Entrevistas
TIM KERR
(SORRISOS) E RESPEITO

Conversámos com Tim Kerr a propósito de “Sight On Sound”, uma exposição do seu trabalho que irá estar em Lisboa, de 1 a 30 de Abril na Trem Azul Jazz Store, e em Vila Nova de Famalicão, de 5 a 31 de Maio na Casa das Artes. “Sight On Sound” reúne obras feitas especificamente para esta mostra – pinturas sobre capas de LP e mesmo sobre vinil. Peças onde as manchas de cor utilizadas servem de fundo a figuras humanas desenhadas, grandes nomes como Sun Ra ou John Coltrane, por exemplo. Esta é uma parte da produção de um homem de muitas actividades, onde todas parecem fundir-se e confundir-se. Onde é sempre deixado ao espectador a honra da última palavra e onde é esperado que os sentidos estejam, mesmo, todos alerta.

Não vamos cair em categorizações. Não interessa que Tim Kerr seja conhecido mais por uma coisa do que por outra. Não interessa o que veio primeiro ou depois porque provavelmente tudo aconteceu ao mesmo tempo sem nos apercebermos. Uma coisa é certa, Tim Kerr faz muita coisa, a sua energia parece infinita.

Nascido no Texas (estado onde ainda reside, mais precisamente na cidade de Austin) Kerr fez a faculdade de Belas Artes, andou de skate, fez surf, é músico, compositor, produtor, encontrou a mulher que ainda hoje o acompanha, Beth, quando ainda era muito jovem, participou em concursos de “song writing”, partiu o braço enquanto andava de skate numa piscina vazia, formou bandas como Big Boys, Court Reporters, Poison 13, Bad Mutha Goose & The Brothers Grimm, The Monkeywrench, Jack O’Fire, Lord High Fixers, King Sound Quartet, The Now Time Delegation e Total Sound Group Direct Action Committee. Esta última é a mais recente banda de Tim Kerr, que irá tocar no afamado festival All Tomorrow’s Parties no próximo mês de Maio em Inglaterra, no dia em que os curadores são os Mudhoney. Esta será a única data da banda americana na Europa.

Todas as actividades de Kerr, toda a sua produção, estão intimamente ligadas à sua vida. Não existe separação. Kerr trata tudo da mesma maneira – a defesa do que é verdadeiro para si, para a sua produção nunca parece comprometer o seu diálogo, interacção e respeito pelo próximo. A vida parece ser para Tim Kerr um prazer e nós, espectadores, só podemos ter respeito por isso, com muitos (sorrisos) pelo meio.

Depois de muito ler apercebi-me que tudo o que tem feito – seja andar de skate, tocar um instrumento ou pintar –, está ligado, todo o processo está interligado. Consegue olhar para trás e lembrar-se de quando começou a pintar, ou a experimentar pintar?

Acho que quando me mostraram os primeiros lápis de cor e livro para colorir, fiquei agarrado. Os meus pais eram ambos professores por isso em casa havia sempre coisas com que escrever e colorir e embora os meus pais não tivessem muitos discos, a minha mãe tocava piano e ambos os meus irmãos, que eram quase adolescentes quando eu nasci, tinham sempre o rádio ligado. Desde sempre senti-me inclinado para essas coisas. Mesmo com o desporto acho que sempre gostei mais de desportos que não fossem em equipa, mais individualistas.

Quando é que as coisas começaram a ficar sérias, quero dizer, quando é que começou a expor as suas pinturas e a vende-las?

Bem acho que começou a ficar “sério” quando fui para a Faculdade de Belas Artes. Principalmente [para estudar] pintura e fotografia, mas não tinha um plano definido nem tinha pensado muito no que ia fazer quando saísse da faculdade. Não tinha como objectivo mostrar a minha arte. Depois de sair da faculdade arranjei dois part-time, num atelier que fazia vitrais e na biblioteca da UT (Universidade do Texas). Nessa altura estava maioritariamente preocupado em tocar guitarra acústica com os meus amigos, andar de skate e estar com a Beth. Quando o punk rock chegou a Austin e toda a ideia do DIY (“Do It Yourself” – “Faça Voçê Mesmo”) se tornou clara para mim, tudo deu uma volta e fiquei agarrado e ocupado com isso. A minha primeira exposição “a sério” foi aqui em Austin, organizada por um amigo meu, estava eu nos Big Boys. Eu não estava à procura de expor e não tinha pensado em fazer nada do género, por isso quando essa exposição acabou não continuei. Eu continuava a fazer arte só [que] não era pintura. Fazia flyers, algum graffiti, capas de discos (“record art”), etc. Foi só há alguns anos que as coisas ficaram sérias. Os meus grandes amigos Brian e Dora convidaram-me para fazer parte de uma exposição colectiva em São Francisco. Por causa disso o Rich Jacobs contactou-me para participar em alguns projectos que ele estava a preparar e a partir daí começou a crescer.

Como é o seu processo de trabalho? Como qualquer outra das suas (muitas) actividades? Ou tem um prazer especial, como um ritual? Pode explicar como é que surge um trabalho?

Existe definitivamente um prazer especial em fazer arte. No que diz respeito ao processo vou falar só por mim. Para mim, expressar-nos envolve uma responsabilidade porque existe a possibilidade de chegar a alguém ou de levar a alguém a pensar e eu prefiro ser algo positivo nesse processo. Uma vez decidido o que quero dizer, ligo a música e começo a pintar. (sorriso)

Os seus temas mais recorrentes são grandes nomes do jazz e dos direitos civis. É óbvio que vêm da época em que estava a crescer – parecem ser coisas que estão à sua volta, perto de si, da sua experiência de vida. Como é que isso surgiu? Foram sempre estes os seus temas, ou já experimentou outros?

Quando estava na faculdade fazia coisas mais abstractas mas tive sempre uma ideia do que queria fazer com a cor e com o design. A percepção de que o facto de nos expressarmos acarreta responsabilidade veio das bandas em que estava e de toda a ideia DIY. Sempre gostei da ideia de que a maioria das pessoas que fizeram história, ou alguma coisa para mudar as mentalidades, o fizeram como reacção sentida a algo que se estava a passar à sua volta. Não fizeram o que fizeram com a ideia de que estavam a fazer algo “importante” ou para serem famosos. Foi só a sua reacção pessoal a alguma coisa, e isso é algo pelo qual todos passamos. A ideia que um simples acto pode mudar a direcção das coisas é a base da ideia que todos nós estamos a fazer história à nossa maneira. Acho que isso é um pensamento muito positivo e as pessoas que eu pinto ou as ideias que afirmo, são só exemplos dessa realidade.

Menciona muitas vezes Van Gogh em entrevistas, a tinta espessa, a maneira como pintava. Para si o lado físico da pintura é a parte mais importante do processo? O que lhe dá mais prazer?

Gosto da ideia de ver a tinta, de ver o processo. Sinto-o como mais real do que algo mais polido e “slick”. Sinto o mesmo em relação à música.

O que pensa do trabalho de Barry McGee? Da maneira como veio da rua e de repente se pode ver em galerias, em espaços museológicos. O que pensa do trabalho que estava a ser feito nas ruas e que de repente está a ser aceite pelo mainstream da arte e exposto em espaços institucionais e nos chamados “white cubes”?

Eu adoro o trabalho do Barry McGee. Acho óptimo que o trabalho dele esteja a ser mostrado também em galerias e museus. Também gosto muito do trabalho dos Gémeos e sempre gostei de arte urbana, sinais, cartazes, graffiti e dos efeitos do tempo em todas estas coisas; a ideia de que basta abrirmos todos os nossos sentidos. Podemos ver arte em qualquer parte sem ter que ir a uma galeria e, já agora, podemos ouvir música em qualquer parte sem ter que comprar um disco ou ir a um concerto. A música e a arte da vida estão por todo o lado e é grátis se prestarmos atenção. É um pensamento um bocado piroso mas não se pode discutir com o que é verdade!

Pensa no espaço em que vai expor? É importante para si?

Quando posso, sim. É importante porque isso dá-nos possibilidade de passar para além da parede e em resposta talvez fazer com que o espectador faça o mesmo, e talvez fazer com que o espectador comece a fazer o mesmo com a sua própria vida: perceber que não é só o que está à nossa frente mas tudo o que está à nossa volta.

Há alguma exposição que tenha gostado particularmente de fazer, ou que lhe tenha dado um prazer especial? Pode de alguma maneira compará-la à gravação de um disco ou a um concerto? Tem o mesmo “buzz” com a montagem e preparação de uma exposição do que com um espectáculo ao vivo?

Sim. A exposição na Needles And Pens, em São Francisco foi assim e estou muito orgulhoso dela. Muitas vezes, se consigo um espaço onde possa escrever nas paredes e/ou fazer outras coisas, tenho essa sensação quando dou um passo atrás e absorvo tudo.

Então sente a exposição como um todo – especialmente porque era uma exposição em que participaram outros artistas e os vossos trabalhos estão lado a lado numa montagem conjunta. É mais fácil trabalhar em grupo nas artes plásticas do que na música?

Essa exposição era colectiva mas éramos só três artistas e eu tinha a maioria dos trabalhos da exposição. As exposições colectivas podem acontecer de duas maneiras: podemos mandar trabalhos e é-nos delegado um determinado espaço, o que acaba por ser uma exposição com muitas pessoas, ou então trabalha-se com as pessoas envolvidas e mistura-se as coisas com a colocação dos trabalhos no espaço de maneira que um grupo de pessoas faz UMA exposição. É mais fácil de certa maneira trabalhar no contexto da arte com um grupo em vez de numa banda porque, pelo menos, com as exposições o trabalho pessoal não fica comprometido, não se tem que fazer concessões. Mas no contexto da arte como emprego, como por exemplo um designer gráfico, etc, é essencialmente o mesmo do que trabalhar numa banda. Está-se a tentar criar uma coisa com que toda a gente fique contente.

Como é que todas as outras coisas que fez - os flyers, os cartazes (apesar de terem um tempo mais limitado de divulgação de um concerto ou um álbum) - se relacionam com as suas pinturas? Distingue as suas pinturas de hoje de outros materiais que tenha utilizado? Já os utilizou em exposições em que fez intervenções nas paredes, por exemplo? No fundo fazem parte do que o Tim é, da sua história…

Mmmm…nunca pensei nisso. Acho que existe um fio condutor que percorre todas essas coisas. Esse fio condutor começou no primeiro dia. Existe uma espécie de limbo ao mostrarmos a nossa história – pode parecer que se está a dizer “olha o que eu fiz” em vez de “olha o que eu posso fazer”!

Sente que agora tem públicos diferentes? Pessoas que o conhecem pela sua pintura e outros que o conhecem, obviamente, pela sua música? Sente essa distinção ou é impossível separar?

No fundo acaba por ser o que o ouvinte ou o espectador tira do que lhe é dado. A resposta humana arrasa com todas as categorias. (sorriso) Ou se gosta ou não se gosta. Acho que quantas mais pessoas conhecemos e quantas mais nos conhecem aumenta o potencial da nossa forma de expressão chegar a mais pessoas, [de] plantar mais sementes. O problema é quando as pessoas querem que fiquemos naquela gaveta em que nos meteram. Na realidade, isso é desrespeitoso para com a pessoa que se está a tentar reter num determinado sítio, definindo-a partindo de um determinado período da sua vida e da vida deles.

O que vai apresentar nas exposições de Lisboa e Famalicão?

Bom…para estas exposições, o Hugo [Moutinho] queria mesmo que eu pintasse em capas de álbuns. Depois decidi começar a pintar também sobre o vinil (sorriso) por isso…será isso. Não posso pagar um bilhete para ir a Portugal portanto não vou poder escrever nas paredes e/ou fazer outras coisas. Mas cada exposição é diferente. Para o melhor e para o pior, sempre gostei da ideia do acaso e do que os outros fazem com a nossa arte que quando está nas suas mãos.

Nesta exposição será então o formato LP e o formato do vinil. Varia muito de formatos, prefere uma escala mais humana, mais perto da que é manuseável, ou também gosta de grandes formatos?

Eu gosto muito de pintar em cartão de uma escala maior mas, fazer esta exposição fez-me perceber que se pode conseguir transmitir ideias interessantes pintando em capas de LP e deixando algumas das velhas palavras e imagens surgirem através da tinta.

Esta é uma daquelas perguntas tipo “o que levaria para uma ilha deserta”, mas desculpe-me, não resisto. O facto da exposição de Lisboa ser numa loja de discos de jazz tem óbvias ligações ao seu trabalho. Parece apropriado, mas se tivesse que escolher um espaço perfeito para expor numa cidade, qualquer cidade, qualquer lugar, sem limitações, qual seria?

Gosto da ideia de colocar coisas em lugares onde as pessoas já se encontram por outra razão qualquer que não a arte, um lugar onde estejam à espera, em pé ou sentadas e de repente comecem a perceber onde estão, a perceber o que as rodeia... comecem à procura de alguma coisa.

Susana Pomba
(Mondo Bizarre # 25)