TOMAHAWK
ROCK'N'ROLL COWBOYS
Duane Denison, Mike Patton, Kevin Rutmanis e John Stanier são os quatro músicos que se escondem por detrás do nome Tomahawk. Nas palavras do próprio Denison, os Tomahawk nasceram para "tornar o mundo um lugar mais seguro para o rock". Uma ironia, claro, que humor é coisa que não falta ao ex-guitarrista dos Jesus Lizard.
Julgo que aqui, Tomahawk é o machado de guerra. Contra o que pretendem lutar?
Sim. Bem, vamos lutar para tornar o mundo um lugar mais seguro para o rock. As bandas de rock estão a tornar-se uma espécie em vias de extinção.
Mas a escolha de Tomahawk é engraçada. A palavra, na realidade, significa "feito pela própria natureza" que é exactamente o contrário de uma banda de rock que é criada pelo Homem.
Pois é. Mas, de facto, tudo o que queremos ser é uma banda de rock. Que é uma óptima coisa criada pelo Homem. Não estou a falar de uma banda de rock comercial e mainstream como as que passam na MTV. Estou a falar daquilo que considero uma banda de rock a sério e das quais actualmente existem muito poucos exemplos. E ainda por cima, nos últimos tempos parece que todo o espaço dos media foi ocupado pelo hip-hop e pela música electrónica. Agora, o rock está a regressar lentamente e há bandas como os Queens Of The Stone Age que conseguiram algum impacto. Nós queremos fazer parte desse regresso do rock, subir a um palco e ser tudo o que uma banda de rock deve ser: uma versão actualizada do formato clássico do grupo de quatro elementos com uma linguagem directa e eficaz.
Mas, voltando à questão de tornar o mundo seguro para o rock, não costumava ser o contrário? O rock não costumava ser um perigo para o mundo e tinha que ser salvo dessa música considerada selvagem e agressiva?
Não estou a falar a sério quando digo que temos que salvar o mundo para que seja um lugar agradável para o rock. Acima de tudo, o rock costumava ser menos conformista. Hoje em dia parece ter-se tornado num modo de vida, num acessório que se exibe. Mas as coisas funcionam por ciclos. Creio, no entanto, que se o Jerry Lee Lewis vivesse hoje não iria conseguir fazer nada pois toda a gente está muito preocupada com a necessidade de não se ofender nem provocar ninguém. Há uma verdadeira obsessão com o politicamente correcto. Se se olhar para o Jerry Lee Lewis, ou para o Litle Richard, que era negro e homossexual, vê-se que isso mexia com as pessoas. Agora é difícil encontrar artistas assim tão coloridos.
A capa de "Tomahawk" é muito parecida com a capa de "Bang", dos Jesus Lizard. Esta tem um machado e aquela um martelo mas o jogo de cores e a disposição dos objectos é semelhante. Foi uma opção intencional?
Não. É pura coincidência. Eu não tinha grande controlo sobre as capas dos Jesus Lizard. Mas a capa de "Tomahawk" foi escolhida por mim. Encontrei o desenho do machado num velho dicionário mas não houve intenção de relacionar com a capa de "Bang".
Conheceu Mike Patton nos bastidores de um concerto dos Mr. Bungle. Como é que isso aconteceu?
Já tinha ouvido falar dos Mr Bungle mas nunca os tinha ouvido. No Midwest e no Texas, onde eu vivi, eles não eram tidos como muito importantes. Pelo menos não nos círculos em que eu me mexia. Sabia quem Mike Patton era mas mais por causa da sua ligação a John Zorn do que por outra coisa qualquer. Quando eles vieram tocar a Nashville, eu fazia parte da banda de Hank Williams III e Jason, o nosso baixista da altura, era um velho amigo do Mike. Foi ele quem me levou ao concerto. Eu nem sequer queria ir mas ele insistiu e disse-me que tinha mesmo que o acompanhar. Foi o que fiz. Gostei muito e acabei por conhecer o Mike. Foi assim que tudo começou.
Apesar de os Tomahawk serem, basicamente a sua banda - quando conheceu Mike Patton foi ele quem se mostrou interessado em tocar consigo e tendo aceite trabalhar com ele, ele deixou-o à vontade para levar avante as suas ideias -, não teme que os Toamhawk sejam visto como mais um dos múltiplos projectos de Mike Patton?
Claro que tenho medo que isso aconteça. Qualquer coisa que sai na Ipecac é logo vista como mais uma das ideias do Mike. Mas há uma coisa em que ele tem sido fantástico. Sempre que lhe falam dos Tomahawk, ele diz que, no que respeita à música, fui eu quem a escrevi. As letras e as partes vocais são obra dos dois e os arranjos da banda toda. E claro, as gravações e as misturas também são um trabalho dos quatro. Ele também costuma dizer que quem tem ouvidos e conhece os trabalhos do Mike Patton deve ouvir os Mr. Bungle e os Fantômas e depois os Tomahawk e nota logo a diferença. Os Tomahawk são muito mais uma banda de rock tout-court, não acha?
Sim. Parecem-se mais com os Faith No More.
Sabe, eu não estou familiarizado com os Faith No More. Mas já me têm dito isso. Também é essa a sua opinião?
A voz de Mike Patton, nos Tomahawk, está mais próxima do trabalho dele com os Faith No More do que com o que ele faz com Mr. Bungle e Fantômas. É uma abordagem muito menos experimental.
Desde o início que disse ao Mike que não queria fazer um projecto estilo John Zorn, Frank Zappa ou Mr. Bungle. Não queria imensas mudanças de estilo numa mesma canção nem estruturas assimétricas. Gosto de grooves firmes de riffs repetitivos. Aprecio o som básico de uma guitarra cheia e poderosa, baixo e bateria. Queria que fôssemos uma banda de rock. Ele entendeu isso perfeitamente, tem colaborado comigo nesse sentido e as coisas têm resultado bem. Aliás, já estamos a trabalhar em material novo que vamos tocar nesta digressão.
Mas as canções foram sendo trabalhadas através de cassetes uma vez que só se juntaram todos na altura de entrar em estúdio...
Praticamente. O meu modo de trabalhar foi o seguinte: ficava em casa a gravar cassetes comigo a tocar guitarra acústica com um metrónomo ao lado. Uma coisa muito simples. Na minha óptica, uma canção deve ser o mais simples possível e ser passível de ser tocada apenas com uma guitarra acústica ou um piano. De cada vez que gravava uma cassete mandava-a ao Mike que me enviava alguns comentários ou me telefonava com sugestões. Depois comecei a fazer gravações mais elaboradas, num gravador de quatro pistas, com guitarra eléctrica, baixo e por vezes caixa de ritmos. Voltei a enviar essas versões mais complexas ao Mike e ele acrescentou-lhes algumas partes, enviando-ma de volta. Quando as recebia ligava-lhe para trocarmos ideias e quando o Kevin (Rutmanis) e o John (Stanier) se juntaram à banda começámos a mandar-lhes cassetes. Finalmente, houve uma ocasião em que vieram a Nashville e pudemos tocar juntos. O Mike chegou primeiro e passámos uns dias a trabalhar as canções. Em seguida chegou o John e fomos ensaiar para um sala onde havia bateria. Passámos mais alguns dias nisso até que chegou o Kevin e ensaiámos só o baixo e a guitarra. Como já toda a gente estava familiarizada com os temas, quando chegou à altura de gravar o álbum, juntámo-nos uma semana antes de entrarmos em estúdio e estivemos a ensaiar quatro ou cinco dias. Basicamente foi assim que as canções foram escritas e que trabalhámos o álbum.
As vossas fotos, com os chapéus de cowboy, e um ar muito camp são algum gozo à imagem típica de uma banda country?
Tentamos gozar com a Nasheville, capital da música country, e em particular de quase toda a country comercial da qual eu não gosto. Gosto de country tradicional, de alternative country e de algumas pessoas que recuperam a versão tradicional. Mas queríamos mesmo gozar com o Garth Brooks, com a Helen Jackson e gente assim. Por isso é que usamos aquelas camisas espanpanantes, os chapéus e os microfones auriculares.
Após o fim dos Jesus Lizard mudou-se para Nashville e tocou com o grupo de Hank Williams III. Pelo meio passou pelos Firewater e teve o Denisson-Kimball Trio. Agora tem os Tomahawk. Tudo grupos com estéticas musicais muito diversas. A mudança de som e de abordagens é importante para si?
É. Eu aborreço-me com muita facilidade e não gosto de estar sempre a fazer a mesma coisa. Acima de tudo sou um guitarrista de rock. Um compositor de rock. Toco guitarra há muito tempo, tenho estudado muita coisa e tento ser o mais versátil possível. Os Firewater eram kletzmer rock, Hank Williams III estava mais virado para o country rock. Também gosto de trabalhar em projectos mais experimentais. Tenho falado com o Steven Drozd dos Flaming Lips e talvez venhamos a fazer um projecto juntos tendo como ponto de partida uma versão ferrugenta e experimental de "americana".
Muitas das coisas que encontrei sobre si provêm de revistas de guitarras. Essas publicações tendem a vê-lo como um "grande guitarrista". Considera isso importante?
Não, isso não é importante para mim. Com o passar dos ano acabei por aparecer em muitas revistas de guitarras mas não me importo pois é uma boa publicidade. E se houver algum miúdo que leia - a maioria das pessoas que lêem essas revistas costumam ser rapazes brancos que vêem a MTV, que compram os mesmos discos e gostam das mesmas coisas -, algo sobre mim e se vire para coisas diferentes das que ouve. É essa possibilidade de fazer alguém ouvir coisas que considero mais interessantes que conta. A maioria das pessoas dessas revistas diz que eu estudei música na faculdade, que ensaio bastante. Mas não me interesso nada pelo que dizem esses tradicionalistas. O meu mundo, o meu modo de pensar, as minhas bandas, as pessoas para quem toco estão a milhas do tipo de pessoas que lêem essas revistas.
As letras de "Tomahawk", escritas por Mike Patton, são muito violentas. Há alguma razão para isso?
Quando começámos a compor as canções eu escrevi algumas letras. Juntei-as e dei-as ao Mike e disse-lhe para usar o que quisesse. Ele aproveitou pedaços do que escrevi mas 90 por cento das palavras e das ideias são dele. Já me tinham dito que achavam as letras violentas mas não as acho exageradas. Encaixam-se no ambiente criado pela música. Não são como as dos Limp Bizkit nem nada que se pareça. Por vezes, algumas das junções de palavras advêm de o Mike ser vocalista e escolher palavras pelo som e pelo ritmo que têm.
A execução gráfica do booklet do disco, concebida por John Yates, que realizou trabalhos para os Dead Kennedys e Crass e o uso das gravuras de Lynd Ward, transmitem muito bem a atmosfera do disco. Quem escolheu esses artistas?
Eu e o Mike. Eu também escolhi o logotipo que surge na capa do disco e o Mike apareceu com os remates de madeira. Gostamos todos muito disso e ficou assim. Em relação às gravuras há uma coisa que me aborrece é não haver nenhuma imagem de uma mulher. Não me estou a referir a uma mulher em biquini. Nem sequer a uma mulher bonita. Apenas uma mulher a trabalhar. Não que o conceito do disco seja sexista. É antes homo-erótico e cheio de energia masculina. Daí os tipos robustos a cortar madeira, a trabalhar...
Parecem um pouco os desenhos de Tom Of Finland...
Exacto! Mas nós somos o tipo de banda que gosta de ver mulheres na audiência. Eu não quero fazer parte de uma banda que só toque para tipos briguentos e misógenos. Fiquei muito contente porque na nossa digressão americana havia muitas mulheres nos concertos. E também me alegrou ter aparecido muita gente mas ter havido poucos mosh pits que são coisa que não aprecio. Gosto de ver as pessoas divertirem-se, dançarem, mexerem-se mas não que se atirem uns aos outros e não deixem que se veja o concerto.
No seu site há uma parte só dedicada a livros que são uma coisa de que gosta bastante.
O site nasceu porque há um tipo, no Texas, que me deve muito dinheiro. Então, ele e os amigos fizeram o site para me deixar contente. Mas acho que ou o tiram da net ou o actualizam. A lista de leituras correntes que lá está é muito antiga. E também já estou farto de ver sempre a mesma fotografia. (risos)
Sei que investiu dinheiro numa livraria...
É precisamente o ex-dono da livraria que me deve dinheiro. Investi na livraria porque tinha ganho bastante dinheiro com os Jesus Lizard e queria algo sólido e de que gostasse. Mas o negócio faliu. E, realmente, eu gosto muito de livros. Quando estava na Universidade trabalhei numa biblioteca durante uns anos e gostei tanto que nunca mais parei de ler. Toda a gente nos Tomahawk lê imenso, a minha namorada lê. Toda a gente que eu conheço gosta de ler. Mas parece que no mundo da música ninguém quer falar sobre livros o que me entristece.
O que está a ler actualmente?
Deixe-me ver: "The Great American Novel" de Philip Ross, "Pinochet and Me" de Cooper, "Orientalism" por Eduard Said, um livro do Ian Frazer e uma imensidão de revistas.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 10)
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