Entrevistas
TARA JANE O'NEIL
MUSIC ON CANVAS
Rodan, Retsin, Sonora Pine, King Cobra… Estas são apenas algumas das muitas encarnações da multi-instrumentista, multi-colaboradora e multi-géneros Tara Jane O’Neil. Isto quando não se manifesta a solo, como é o caso que nos traz aqui. Por ocasião da edição do seu mais recente disco, “You Sound, Reflect”, oficialmente o terceiro em nome próprio, a Mondo Bizarre dissecou um pouco desta história da música-pintora. Para ler e ouvir num canto recatado.

TARA JANE O’NEIL

Em Lousiville surgiu um som característico e representativo de uma nova visão sobre as raízes da country americana, um pouco antes do que emergiu em Nashville. Fale-nos um pouco de Lousiville e da sua participação nesse “movimento”.
Na altura não tínhamos a noção de que era um movimento. Éramos apenas um grupo de amigos a fazer música e a fazer passar o tempo. A maioria tocava em mais do que uma banda. Olhando para trás, eu não concordo que existisse um estilo ou um som definido em Louisville. Havia tantas bandas que tocavam estilos de música completamente diferentes. Muitos dos quais nunca sequer foram ouvidos fora de Louisville. Não era um movimento organizado, até porque na altura não havia outra escolha: ou fazíamos música ou ficávamos malucos. Ou ambas as coisas. Foi apenas sorte que um grupo de miúdos chateados com a vida e enfiados em garagens tenham conseguido fazer música tão boa.

Como foi começar a tocar nos Rodan? E fazer parte de “Rusty”, um dos discos mais importantes do rock alternativo americano do início da década de 90, a par de “Spiderland” dos Slint?
Eu era muito nova, ainda andava no liceu. E deixei o liceu para tocar música. Como já disse, não havia um movimento nem algo de concreto a que me pudesse agarrar. Na altura estava a tocar com algumas bandas, uma das quais se chamava Drinking Woman. Mas foi de facto um período muito excitante. Fazer coisas em público pela primeira vez e conhecer pessoas interessantes dentro e fora da minha cidade. Até 1991, eu toquei praticamente sempre sozinha, ou em jams com outros músicos. A forma como os Rodan e o disco foram recebidos surpreendeu-me muito. Foi um período muito quente musicalmente. Apesar de não haver tantas editoras, bandas e salas como hoje, havia muita gente nova preparada para ser motivada.

Como é que operou a mudança do rock pesado dos Rodan para as suas estranhas baladas country-folk a solo?
Antes de tocar rock mais pesado, eu já tocava música mais suave. Aliás, foi assim que comecei. Tudo tem o seu tempo e o seu lugar. E quando me pareceu oportuno, foquei-me nesta vertente mais calma. Mas sempre estive envolvida numa combinação de projectos musicais. Não me sentia satisfeita só a tocar música pesada ou mais frágil. Por isso, eu não vejo as coisas no sentido de que me mudei de um lado para o outro. Eu tanto ter o mesmo tempo para os vários géneros de música que me motivam a tocar. É interessante… nunca me tinham dito que eu toco estranhas baladas country-folk.

A sua pintura iguala a beleza despojada da sua música. É de propósito?
Já me disseram que eu sou subtil no meu trabalho e eu até concordo. Prefiro essa noção é noção de despojamento. O espaço que uso na minha música e na minha arte visual não é despojado. É cheia de espaço.

Quais são os seus mestres na pintura?
Gosto de Goya e Picasso. Mais do que pintores individuais, ou até obras em particular, eu gosto é da sincronia que emerge de um lugar ou de um grupo de pessoas: artistas de rua, print masters japoneses, artistas folk, propaganda, seja política ou artística…

Ouvi dizer que o seu primeiro disco, “Peregrine” foi gravado numa banheira. É verdade?
Algumas das músicas desse disco foram de facto gravadas dentro de uma banheira que estava na cozinha do meu apartamento em Nova Iorque.

Porque é que as Retsin acabaram?
As Retsin acabaram a sua senda. Fizemos muitos discos e experimentámos coisas diferentes. Estivemos juntas durante muitos anos até ao ponto em que necessitámos de seguir em frente.

Depois de Rodan, Sonora Pine, King Cobra e Retsin, projectos já terminados, e depois de Tara Jane O’Neil a solo, vai regressar ao formato banda?
Eu toco em muitas bandas diferentes, mas normalmente faço-o mais a nível local. E costumo tocar ao vivo com banda. Nunca faço um concerto totalmente a solo. É diferente de uma banda em que todos colaboram, mas o formato banda existe na minha vida. E também faço muitos espectáculos improvisados com ensembles de músicos. É um tipo de banda que me agrada bastante. Normalmente são coisas que só acontecem uma noite e que só existem durante esse período de tempo. Neste momento, estou envolvida em duas ou três bandas que vão ser apresentadas brevemente. Uma mais virada para a country, outra de carácter mais frequente e estruturado e baseada na improvisação, e outra ainda com a Christina Files e a Sara Lund que é rock mais pesado.

Qual é a música que mais a entusiasma hoje em dia? O que é que anda a ouvir?
A música que mais me tem entusiasmado nos últimos anos é a música gamelan do Bali (um género sobretudo baseado em percussão). É a música mais excitante que alguma vez ouvi. E oiço também muita música dos anos 60 e 70, mas essa acho que sempre ouvi. Os discos que mais recentemente passaram pela minha aparelhagem foram: Judee Sill, The Pentangle, The Band, The Raincoats, Comus e Deerhoof.

Ouvi dizer que ultimamente tem explorado a música electrónica. Já editou alguma coisa?
O meu disco “TJOTKO” foi todo gravado com guitarra e sampler. E também fiz um CD de música electrónica com a minha companheira de banda Kristina Davies.

Tem planos para uma digressão europeia? E Portugal?
Fiz uma digressão pela Europa em Novembro do ano passado. Mas gostava de regressar a Espanha e passar por Portugal este ano. Tenho esperança que tal possa acontecer, porque eu gosto muito de ir à Península Ibérica.

YOU SOUND, REFLECT

A sua música tem uma qualidade inebriante. Provoca tonturas, mas faz-nos sempre voltar à procura de mais. Será porque apesar da beleza que resulta dos seus discos, fica sempre uma sensação de vazio no fim, como se o trabalho não estivesse completo?
Os discos são como que instantâneos de música vivida. Eu não costumo tocar uma música da mesma maneira duas vezes. Seja porque os músicos, ou os arranjos, são diferentes. Ou então porque a música acaba de outra maneira. Eu não faço música pop e nem sequer acho que a música pop tenha de ser transparente e arrumada num pacote fechado. Não é muito mais interessante quando algumas questões ficam por responder? Ou quando a música levanta novas questões? As minhas canções preferidas dos Beach Boys, de “Pet Sounds” e álbuns seguintes, acabam todas em fade out, o que pode ser visto como incompleto. Os discos que faço estão completos para mim quando os acabo. Uma das coisas que me faz ouvir um determinado disco durante muitos anos é o facto de estar sempre a descobrir coisas novas neles. Quando escrevo uma canção não é uma verdade, mas um momento, ou uma colecção de momentos, que uns anos mais tarde pode não conter a mesma verdade. Se eu desse a resposta a todas as questões que os meus discos podem levantar não tinha graça nenhuma. Eu vivi com um poeta e aprendi muito sobre poesia. Por exemplo, a poesia, tal como a música, existe em diferentes mundos e para diferentes pessoas. Eu tenho uma experiência mutante com as canções de que gosto e a sua experiência é naturalmente diferente da minha. O que é fantástico.

Ouvi dizer que editou uma colecção de raridades (“Bones”) ao mesmo tempo que “You Sound, Reflect”.
Fui contactada por uma editora australiana para fazer algo para eles. Dei-lhes um conjunto de obscuridades e de trabalhos em progresso que resultou numa edição limitada chamada “Bones”. O objectivo era proporcionar uma espécie de diário musical sobre como a minha música é feita. Mas também o fiz porque gostava mesmo de ir à Austrália, o que não chegou a acontecer.

“You Sound, Reflect” parece maior, isto é, mais repleto de sonoridades, do que os seus discos anteriores. Significa isso que está a crescer?
Ainda não comecei a encolher, mas sem dúvida que estou a envelhecer. Mas na minha opinião este disco tem menos sons que os dois anteriores. Talvez eu tenha aprendido a usar menos de uma forma mais clara.

Neste disco parece mais focada na escrita. Será porque ultimamente tem trabalhado bastante com songwriters?
Eu sempre toquei com songwriters e sempre gostei de ouvir songwriters. Há uma banda chamada The Naysayer com a qual toquei, e também os K, que são songwriters secretos. E há ainda Liarbird e muitos outros. Tenho centenas de discos de songwriters. Mas com “You Sound, Reflect” procurei de facto fazer um disco baseado em estruturas de cordas e arranjos mais simples. É algo que eu já não fazia há algum tempo.

"Howl" e "The Poisoned Mine" são duas das suas mais belas canções de sempre, onde a sua voz está mais perceptível do que é costume. Tem a necessidade de misturar a sua voz no meio da música?
Eu sou da opinião que a voz é um instrumento como outro qualquer, e por isso tenho a tendência de inserir a voz no meio da música. Talvez algumas das vozes deste disco tenham sido misturadas mais alto do que é costume, porque era isso que o contexto lírico estava a pedir.

"The Poisoned Mine" tem um certo sabor a Nico. É fã dela?
De facto sou, apesar de não sentir a Nico nessa canção. Mas vou aceitar essa observação como um elogio.

Para terminar, o que se segue?
Tenho uma digressão no Japão em Maio. Vou editar um EP baseado em diferentes manifestações de uma canção de “You Sound, Reflect”, que vai incluir três vídeos, um dos quais é uma improvisação ao vivo com um dançarino. Vai haver ainda um EP de TJO no Outono. Vou começar a tocar com uma banda de rock pesado e com a minha banda country – The Four Roses – no Verão. Vou editar um disco com a música instrumental que fiz para bandas sonoras até à data. E vou tentar ficar em casa mais tempo, o que parece difícil com este programa.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre - Maio 2005)