THE HIVES
A VITÓRIA DO PRETO E BRANCO
Com "Your New Favourite Band", uma compilação lançada o ano passado em Inglaterra os suecos The Hives tornaram-se num fenómeno de vendas por aquelas paragens. E também num grupo que despertou a curiosidade de alguns habitantes de Londres ao ponto de verem um dos seus temas servir como fundo sonoro de um sofisticado e erótico anúncio de lingerie com Kylie Minogue como protagonista. Howlin' Pelle Alqvist, o vocalista dos Hives, presume-se que numa impecável fatiota bicolor, respondeu, a partir de um hotel londrino, com toda a correcção própria dos nórdicos às nossas perguntas.
Fale-me dessa estória em que, em 1993, cada dos membros dos Hives recebeu uma carta com um local e uma hora onde comparecer...
Bem, a carta dizia que nos deveriamos reunir em determinado sítio, a uma dada hora, para formar uma banda. Foi o que fizemos. Formamos a banda e algum tempo depois começamos a pensar em continuar pois tinhamos começado a ensaiar com regularidade e estavamos a gostar do que tocavámos. Passamos os cinco anos seguintes a ensaiar até acharmos que eramos suficientemente bons para editar um disco. Assim, ao fim desse tempo todo, lançamos o nosso primeiro álbum.
E quanto aos vosso nomes, Vigilante Carlstroem, Nicholas Arson, Dr. Matt Destruction, Howlin' Pelle Almqvist, Chris Dangererous?
Estão connosco desde o início e decidimos mantê-los. Tornaram-se uma parte importante de nós e não queremos abdicar deles.
Há algum significado especial nos nomes? Faz-vos sentir como personagens? Como rock stars?
Sim tem um significado. É que, para fazermos o que nos tinhamos proposto, os nossos nomes normais não serviam. Mas não nos sentimos outras pessoas nem agimos como terceiros. É difícil de explicar.
Musicalmente, há uma grande diferença entre "Barely Legal" e "Vini Vici Vicious".
Fazemos música desde os 16 anos e "Barely Legal" foi editado quando eramos pouco mais do que adolescentes. O "Veni Vidi Vicious" é um disco recente. O modo como evoluímos é uma das razões porque os dois discos são tão diferentes. Na época do "Barely Legal" contentavamo-nos em subir o som e tocar o mais rápido que sabíamos mas em "Veni Vici Vicious" houve outras coisas que quisemos experimentar.
A música que ouviam, em cada uma dessas épocas, também contribuiu para a mudança do som dos Hives?
Provávelmente sim. Ao tempo de "Barely Legal" andavamos a ouvir punk rock. Mais tarde ouviamos música soul antiga, rock'n'roll e garage rock. Assim sendo, é natural que "Veni Vici Vicious" tenha uma abordagem sonora diferente.
A Burning Heart tende a "fazer acontecer" uma banda primeiro na Suécia e depois fora do país. Qual é a sua posição em relação a isso? Esse modo de operar foi benéfico para os Hives?
Na verdade, o modo deles trabalharem é o seguinte: editam os discos na Europa e esperam para ver se alguém gosta deles. Na Suécia não fazem grande trabalho. Limitam-se a lançar os discos e a ver se alguém os compra. Na Burning Heart, ao editarmos um disco, podemos gastar algum dinheiro com ele e se o disco cobrir os seus próprios custos, então pode-se editar um segundo. Este método é bom para as bandas evoluirem pois podem fazer o que querem a baixo custo. É claro que também se pode gastar muito dinheiro mas depois é difícil vender os discos necessários para pagar os custos.
Como é que Alan McGee (antigo dono da Creation, a casa mãe dos Oasis e Primal Scream e actual proprietário da Poptones) se interessou pelos Hives?
Ele viu um dos nosso videos na televisão de um quarto de hotel. Então, telefonou para o seu escritório e disse: "têm que ir à Suécia e descobrir esta banda". Na altura dissemos-lhe que não tinhamos material novo para editar e ele disse que, então, ia editar uma compilação. Foi assim que apareceu o "Your New Favourite Band".
A Poptones foi a grande responsável por terem chegado até aqui?
Não sei se conseguiriamos tudo isto sem a Poptones. Eles tiveram realmente boa parte de responsabilidade no sucedido pois conseguem mexer-se muito melhor em Inglaterra do que a Epitaph Europa.
E quanto a "Your New Favourite Band" ter obtido a marca de disco de ouro em Inglaterra? De quantos discos é que estamos a falar?
De 100 mil discos.
O que sente por terem atingido semelhantes vendas num mercado tão duro?
Não me preocupo muito em atingir marcas. Apenas fazemos discos e esperamos que alguém se interesse por eles. Se se for suficientemente bom chega-se lá. Claro que estou contente por vender 100 mi discos. Mas parece-me um pouco despropositado. Não ando por aí a dizer a mim próprio: "vendemos 100 mil discos e sou uma rock star". Na verdade significa que 100 mil pessoas compraram o disco. Quando vendemos dois mil discos o que pensei foi que havia 1800 pessoas que eu não conhecia. Agora são muitas mais. Quando se passa dos dois mil discos começam a ser demasiadas pessoas.
Já é reconhecido na rua?
Sim. Acontece aparecerem pessoas que não conheço a dizer: "és o tipo dos Hives, não és?" É uma coisa frequente mas acho giro e digo-lhes "olá". O mais das vezes apenas te querem cumprimentar. Feito isso vão-se embora.
Mas gosta de ser famoso?
Por vezes é bom pois significa que fizemos uma coisa de que as pessoas gostam. Por outro lado pode ser complicado. Andar incognito é sempre bom. De qualquer modo eu não sou o Michael Jackson nem nada que se pareça. (risos)
"Veni Vici Vicious" foi editado em 2000 e no ano seguinte lançaram "Your New favourite Band" em Inglaterra e as coisas começaram a acontecer. Vê alguma razão para o álbum de originais não ter chamado tanto atenção como a compilação?
O álbum chamou a atenção das pessoas mas não no Reino Unido. A razão é que "Veni Vidi Vicious" era da Epitaph Europe e eles são 15 pessoas a trabalhar para a Europa toda. O "Your New Favourite Band" é da Poptones que tem as mesmas15 pessoas, só que estas apenas trabalham para o Reino Unido. Ou seja, conseguem fazer mais.
E quanto aos Estados Unidos?
A Epitaph editou lá o nosso disco mas não foram capazes de fazer grande coisa. Acabámos por lá ir tocar mas ninguém sabia nada sobre a banda. Agora que o disco se tornou grande em Inglaterra estão deseperados por nos terem lá.
Em geral, as bandas costumam dizer que é muito importante triunfar na América...
Nós só queremos is para a América divertir-nos. (risos)
Como vê este interesse repentino dos britânicos pelo rock'n'roll? Até há pouco tempo não pareciam nada interessados no género...
Provavelmente fartaram-se de toda a música que lá tinham. (risos)
Os Hives, tal como muitas outras bandas suecas, cantam em inglês. Isso não parece ser um problema para vocês...
Se cantássemos em sueco seria mais fácil na Suécia mas muito mais complicado em qualquer outro lado. E não tenho a certeza de que vendessemos mais discos lá por isso. Os suecos vêm muita televisão e cinema americano e inglês, e o inglês é a sua segunda língua. Além de que, na Suécia, ninguém se importa com a língua em que cantas.
As canções dos Hives são simples, directas e cheias de força. Alguma vez pensaram em fazer algo mais complexo?
Pensar pensamos. Mas achamos que não fazia sentido. Muitas vezes, fazer-se música complexa tem que ver com a vontade que as pessoas têm de se exibirem.
Acha que se escondem por detrás da complexidade?
Sim. É muito mais difícil escrever uma canção simples. Se a canção tiver apenas duas partes têm que ser duas partes muito boas. Se tiver muitas partes é possível ter umas menos boas do que as outras.
E quanto às roupas iguais. No início não andavam todos de igual...
Sempre usamos roupas pretas e brancas. Mas só começamos a usar roupas iguais quando começamos a ter dinheiro para as compar.
E porquê o preto e branco?
Acho que a combinação preto/branco fica bonita. É elegante e, como banda, precisavamos de ter uma identificação. Mesmo que nos vejam nas mais diversas situações, se virem que estamos vestidos de preto e branco saberão que são os Hives, pois os Hives vestem-se de preto e branco.
Tem algum estilista que vos desenhe as roupas?
Não. Somos nós que as desenhamos. Ou então mudamos a roupa pré-existente.
Fale-me um pouco do anúncio da Agent Provocateur (uma elegante loja de lingerie londrina) com a Kylie Minogue como protagonista e a banda sonora dos Hives.
A ideia partiu deles. Queriam a canção no anúncio e pagaram-nos muito dinheiro por isso, o que calhou bem pois na altura estávamos a precisar. O arranjo foi feito através da Poptones e a ideia era o anúncio ser exibido nos cinemas britânicos durante duas semanas. Agora pode ver-se na internet e tornou-se numa coisa muito popular.
Gosta do anúncio? Identifica-se com a ideia?
Gosto mas não me identifico. Acho esquisito ter uma música nossa num anúncio daqueles.
O palco parece ser o ambiente naturar do Hives. Há quanto tempo andam em digressão?
Recentemente há apenas três semanas. Mas já andamos a promover o "Veni Vici Vicous" há um ano e meio.
É muito tempo. Não tem saudades de casa? Não é uma vida cansativa?
De vez em quando vamos a casa durante um par de semanas. Pode tornar-se cansativo mas quando isso acontece vamos para casa e dormimos durante uma semana e estamos prontos para continuar. Quando formos velhos vamos ter muito tempo para descansar.
E nunca se farta?
Claro que me farto mas por ora não quero saber disso. Quando estiver realmente cheio retiro-me e talvez continue trabalhar com música. Ainda que a ideia fosse tornar-me médico o que me obrigaria a ir estudar medicina pois apenas fiz alguns estudos de psicologia.
A psicologia é útil numa banda de rock?
É. Evita que eu discuta muito com os outros membros da banda. (risos)
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 10)
| | |