THRILL JOCKEY
Música no Coração
A Mondo Bizarre teve o prazer de conversar com Bettina Richards, a mentora de uma das editoras alternativas melhor sucedidas da actualidade - a Thrill Jockey de Chicago. O motivo não podia ser melhor: a celebração do 10º aniversário da editora e a tourné europeia “Looking for a Thrill, que vai trazer a Lisboa, nos dias 16 e 17 de Setembro, bandas como Tortoise, The Sea and Cake, Bobby Conn, Radian, Chicago Underground Duo, Trans Am e Eleventh Dream Day. Uma entrevista onde Bettina demonstra que o sucesso só é possível porque a Thrill Jockey é uma editora com espírito comunitário, que trata os músicos como artistas.
NO INÍCIO
Como é que tudo começou?
A Thrill Jockey foi criada em 1992, em Nova Iorque. Até então, eu tinha trabalhado durante alguns anos na London Records e na Atlantic Records. Experiência que não correu de acordo com as minhas expectativas. Apesar de, na minha opinião, grandes editoras e estruturas corporativas serem ferramentas excelentes para certas formas de aproximação à música, elas eram demasiado inflexíveis para a música que me interessava. Para além de terem um esquema muito dispendioso. Acima de tudo, não me agradava a relação fundamentalista entre a companhia e os artistas, em que a estrutura diz que é o artista que serve a corporação. Isso para mim nunca fez sentido.
Pode-se dizer que a sua mudança para Chicago foi o impulso fundador?
A verdade é que só me mudei para Chicago alguns anos depois de ter começado a Thrill Jockey. E mudei-me não só porque Nova Iorque era uma cidade muito cara para gerir uma editora, mas também porque muitos dos artistas com quem trabalhava eram de Chicago. A certa altura pareceu-me mais fácil, interessante e até divertido trabalhar perto deles.
Ouvi dizer foi buscar o nome Thrill Jockey a um gang de um filme série B. Qual foi a razão? Simplesmente porque gostou do nome, ou porque quis transpor esse espírito de filme série B para o mundo da música?
Simplesmente porque gostei do nome: cavalgar a emoção! O filme chamava-se “Speed Crazy” e na altura eu estava a estagiar na Telstar Records, a ajudar o Todd e os Mummies - eles eram completamente passados! Cheguei a conduzir a famosa Mummy Van! [Nota: a Mummy Van era uma ambulância que os Mummies, banda de garagem, usavam nas digressões] O Todd tinha uma colecção impressionante de filmes dos anos 50 sobre delinquentes juvenis. Neste filme em concreto gostei da noção de cavalgar a emoção, mas nunca pensei que fosse um bom nome comercial, nem nunca me passou pela cabeça vir a dizê-lo todos os dias. Hoje posso dizer que continuo a gostar do nome.
Qual foi a banda que a fez lançar a Thrill Jockey? Talvez os Eleventh Dream Day, que praticamente saíram da Atlantic Records consigo?
Sim, pode-se dizer que os Eleventh Dream Day me abriram as portas de Chicago. Foi por causa deles que me apaixonei pela cidade e foi através deles que conheci muitos dos músicos com quem trabalho.
Qual foi a banda, ou álbum, que primeiro trouxe algum reconhecimento à Thrill Jockey?
Apesar de muitas pessoas pensarem que foram os Tortoise, não é verdade. Foram os Freakwater e os Gaunt. O 10” “Whitey the Man” dos Gaunt esgotou numa semana. Quanto aos grandiosos Freakwater, continuam em grande com um novo álbum previsto para 2003. E a Catherine Irwin vai lançar o seu primeiro álbum a solo ainda este ano, enquanto que a Janet Beveridge Bean vai acrescentar o disco “Concertina Wire Album” aos seus já inúmeros registos musicais também em 2003. De qualquer modo, tenho de reconhecer que o primeiro disco dos Tortoise abriu muitas mais portas à editora, e o segundo então decuplicou as nossas audiências.
Que outras editoras a inspiraram na criação da Thrill Jockey?
A Touch and Go e a Dischord definitivamente, por serem editoras baseadas no respeito e na igualdade. Adoptei a mesma política de partilha de lucros de 50 por cento com os músicos, e tentei fazer da Thrill Jockey uma verdadeira organização de Artistas Unidos: flexível, atenciosa e profissional. Tentamos sempre fazer o melhor que sabemos na promoção e venda de discos, por forma a garantir um apoio sólido e o melhor retorno monetário possível aos artistas, dentro dos respectivos domínios musicais. Para além da Touch and Go e da Dischord há ainda a Drag City, cujo director - Dan Koretsky - é uma excelente fonte de conselhos. A que não é alheio o facto de sermos bons amigos.
O NEGÓCIO
Hoje em dia vive somente das receitas da editora, ou continua a ter profissões paralelas?
Trabalhei como empregada de bar durante 9 ou 10 anos e só comecei a receber algum dinheiro da Thrill Jockey por volta do quinto ano de actividade. Até à data tenho sido um dos "thrillers" que menos recebe. Em Janeiro último deixei de trabalhar como empregada de bar, pelo que actualmente vivo somente da Thrill Jockey, o que me deixa muito feliz. Não diria que fracassei se voltasse a ter um segundo trabalho, porque se fosse necessário dar mais liquidez à editora não tinha problema em fazê-lo outra vez. Só que se torna muito cansativo.
Como é que funciona o negócio em termos de contratos com as bandas, edição e promoção, isto é, em termos de logística?
A editora só tem um tipo de contrato, e existem tantos contratos escritos e assinados como contratos meramente baseados num aperto de mão. O objectivo exclusivo da Thrill Jockey é servir os interesses e necessidades dos artistas. Monetariamente, pago aos músicos 50 por cento dos lucros. E como a editora absorve alguns dos custos da distribuição, eles acabam por receber mais do que a editora. Mas a estrutura de partilha de lucros também protege a editora nas edições com vendas mais modestas. Quanto às obrigações dos músicos, só há uma: eles só têm de editar um disco de cada vez. Se editam mais do que um é simplesmente porque assim o desejam. Da parte da editora, gastamos todo o tempo e energia na tentativa de dar a máxima exposição aos nossos artistas, seja através de concertos, críticas aos discos, ou entrevistas como esta...
O ponto fulcral está na distribuição?
A distribuição é de facto muito importante, e na Thrill Jockey valorizamos muito os distribuidores mais entusiastas, que conseguem trabalhar com a vasta variedade musical que os nossos discos cobrem. Por exemplo, a imaginação e capacidade de distribuidores como a Ananana [Nota: distribuidora da Thrill Jockey em Portugal] é uma parte essencial do nosso sucesso. Quanto ao mercado americano, desde o início que quis que a Thrill Jockey fosse distribuída pela Touch and Go, não só porque estamos na mesma cidade, mas acima de tudo porque é uma editora que continuo a admirar, e que até à data tem sido tem sido um parceiro flexível e criativo.
O suposto estatuto alternativo assusta-a de algum modo? Isto no sentido de que a pressão do mercado aumenta?
Não perco muito tempo a pensar sobre aquilo que as pessoas percepcionam que a Thrill Jockey é. Gosto de pensar que somos uma editora simples, que edita música inovadora. E que há um núcleo constante de fãs que estão sempre interessados naquilo que temos para lhes oferecer. O nosso desafio é descobrir esses fãs e dar-lhes a conhecer aquilo que podemos oferecer aos seus ouvidos perspicazes.
Porque será que o conceito “indie” está normalmente associado a vendas mais baixas?
Eu não penso assim. Para mim, indie é simplesmente um diminutivo do trabalho independente e não um termo musical. Descreve a posse ou a atitude de editoras e distribuidores. Existe um grupo diversificado de editoras independentes que distribui uma enorme variedade de música.
Quais são as bandas da à Thrill Jockey que mais vendem?
Sem nenhuma ordem específica, eu diria Tortoise, The Sea and Cake, Trans Am, Giant Sand, Mouse on Mars, Freakwater e Nobukazu Takemura. Mas sem esquecer que artistas como Fred Anderson, Chicago Undergroun Duo e Town and Country vendem um número extraordinariamente elevado de discos, se considerarmos que se lhes abrem menos portas em termos de exposição do que às bandas referidas atrás - estou a falar de revistas, estações de rádio e tournés. Em relação por exemplo aos Tortoise, sendo uma banda instrumental, as suas vendas são mais do que impressionantes, o que testemunha acima de tudo a inovação deles.
Pode-se dizer que o sucesso financeiro da Thrill Jockey se deve à eficiente adopção de uma economia de escala? Isto é, ao equilíbrio certo entre as vendas previsíveis e o empenho que é necessário empregar em cada disco, sem embarcar em devaneios?
Com certeza. Somos muito cuidadosos na forma como gastamos dinheiro, e tentamos canalizá-lo para as áreas que mais poderão ajudar os músicos, sempre de acordo com aquilo que eles próprios acham mais importante.
Há algum investimento na Thrill Jockey por parte das bandas, ou o dinheiro vem todo da editora?
Geralmente, a Thrill Jockey paga todos os custos associados com os discos. No entanto, os The National Trust investiram consideravelmente no disco que editaram connosco. E artistas como Trans Am, Oval, Nobukazu Takemura, Sue Garner e The Nerves têm os seus próprios estúdios, o que permite alargar o âmbito do investimento da editora. Para não mencionar o investimento que eles, e nós, contribuímos em termos de tempo. Ninguém recebe mais do que deve.
Para si, qual é a diferença entre uma major e uma editora independente?
Essa é uma comparação que não me preocupa muito. Mas já que pergunta, eu diria que uma major é uma grande corporação, atrapalhada muitas vezes pela sua própria estrutura. E pela envergadura que tem, está muitas vezes desligada dos seus próprios artistas. De qualquer modo, tem recursos para investir que claramente faltam às editoras independentes. Já a maioria destas editoras tem uma relação próxima com os seus artistas e são muito flexíveis, frugais e (espero que sim) mais atenciosas.
Quantas edições conta a Thrill Jockey nestes 10 anos de actividade?
Bem, em Setembro vamos editar o nosso primeiro disco do John Parish, que tem o número de série Thrill 110. O disco dos Radian é o Thrill 113. O número de catálogo mais recente é o 119, correspondente à edição da Catherine Irwin em Outubro.
AS BANDAS
Dentro da Thrill Jockey, qual é a sua banda preferida? Para facilitar a resposta, quais são as sonoridades que mais lhe agradam nas edições da Thrill Jockey?
Eu gosto de todos os discos que edito na Thrill Jockey por muitas razões diferentes. Posso ser a única pessoa no mundo a fazer uma afirmação destas, mas é verdade. Na maior parte dos casos pelo mérito musical das bandas, e noutros casos simplesmente pela energia demonstrada, ou por um determinado momento particularmente bem conseguido.
Como é que reage ao facto de alguma imprensa ter ligado a Thrill Jockey ao conceito “pós-rock”, apesar da editora promover estilos musicais tão diversos? O conceito diz-lhe alguma coisa?
Esse conceito nasceu num artigo do Simon Reynolds na Village Voice. Foi o termo vago que ele encontrou para descrever um grupo de artistas divergentes musicalmente, mas em cuja aproximação à música ele viu uma linha comum. Parece-me que nesse artigo em particular o conceito fez sentido. Mas utilizá-lo para descrever música já deixa de fazer sentido para mim. Recentemente ouvi alguém ligar bandas como Trans Am, The Sea and Cake, Tortoise e Radian a esse conceito, o que não me parece nada correcto. Quanto mais não seja porque essas bandas têm muito pouco em comum.
Pode-se dizer que Tortoise, Trans Am e The Sea and Cake são as bandas mais famosas da Thrill Jockey hoje em dia, sem demérito para todas as outras?
Se quiser... Mas o que dizer então dos Oval, do Takemura, dos Gaunt, do Chicago Underground Duo, dos Giant Sand, dos Freakwater, do Bobby Conn? Seria mais correcto dizer que essas três estão de facto entre as mais conhecidas.
Como é que essas três bandas chegaram à Thrill Jockey?
Quanto aos Tortoise, o Doug McCombs - de quem fiquei amiga desde os tempos em que trabalhei para ele nos Eleventh Dream Day - telefonou-me em Nova Iorque a perguntar se eu estava interessada em editar um 7” da sua nova banda, que na altura se chamava Mosquito. Mas isso é outra história... Eu não hesitei e disse que sim. Foi um single editado a meias com a editora do David Sims dos Jesus Lizard. Já The Sea and Cake chegaram através do John McEntire. Ele deu-me uma cópia do primeiro álbum deles, que estava prestes a ser editado no Reino Unido através da Rough Trade. Na altura, eu pensava que ele queria ajuda para encontrar uma editora, mas não. Ele queria que a edição fosse da Thrill Jockey. Como deve calcular fiquei radiante. Os Trans Am têm uma história diferente. O John McEntire gravou um 7” com os Trans Am de um lado e com outra banda qualquer do outro. O disco de facto agradou-me, mas quando eles vieram tocar a Chicago foi amor à primeira vista. E dei por mim a pedir encarecidamente que me deixassem editar um disco deles. Hoje em dia, os Trans Am têm um estúdio próprio, o National Recording Studio, e até já editam discos. Por falar na forma como as bandas chegaram à Thrill Jockey, deixe-me que lhe conte uma curiosidade: os Giant Sand foram uma das primeiras bandas a quem pedi para editar e foram a que mais tempo demorou a aceitar.
Já agora, como é que descobriu o Bobby Conn?
Eu já gostava muito do trabalho dele na banda anterior, os Conducent, apesar de nunca os ter visto ao vivo. Tenho seguido atentamente o Bobby desde a primeira vez que o vi. É um verdadeiro entertainer, com temas e arranjos de rock and roll que são autênticos épicos! Quando ele andava à procura de um novo acordo editorial, eu propus-lhe um. Como ele sabia que eu era fã e como já conhecia a Thrill Jockey, chegámos rapidamente a um entendimento.
Na Thrill Jockey são raros os casos de bandas que se tenham mudado para as multinacionais. Que eu saiba só aconteceu com os Gaunt.
A Warner fez uma oferta financeira muito apelativa aos Gaunt, que lhes comprou casas em Ohio. Não tenho qualquer tipo de ressentimento, porque eles fizeram uma opção calculada, com conhecimento dos custos que isso implicaria. Musicalmente foi o fim dos Gaunt, porque a editora nunca os percebeu e obrigou-os a gravar o mesmo disco três vezes. A verdade é que a ligação dos Gaunt à Warner acabou já há alguns anos. Infelizmente, o Jerry Wick foi atropelado por um condutor embriagado enquanto andava de bicicleta e morreu. E o condutor nem sequer foi preso. Foi um final muito triste.
Bandas como os Tortoise e os Trans Am já foram tentadas?
Muitos dos artistas da Thrill Jockey já foram contactados por multinacionais, mas pelos vistos as ofertas não lhes interessaram porque ainda estão por cá. Até temos bandas como os Giant Sand e os Mouse on Mars que saíram de grandes editoras para se juntaram à Thrill Jockey.
CHICAGO
Pode-se dizer que a Thrill Jockey é uma das principais almas da cena musical de Chicago?
Pode-se dizer que essa é a sua opinião. Eu acho que a par de muitas outras editoras como a Drag City, a All Natural Inc, a Okka Disc, a Hefty e a Overcoat, e a par de distribuidoras como a Touch and Go e a Carrot Top, fazemos todos partes de uma vasta e sólida rede que suporta a extremamente vibrante e diversificada cena musical de Chicago.
Como é que explica esta magia da cidade que já vem de há muitos anos?
Parece-me que a magia está na combinação de uma forte interligação entre editoras/ distribuidores e uma cidade na qual o custo de vida é suportável. Esta é uma verdade com muitos anos. Chicago sempre teve mais clubes de jazz que Nova Iorque - apesar de não serem tão conhecidos - que deram trabalho a muitos músicos. Chicago foi a casa de muitas editoras e clubes de soul e continua a apoiar solidamente muitos géneros diferentes de música.
O Lounge Ax era uma sala de espectáculos muito venerada em Chicago por algumas das bandas da Thrill Jockey. Porque é que fechou?
O Louge Ax era de facto uma boa sala, com programadores atenciosos. Fechou porque o edifício que eles ocupavam foi vendido. Ouvi dizer que tinham planos para reabrir o Louge Ax noutro local, mas não estou a par dos pormenores.
LOOKING FOR A THRILL
O que é que podemos esperar da tourné “Looking for a Thrill” que vai passar por Lisboa?
Música de qualidade e muita diversão! Agora a sério: para além de uma combinação de artistas que muito provavelmente não voltarão a ser vistos juntos nos próximos tempos, vai ser possível visionar de partes de um filme que estamos a produzir e que muito apropriadamente se chama “Looking for a Thrill”.
Fale-me um pouco mais sobre esse filme. Já vi algumas partes e o conceito pareceu-me estimulante.
Antes de mais, o filme não tem nada a ver com a Thrill Jockey, apesar do título. Fala sobre inspiração musical. É um documentário realizado pelo Braden King, cuja ideia surgiu quando eu estava a pensar naquilo que poderia fazer para celebrar o 10º aniversário da Thrill Jockey. Queria fazer algo que não fosse uma compilação. Algo que mencionasse o tema mais abrangente da independência e do espírito independente de muitos músicos. Talvez para explicar por que é que uma pessoa como eu faz aquilo que faz. Chegámos então à conclusão que seria interessante fazer um filme em DVD que fosse uma colectânea de entrevistas a músicos, nas quais eles falassem sobre o momento musical que os levou a tornarem-se músicos. Pelo que as entrevistas se baseiam numa simples proposição: “Fale sobre um momento musical, seja um disco, um concerto ou qualquer outra situação, que o tenha verdadeiramente inspirado”. O resultado é uma surpreendente colecção de respostas a uma premissa muito simples. Confesso que são estas as experiências que me fazem perseverar e que explicam porque é que a maioria das pessoas que eu conheço que dedicam a vida à música conseguem continuar, apesar do trabalho árduo e da escassez de dinheiro. Tenho esperança que uma colecção de histórias como estas seja uma fonte de inspiração para muitos mais músicos. Além da maioria dos artistas da Thrill Jockey, o DVD tem entrevistas com Thurston Moore, Mark Arm, Jon Spencer, Yo La Tengo, Tom Zé, Bjork, Fred Anderson, Von Freeman, Hamid Drake, entre muitos outros.
HOJE EM DIA
Consegue descrever a diferença entre a sede actual da Thrill Jockey e a sede de há 10 anos atrás?
Bem, há 10 anos a sede era no quarto do meu apartamento e eu era a única trabalhadora. Hoje trabalham 7 pessoas na Thrill Jockey e estamos num velho bar situado num edifício vitoriano no coração da zona sul de Chicago.
Acha que o fenómeno Thrill Jockey está de alguma forma associado ao facto da editora ser liderada por uma mulher, num mundo ainda muito dominado pelo homem?
Eu não acredito que o mundo é dominado pelos homens. Aliás, só os homens é que devem pensar nisso. Eu sou meramente uma cidadã do mundo, a tentar ser sempre melhor. O género não define o meu intelecto e como tal não tem nenhuma influência na minha capacidade de dirigir uma editora. Adoptei de facto uma boa ética de trabalho, mas acho que isso só devo aos meus pais. Talvez existam algumas qualidades femininas na minha editora, mas para mim é difícil defini-las.
Por falar em futuro, por quanto tempo é que acha que vai conseguir continuar esta saga?
Não me parece que seja uma saga. É somente uma editora de discos. De qualquer maneira, não tenho planos para fazer outra coisa na vida.
Para terminar, o que é que a faz vibrar?
Gosto muito de chocolate!... Bem, num sentido mais lato, adoro descobrir coisas novas e bonitas tanto na música como na arte. É algo que me excita e dá energia. Entre os meus favoritos incluem-se Gilbert and George, Louise Bourgeois, Agnes Martin, Meis, Laylah Ali, Fred Anderson, Doug Mccombs, Devo, The Minute Men, Plux Quba, Joyce, Tomas Ruff, Tom Lab, Okka Disc, Sonig, Arnold Odermatt, Joseph Meuller Brockman (o poster da tourné “Looking for a Thrill” é claramente inspirado num trabalho dele de meados da década de 60), Abbas Kiarostami, John Cassavetes, Lightening Bolt, Sof Boy... O prazer que encontro nestas pessoas e coisas é aquilo que me faz feliz e me dá forças para continuar. Quer seja pela adrenalina provocada pela excitação, pelos tons criados por Takemura, ou pelo desejo de descobrir e aprender sempre mais.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 12)
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