TRANS AM
TRANSMISSÕES RETRO-FUTURISTAS
Em plena digressão europeia de promoção ao último álbum, "Future World", os Trans Am passaram por Lisboa, no final de Janeiro, para uma concerto único na galeria Zé Dos Bois. Com a lotação esgotada, muitos foram os que viram o concerto pelas janelas da sala. Após mais de uma hora de concerto onde a electrónica se cruzou com o rock, Nathan Means falou com a Mondo Bizarre.
Tanto quanto sei, Trans Am é o nome de um carro americano. Qual é o motivo para utilizarem esta designaação para a banda?
Trans Am é um carro, e foi daí que originalmente, retirámos o nome, mas também é uma empresa de mudanças e uma seguradora. Até agora ainda não fomos processados por ninguém, o que é sempre bom. (risos) Provávelmente não lhes fazemos concorrência...
Vocês sempre foram um trio, ou melhor, um power trio. Não precisam de outros músicos para tocar ao vivo, de forma a exprimir toda a intensidade da vossa música?
Normalmente não, apesar de já o termos feito algumas vezes. Não é muito práctico para nós. Infelizmente o quarto, quinto e sexto elemento dos Trans Am é o nosso material, que temos que transportar de um lado para o outro. É inacreditável a quantidade de material utilizado por três músicos.
Na minha opinião, o vosso trabalho ficou nais conhecido, pelo menos na Europa, na altura que editaram o "Surrender To The Night", em 1997. Na vossa opinião este foi um álbum importante na carreira dos Trans Am?
É um pouco pretencioso para mim falar da nossa carreira já que só tenho 26 anos. Se há um álbum com que as pessoas identificam a banda, este será o "Surrender...". Para ser honesto, a maioria das pessoas adora esse disco, o que é óptimo, mas já foi gravado há 3 ou 4 anos. Eu ouço-o às vezes e penso que soa engraçado. É como se fosse uma parte completamente diferente das nossas vidas.
Mas ao vivo ainda tocam alguns dos temas do álbum.
Sim, mas soam um pouco diferentes dos outros. Aliás todos os nossos temas resultam diferentes ao vivo. É um pouco estranho mas penso que seja um sentimento normal para qualquer músico que tenha um pouco de sucesso. Não acho que seja melhor do que os outros discos que gravámos, mas por alguma razão é o que as pessoas gostam mais, apesar de muita gente também gostar do "The Surveillance" por ser um disco totalmente diferente.
No entanto o "Surrender..." foi aquele que teve mais impacto no público e nos media.
Sim, aliás nós fizemos imenso dinheiro com esse disco e provávelmente as pessoas ainda compram os nossos álbuns mais recentes na esperança de que soem como o "Surrender..." (risos) Uma coisa é certa, não vamos fazer outro disco igual.
Em Portugal costuma-se incluir os Trans Am no "saco" do pós-rock, juntamente com os Tortoise, To Rococo Rot, Lambchop, Ui, entre outros. O que é para vocês o pós-rock?
Portugal não está só no que respeita à inclusão dos Trans Am nesse "saco" do pós-rock. Felizmente é uma frase que os críticos da moda estão a abandonar. Foi por causa do "Surrender..." que começaram a escrever que faziamos pós-rock.
Se bem que ao vivo vocês são mais "rock" do que "pós".
Não acredito que alguém que nos veja ao vivo mais do que uma vez ainda ache que somos pós-rock. Dessas bandas eu nem sei a que soam os Lambchop... Com os Ui já andámos em digressão, mas as outras bandas são muito mais calmas do que nós.
Por falar nos Tortoise, o John Mcentire trabalhou convosco nos primeiros álbuns. Como é que ele aparece nesse processo?
Ele ligou-nos depois de ter ouvido o nosso primeiro single e acabou por produzir os dois primeiros discos. Ultimamente não o tenho visto, ele é uma pessoa sempre muito ocupada.
A vossa música torna-se original pela simbiose entre estilos tão diversos como o free-rock, electrónica, pop, noise, etc. Como é que definem o vosso proceso de composição? Onde vão buscar essa "inspiração divina"?
Se há alguma "divinidade" ela provém do tédio ou das drogas, que para nós são duas coisas muito próximas. Nós juntamonos e tocamos música de que gostamos. Já o fazemos há mais de 10 anos, por isso acho que não há um processo de composição consciente.
O último álbum, "Future World", é muito intenso, dark e pela primeira vez usaram a voz (ainda que filtrada por um Vocoder). Nos discos anteriores não se sentiu a falta de um cantor. Pode dizer-se que a poesia está toda contida na vossa música?
Dizer que a poesia está contida na nossa música é um elogio para nós. A maioria das bandas têm vocalistas péssimos (especialmente em Nova Iorque e Washington D.C.) que acabam por arruinar os temas. No início não nos sentiamos confortáveis com o partido que tirávamos da voz, até que recentemente voltámos a explorar esse aspecto.
Nos temas novos que tocaram já não utilizaram o Vocoder, estando estes mais perto do formato canção. Esta será a nova direcção dos Trans Am?
Provávelmente, mas vamos continuar a escrever temas instrumentais.
O que pensam do "mundo do futuro" em termos musicais? Será que vai trazer o fim do rock tradicional como o conhecemos hoje (guitarra, baixo, bateria) como tanta gente prevê?
Acho que se vai continuar a tocar rock durante muitas décadas. As pessoas ainda tocam blue-grass, jazz e essas não são propriamente as formas de arte mais desejadas. As pessoas ainda tocam e compoem música clássica.
Depois de assistir ao vosso concerto sou obrigado a lembrar-me dos Mogwai, que afirmaram serem influenciados pelos Black Sabbath.
Por alguma razão os Mogwai, são os meninos queridos da imprensa britãnica. Eu não conheço muito bem os discos dos Mogwai, mas o que ouvi achei interessante e até há quem diga que ao vivo são bons. Mas a respeito dos Black Sabbath não ouvi nada deles que se parecesse com isso. Provávelmente nos temos mais temas que soam a Black Sabbath do que eles. O problema é que o rock inglês está morto. Eles tinham algumas das melhores bandas do mundo e agora não têm nada.
Já que estão em digressão, que cassetes trouxeram para ouvir na carrinha?
ZZ Top, New Order, Van Halen, Santo & Johnny, Zeni Geva, Miles Davies, compilações de lounge...
Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 2)
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