Entrevistas
...AND YOU WILL KNOW US BY THE TRAIL OF DEAD
MUSAS, ETIQUETAS & CÓDIGOS DE HONRA
A Mondo Bizarre já havia marcado uma entrevista com os ...Trail of Dead, mas fora adiada. No dia em que recebemos sinal afirmativo, fomos encontrar do outro lado da linha o alienígena Conrad Kelly, membro fundador desta formação texana. A longa e estranha (como o é qualquer conversa com os ... Trail of Dead) conversa gravitou em torno de "Source Tags & Codes", o mais recente álbum do grupo, as origens da banda, e alguns tópicos peculiares como a Inquisição. O resultado de tão bizarro encontro com Conrad Kelly pode ser aqui lido.

Como surgiu o nome da banda?
O nome? Foi há tanto tempo que já nem nos lembramos.

Pensa-se que retiraram esse nome de uma cultura, de uma tradição...
Ah... então, já sabem! Provavelmente, sabem mais do que eu.

Precisamos apenas de confirmação e saber em que medida a alegada cultura que terá estado na base da designação vos influenciou...
Não posso confirmar nada, peço desculpa. Sinto-me incapaz de confirmar esse rumor.

[N.R. Dado que a contenda acerca da origem do nome da banda não foi resolvida telefonicamente, importa esclarecer que a designação "And You Will Know Us By the Trail of Dead" terá sido retirada de um rito religioso Maia em honra dos deuses do milho Apuk. Esse rito estava incluído na acta de uma cerimónia levada a cabo na véspera do Ano Novo da civilização Maia. A entrevista prossegue...]

Mesmo antes da edição do vosso primeiro álbum, já estavam a ter algum reconhecimento pelos vossos concertos plenos de intensidade. Como descreveria os Trail of Dead ao vivo?
Bom, é uma tentativa de puxar a audiência para a experiência em si mesma. Acho que o propósito de qualquer actuação é o de captar a atenção do público que assiste e que escuta a música que tocamos. Acho que é essa a ideia. Expandir os limites, as capacidades.

Os Trail of Dead estão agora a trabalhar no domínio de uma editora multinacional. Por que decidiram assinar pela Interscope?
Como qualquer outro artista que acredita no que faz queríamos chegar a mais pessoas Pretendíamos ficar expostos ao maior número de pessoas possível.

O vosso som permanece vulnerável, agressivo e hipnótico. Como lidam com os puristas da música independente que vos chamam "vendidos"?
Nunca tive de lidar com eles. Não os conheço, não os ouço e, sinceramente, não me preocupo com a opinião deles. Os puristas são snobes, o género mais odioso de snobes. Não me preocupo em captar a atenção deles. Acredito mesmo que eles nem sabem do que estão a falar ou a gritar. Será que se preocupam, de facto, com a música e a arte? Parecem acreditar em princípios estranhos e cumprem uma agenda política que eles próprios criaram. Uma das formas de lidar com eles é pendurá-los pelos testículos.

"Source Tags & Codes" tem um som mais refinado do que os vossos discos anteriores. É uma peça de arte sólida, ambiciosa mas despretensiosa. Como é que funciona a composição no seio do grupo?
Nós gostamos de colaborar [uns com os outros]. Acho que o factor principal é mantermo-nos unidos como formação. Tentamos manter a livre expressão aberta, o 'free form'. Tememos que se nos orientarmos ou se seguirmos uma fórmula, o som resultará formatado. Não queremos que isso aconteça. A cada canção prestamos uma atenção particular, individual. Certas canções desenvolvem-se rapidamente, outras levam o seu tempo - podem evoluir ao longo de um período de meses, às vezes anos. Trabalhamos nelas até sentirmos que estão terminadas. E quando isso acontece, gravamo-las.

Apesar das vossas raízes punk, desejam sempre levar a vossa música mais além. Acha que os Trail of Dead são uma panóplia de caos e ruído e que não faz sentido rotular-vos?
Espero que não. Sei que é música rock, sei que isso é verdade. É rock'n'roll.

Como descreveria a vossa música a um extra-terrestre a viajar no espaço sideral, ansioso por conhecer os nossos hábitos?
(risos) Acho que lhe diríamos que o rock é a música do século XXI. É uma forma americana de fazer música. Claro que também seria interessante saber o que esse extra-terrestre ouvia. Já alguma vez pensou nisso? O que é que ele ouvia?

Provavelmente ruído, muito ruído. E sons estranhos.
Sim, devia ser épico.

Era capaz de colaborar com um extra-terrestre?
Adorava fazê-lo! Seria o teste definitivo para apurar se é, de facto, verdade que a música é uma linguagem universal. Poderíamos transaccionar música pelo espaço por forma a entrar para as tabelas de venda inter-galácticas. Gostava de saber qual é o no.1 na Via Láctea.

Há algum conceito por detrás do trabalho gráfico do novo álbum?
O derradeiro conceito foi o de compor cada canção e ilustrá-la sob o ponto de vista visual, no sentido de complementar o áudio com uma imagem. As canções são sobre assuntos específicos, têm histórias por detrás delas, cenas das quais resultam. Tentámos que isso ficasse representado no design do disco. Mas penso que é também, de certo modo, uma tentativa de reviver e revitalizar os interesses das pessoas na arte, os seus interesses na importância da arte.

Pode dar-nos um ou dois títulos de canções com histórias associadas?
Com certeza. 'How Near How Far' é um tema que aborda a necessidade que uma artista tem em encontrar uma musa que o inspire no processo de criação. Acontece com muitos artistas...

Tem alguma musa inspiradora?
Não! (risos) Muitas.

Pode revelar-nos a sua identidade?
Não! Não é possível. (risos) Tento buscar a inspiração noutros artistas, num olhar retrospectivo para o trabalho que realizaram, sobretudo artistas do século XIX. Sentimo-nos muitos entusiasmados com esse período na arte.

Regressando ao design, estão satisfeitos com o resultado final do álbum?
Não, definitivamente não. Havia tantos outros aspectos que gostaríamos de ter contemplado. Tivemos que conclui-lo rapidamente. Queríamos fazer algo mais grandioso, esperemos que no próximo trabalho o resultado seja melhor.

Como é viver na periferia do negócio da música? Onde encontram, no final do dia, a energia para prosseguirem com a vossa batalha na música?
Não é bem uma batalha. Temos admiradores, pessoas que nos apoiam. A digressão tem corrido bem, por isso não sinto tratar-se de uma batalha. Quanto ao que as pessoas chamam 'mainstream', não me apetece vir a estar associado a isso de forma alguma. Não encontramos semelhanças, não temos referências nem quaisquer pontos de contacto com esse lixo. É lixo - é o que isso é. Quando se tem lixo, queima-se. Portanto, essas pessoas deviam ser queimadas.

Deviam ser executadas como na Inquisição?
Sim. Aliás, nesse período costumava-se executar pessoas inocentes. Estes têm mentes criminosas, cometem atrocidades várias, produzem música pré-fabricada, lixo comercial a que nós estamos expostos e que todos nós subscrevemos. E é estúpido que assim seja, porque vai ser o nosso legado musical e... Deus nos ajude a todos!

E o facto de permanecerem fora das correntes de grande consumo, será que isso se reflecte na música?
Não sei, é difícil dizer. Fazemos o nosso trabalho, damos o nosso contributo e se as pessoas o saúdam, tudo bem, se não o fazem, que façam o que quiserem. Nós não obrigamos ninguém a ouvir-nos, não lhes empurramos aquilo que tocamos pela garganta abaixo. Atraímos as pessoas que estão interessadas, as outras não lhes prestamos atenção nenhuma.

Por causa do vosso apurado gosto musical, a pergunta é inevitável: o que têm ouvido nos últimos tempos?
Ouvimos muitas das bandas com que temos tocado, como os Elbow...

Os Trail of Dead têm um grande culto em Inglaterra. Não acha estranho receberem uma maior aceitação fora dos Estados Unidos do que no vosso país?
Nem por isso. Considero até que nunca estivemos tão bem nos Estados Unidos como estamos neste momento. O grande problema é que aqui as canções soam mais fechadas, parecem mais restritas do que na Europa. A Europa é muito vibrante, as pessoas muito interessantes. Na América elas estão já habituadas a isto.

O que fazem quando não estão a compor para a banda?
Bem, não nos resta muito tempo livre. Mas temos uma quinta onde fazemos criação de lamas, praticamos basquete debaixo de água. Estou envolvido em todos os desportos náuticos e psicadélicos.

Helder Gomes