Entrevistas
TOMAHAWK
NEUROSE SÓNICA
A propósito de “Mit Gas”, o novo álbum e segundo na carreira dos Tomahawk, estivemos à conversa com o simpático guitarrista Duane Denison, em que e falou da evolução do grupo, da instabilidade em que vive o mundo e o actual estado do rock.

Os Tomahawk são uma espécie de super banda “alternativa”, constituída por Mike Patton (Faith No More, Mr Bungle, Fantômas e um sem número de projectos), Duane Denison (Jesus Lizard, Hank Williams III), John Stainer (Helmet) e Kevin Rutmanis (Melvins, Cows). “Mit Gas”, o novo álbum produzido por Joe Barresi (que entre outros, já trabalhou com os Queens Of The Stone Age, Led Zeppelin e Melvins), é mais uma viagem alucinante na psicose roqueira dos Tomahawk. O habitual universo povoado de violência e paranóia, numa atmosfera delirante e bizarra, alterna com momentos mais calmos, com mais espaço para os diversos elementos sonoros respirarem. Responsável pela composição de grande parte do material dos Tomahawk e, sem dúvida, um dos guitarristas mais carismáticos e criativos do nosso tempo, eis Duane Denison em discurso directo.

“Mit Gas” é mais experimental do que o primeiro álbum e está mais próximo dos projectos experimentais do Mike Patton. O primeiro era mais rock'n'roll...
As pessoas têm-me dito o oposto, que o novo álbum é mais rock. Nós improvisamos muito ao vivo e pareceu-nos uma coisa natural para fazer em estúdio. Quisemos criar um maior balanço entre rock, sons mais atmosféricos e um certo experimentalismo. Todos gostamos desse tipo de coisas.

Há mais electrónica neste disco, temas com caixas de ritmo. Foi uma decisão consciente fazer um disco substancialmente diferente do primeiro?
A banda tem a sua personalidade e como já tocamos juntos há algum tempo queríamos que o disco representasse o modo como o grupo soa agora.

Os Tomahawk trabalham depressa. “Mit Gas” sai um ano e meio depois do álbum de estreia...
Algumas das canções já fazem parte dos alinhamentos dos concertos há algum tempo e estavam prontas para gravar. Temos sempre novas ideias que pomos em prática rapidamente.

Este disco é também o resultado das digressões que têm feito, uma vez que quando gravaram ”Tomahawk”, não tinham tocado juntos muitas vezes?
Sim, também. Para alem disso, quando se utiliza um estúdio ou um engenheiro de som diferente, o som da banda sofre obviamente alterações.

Por falar nisso, como foi trabalhar com Joe Barresi?
Eu conheço o Joe há uns anos, ele trabalhou com os Jesus Lizard e os Melvins. É fácil trabalhar com ele e é um bom engenheiro de som e contribuiu com muitas ideias. Muitos produtores têm a tendência para estar constantemente a dizer o que tens de fazer. O Joe não é assim e não precisamos disso. Levámos as canções com os arranjos bem trabalhados. Quando uma canção precisa de alguma coisa, é bom ter alguém fora da banda a dar ideias e o Joe fez isso.

Os métodos de trabalho são diferentes agora?
Ao vivo, surgem sempre novas ideias, mas não há grandes diferenças comparando com o início da banda. Eu tenho um estúdio digital em casa e o Mike também. É lá que costumo escrever a estrutura base dos temas. Depois envio uns CD’s para o Mike e ele faz as suas partes e manda-os de volta. É uma forma moderna de trabalharmos em colectivo.

Este álbum, tal como o primeiro tem um ambiente psicótico, bizarro e sombrio. Para os Tomahawk, é mais interessante escrever sobre o lado negro da vida do que compor canções mais alegres, mais pop?
“Mit Gas” é mais apocalíptico, tem uma vibração mais fim-do-mundo, mas eu gosto que haja um balanço. Penso que conseguimos isso. Nem todos os temas deste disco são negros. Por exemplo,”Captain Midnight” tem um ambiente diferente. “Desastre Natural” é quase uma balada. Não gosto de coisas que são extremas, negras e violentas o tempo todo. É como nos filmes, se vês um filme do David Lynch, do Tarantino ou Cronemberg, esperas uma boa percentagem de bizarria, choque, violência ou imagens surrealistas. Gosto de balancear essa tensão com momentos mais lúcidos e claros, mais naturais. Isso nota-se em “Mit Gas”, onde uso sons de guitarra acústica com um som limpo. Há uma noção de espaço mais evidente neste álbum, penso que conseguimos esse equilíbrio. A noção de espaço é uma componente importante na composição.

“Desastre Natural” é um tema atípico no reportório dos Tomahawk: uma balada cantada em espanhol...
Bem, no primeiro álbum tínhamos um tema chamado “Laredo” que tinha uma parte em espanhol. Nos Estados Unidos há muitos hispânicos e isso é uma influência difícil de evitar. Para nós, é natural escrever em espanhol e provavelmente voltaremos a fazê-lo. A construção da melodia é muito tradicional, podia ser uma canção escrita nos anos 40 ou 50. Normalmente, escrevemos os temas com base em riffs ou ritmos e gostamos de contrariar essa tendência com momentos mais tradicionais e melódicos. O tema “Cul-De-Sac”, do primeiro álbum, já era quase uma balada. O Mike é o tipo de vocalista que é bastante versátil para cantar em vários registos e experimentar coisas diferentes. É fácil de trabalhar numa banda onde o Mike é o vocalista. Ele faz qualquer coisa com a voz.

O seu estilo de tocar guitarra é muito peculiar, com riffs cortantes e poderosos, mas também minimais e cheios de groove, lembrando Gang Of Four, Birthday Party ou Stooges. Que músicos o inspiraram na sua forma de tocar?
Muitos músicos diferentes. Quando era mais novo, gostava muito do Robert Fripp e de alguns guitarristas de rock progressivo. Quando comecei a tocar guitarra foram uma grande influência. Mais tarde, o Rowland S. Howard dos Birthday Party, o Keith Levene dos Public Image Ltd. e o Andy Gill dos Gang Of Four, e toda essa escola de guitarrista foram também uma grande influência. Eu estudei guitarra clássica e há um guitarrista e compositor cubano, Leo Brauer, que admiro bastante. Aliás, o tema “Laredo” é baseado em algumas peças dele. Não gosto de estagnar musicalmente, por isso tento conhecer e aprender com o trabalho de outros guitarristas como o Marc Ribot e o Terje Rypdal. Gosto de guitarristas muito diferentes mas não tenho exactamente o mesmo som que eles. Se é para rockar, crio um bom riff. Faço alguns solos, mas não abuso, isso não é interessante. Se queres ouvir solos, ouves um disco de jazz. Tento manter as coisas simples e coerentes dentro de cada tema. Se quiser posso complicar as coisas um pouco, mas não o faço. Concentro-me em providenciar a atmosfera certa para a voz e a letra.

Neste momento conturbado que o mundo vive, é embaraçoso para a banda ter o nome de um míssil que foi novamente usado pelos Estados Unidos, desta vez na segunda guerra no Iraque?
Quando começámos a banda, eles já tinham esses mísseis, portanto sabia que mais tarde ou mais cedo, alguma coisa ia acontecer. Só não sabia que seria tão cedo. Mas o nome Tomahawk significa outras coisas: uma moto, um helicóptero, um machado de guerra, etc. Tenho sentimentos contraditórios em relação ao nosso nome. Eu não gosto do Saddam Hussein mas também não gosto do George Bush. Não votei nele, não gosto dele, por isso não estou muito contente. Neste momento parece que as coisas acabaram mas nunca se sabe... A maioria dos americanos apoia o Bush e a grande razão é porque os media, as cadeias de televisão e a maneira como retratam os acontecimentos fazem-no parecer bem. Eles não contam situações como a que aconteceu no início da invasão, em que o Bush tentou fazer aprovar uma lei no senado americano que iria reduzir os benefícios dos veteranos de guerra. Por exemplo, o meu pai combateu na Segunda Guerra Mundial e para ele, esses benefícios são muito importante porque ele está reformado e precisa desse dinheiro. Ele está a pedir às pessoas para apoiaram as tropas mas ao mesmo tempo está a tentar prejudicar os veteranos de outras guerras. Como os media não deram muita cobertura ao assunto, a coisa passou despercebida, o que não deixa de ser terrível. Quando o Bush foi à procura de armas no Iraque, acho que só encontrou aquelas que o pai dele vendeu. Aqui, a maioria das pessoas não sabe isso, porque não há interesse em contar essas verdades.

Há um certo receio pelo que Bush possa fazer a seguir. A sua agenda conservadora e a sua mentalidade militarista fazem temer que países como a Síria ou o Irão serão os próximos na lista...
Vamos ver o que acontece com a Síria. Mas penso que a América não entrará em guerra com a Síria. Para mim, o grande problema é a Coreia Do Norte. Países como o Iraque afirmam que não têm armas de destruição maciça, mas a Coreia Do Norte afirma claramente que as possui e dizem a toda a gente: nós vamos dispará-las. Venham-nas buscar... E o Bush é o tipo de idiota para ir atrás. E para além disso a maioria dos americanos não faz ideia que já estivemos em guerra com a Coreia há cinquenta anos atrás, e que não ganhámos. Os coreanos não querem saber de ninguém. Se tiverem que rebentar com tudo fazem-no.

Os Tomahawk estiveram recentemente na estrada como banda de suporte dos Tool. Como correu a experiência de tocar para o público de uma banda tão diferente da vossa?
Tivemos as mais variadas reacções. Houve sítios em que o público dos Tool gostou de nós e outros em que não gostou. Estivemos basicamente a tocar para o público deles e os fãs deles não querem ouvir mais nada por melhor que seja a banda de suporte. Na maior parte dos sítios tocámos muito bem, mas mesmo assim não gostavam de nós, por isso que se lixem... Eu prefiro tocar como cabeça de cartaz, especialmente em clubes para 1000 pessoas ou pequenos teatros.

Na última entrevista que deu à Mondo Bizarre (à cerca de um ano e meio) disse que após um período em que os media se viraram para a electrónica e para o hip-hop, lentamente as atenções estavam a virar-se de novo para o rock. Agora que a explosão está consumada, que opinião tem das novas bandas de rock que têm dado que falar nos últimos dois anos?
O rock está de volta, mas mais na vertente garage. Bandas como os White Sripes ou Strokes são demasiado retro para o meu gosto. Representam uma regressão, um voltar a trás. Os Tomahawk vão no sentido contrário: queremos ser um grupo de rock moderno em 2003 e, às vezes, perguntamos a nós próprios se há outras bandas que nos acompanhem. Não estamos preocupados se o que fazemos é cool ou não. Não gosto da nova cena garage-rock ou de emocore. Gosto dos Radiohead, não de tudo, mas têm música interessante, gostam de avançar por novas vias, mais experimentais. Gosto dos Queens Of The Stone Age: sabem rockar com classe, são pesados, mas não são estúpidos e têm bons riffs e melodias interessantes, não fazem música como as bandas de nu-metal. Há boas bandas por aí... God Speed You! Black Emperor, Sigur Rós, Enon…

Mas como músico de rock, deve estar satisfeito de ver os miúdos convencidos de que é cool pegar em guitarras outra vez...
Espero que venham ver os Tomahawk e digam: Wow! Estes gajos são bons, escrevem verdadeiras canções e tocam instrumentos verdadeiros. (risos) A maior parte das bandas de garage rock andam nisto pela moda e, ao mesmo tempo, é um escape para o passado, onde é confortável usar roupas retro, instrumentos antigos e gravarem como se estivessem nos anos sessenta. Há outras coisas a acontecer no mundo para nos preocuparmos, há muita tensão no ar. Para algumas pessoas, é muito confortável escapar para o passado.

Actualmente está envolvido noutros projectos além dos Tomahawk?
Tenho-me envolvido com outros músicos pouco a pouco. Existe uma banda em Nashville com quem costumo tocar quando estou em casa e tenho falado com o Dale Crover dos Melvins, e com o Trevor Dunn dos Fantômas, para fazermos um projecto baseado no trabalho de compositores anónimos e transcrições de canções nativas americanas. De canções de cowboy e de canções que os gangs costumavam cantar na prisão durante o trabalho do século mas isso ainda está numa fase teórica.

Mantém contacto com os ex-membros dos Jesus Lizard?
Comunico regularmente com eles por e-mail ou telefone. Vejo o David Yow e o David Sims uma ou duas vezes por ano. Vivemos em cidades diferentes, o David Yow está em Chicago e o David Sims em Nova Iorque. Passámos bons momentos juntos nos Jesus Lizard. Foi a primeira banda onde estive que obteve algum sucesso. Apesar de nunca termos tido um grande sucesso, fomos mais bem sucedidos do que eu estava à espera. No início foi duro, mas fizemos o nosso trabalho durante dez anos e posso dizer que foi uma experiência muito positiva. Hei-de sempre lembrar-me desses tempos com agrado.

Existe alguma hipótese de os Jesus Lizard voltarem ao activo?
Não. Os Jesus Lizard são passado. Já fizemos e dissemos tudo o que tínhamos a fazer. Se voltássemos seria em vão. As bandas que voltam a juntar-se fazem-no normalmente pelo dinheiro. Não acho que isso seja correcto. O tempo é diferente agora; o que fizemos ajustava-se à época em que a banda existiu. Se fizéssemos um novo álbum, já não conseguiríamos soar da mesma maneira, com a mesma química. Por outro lado, se fizéssemos algo mais moderno, já não seria Jesus Lizard. Por isso não vale a pena, a não ser que alguém nos oferecesse uns milhões de dólares. (risos)

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 15)