigos e comecei a pensar em encomendar-lhe uma capa para um dos discos da editora. Chegamos à conclusão que "Sympathetic" era o melhor projecto. E o resultado ultrapassou todas as minhas expectativas. O Mark levou seis semanas a pintar o quadro que será sempre um dos pontos mais altos da história da Sympathy.
As suas edições têm sempre excelentes capas. Já trabalhou com artistas como Coop, The Pizz, Niagara, Pablo, Kozik... O seu amor pelo arte reflecte-se na editora?
A editora é a extensão natural do meu amor pela música e pela arte. Pizz e Coop eram meus amigos e ajudaram-me a estabelecer uma imagem. Quando outras editoras começaram a fazer a mesma coisa, afastei-me desse tipo de abordagem. É complicado permanecer sózinho e único, mas continuo a tentar...
Até a maior parte dos anúncios da Sympathy têm excelente grafismos.
A situação é exactamente a mesma. Os anúncios expressam as minhas opções estéticas e o meu desejo de espalhar a minha mensagem de corrupção moral e depravação, através de todos os meios ao meu alcance.
Para algumas bandas existe mesmo um conceito visual, como no caso dos Oblivians com as fotografias de raparigas semi-nuas, como a D'Lana dos filmes de J.M. MaCarthy. É uma fixação das bandas ou uma ideia sua?
Para minha grande fortuna, os Oblivians foram os responsáveis pelas capas desses 10". Sou um grande fã da D'Lana e fiquei encantando com esses fotografias. Não só porque gosto de raparigas nuas, mas também por que as vendas melhoram. Quando lançei "Best Of The Worst", o Jack Oblivian queria usar uma imagem diferente, eu queria continuar com a tradição D'Lana. Assim, o LP tem a capa que o Jack escolheu e eu fiquei com um CD com uma fotografia muito gira da D'Lana.Com algumas bandas usou discos de 5". Com outras 10", formato também pouco comum, excepção feita a algumas editoras.
Tenho que manter elevado o meu nível de interesse. A única maneira de o fazer é estar constantemente a fazer coisas novas. Discos de 10" são, monetáriamente, uma batalha perdida. Continuo a usar esse formato porque gosto muito dele, Acho que tenho 40 edições em 10". Os 5" foram um caso de amor a 100 por cento. Ficam tão caros que acho que só consegui cobrir os custos com os dos Man Or astro Man? e Rocket From The Crypt. Mas estou muito orgulhoso dessa pequena série.
A maior parte das pessoas não sabe, mas editou um livro de Billy Childish e outro da Savage Pencil. Ainda estão disponiveis?
Na verdade, foram dois do Billy e dois da Savage. Ainda estão disponiveis e tenho vários projectos em fase de fabrico.
À parte editar discos, tem outras paixões: arte, gatos, colecionar todo o tipo de coisas.
Que posso dizer? O meu fascínio pela arte e os meus gostos nesse domínio são muito visíveis. Coleccionar coisas é uma das várias neuroses que controlam a minha vida. Quase nada me faz mais feliz do que arrastar para casa uma qualquer porcaria esquesita. Os gatos são muito importantes para mim. São os meus tranquilizantes peludos e mantêm-me ligado à terra. Não são muito exigentes, mas de um modo pouco exigênte, precisam de muita atenção. Presentemente tenho seis gatos, que são, por ordem de entrada na minha vida: Shiver, Gogh, Hiro, Didgit, Sabbath e Drela.
Normalmente encontram-se duas coisas em todas as suas edições:
1 - o slogam "we almost really care"
2 - dois pequenos desenhos que parecem uns pequenos diabos.
Qual é o seu significado?
O slogan "we almost really care", surgiu muito cedo, na minha primeira edição. Gosto da ideia de usar "we" (nós) em vez de eu. Dá a impressão de que a Sympathy é uma coisa muito maior. Penso que "we almost really care" estabeleceu a tradição de irreverência em relação a tudo e a todos em que acabei por me inserir. Desde esse dia tornei-me o sacana dos slogans. Os dois desenhos são moscas. Foram desenhados por Savage Pensil. Foram salvos de uma capa que eu estragei. Comecei a usa-los na minha edição número 23. Têm uma longa história. Aparecem em imensas gravações fantásticas.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 3)
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