TUXEDOMOON
ALIENÍGENAS INFILTRADOS
O revivalismo da pop dos anos 80 deu-lhes um novo alento, cuja vertente criativa foi confirmada no álbum “Cabin In The Sky”, editado em 2004. De repente, abriram-se as portas a novas e velhas gerações para os sempre inclassificáveis Tuxedomoon. Em Abril regressam a Portugal para actuar em Famalicão e Lisboa.
Foram um dos projectos mais estranhos e peculiares da pop dos anos 80. Um verdadeiro O.V.N.I. musical centrado em americanos que se fixaram na Europa e que envolveram uma boa dose de outros músicos europeus. A música, uma amálgama de new wave, jazz, electrónica, avant garde e influências étnicas. Editaram regularmente através da belga Crammed Discs e estabeleceram um percurso único à volta de uma sonoridade heterogénea, mas fortemente personalizada. Depois, e durante grande parte dos anos 90, desapareceram das vistas dando lugar a inúmeras colaborações e projectos a solo. Com o entusiasmo gerado pela repescagem do seminal “No Tears”, que andou pelas pistas electroclash, e a queda do tabu “oitentas”, gerou-se terreno fértil para o regresso deste velho mas extremamente original colectivo. O álbum “Cabin In The Sky”, editado no ano passado, foi a confirmação da vitalidade criativa dos Tuxedomoon, que entretanto estão já a preparar um novo registo. Acerca do passado e do presente questionámos Steven Brown, um dos elementos fundadores do projecto.
Após uma série de anos de separação, qual a sensação de voltarem a tocar juntos?
É bastante natural. Somos como uma família, com tudo de bom e mau que isso implica… Andamos em digressão já desde 1998, portanto não é bem como termos recomeçado ontem…
Na primeira encarnação dos Tuxedomoon nunca tocaram em Portugal, mas agora vão actuar por cá três vezes em menos de um ano. Estão de alguma forma a tentar saldar uma velha dívida?
Acho que o destino pode estar a actuar precisamente nesse sentido! É estranha a maneira como, por vezes, as coisas acontecem… Recentemente tocámos na Hungria, na Sérvia e na Croácia e penso que somos sortudos por isso, por viajar do modo como o fazemos… Muitas vezes essa é a nossa única recompensa ou a mais importante. Diria que após o nosso primeiro espectáculo no ano passado em Portugal, que todos estamos um pouco curiosos por voltar…
Não há muitos exemplos de bandas que consigam criar música vital depois de uma separação tão longa. O que pensa que “clicou” para os Tuxedomoon nestes últimos tempos, em particular no que diz respeito ao álbum “Cabin In The Sky”?
Somos nós que continuamos a clicar… Fizemos uma pausa durante alguns anos e juntámo-nos quando nos apercebemos que ainda havia alguma coisa entre nós… Somos um colectivo de artistas dedicados, com a mente aberta e com o desejo de criar um mundo melhor através da arte.
Em “Cabin In The Sky” há de novo esta sensação de uma sonoridade que parece sair de uma Europa romântica, sofisticada e um bocado decadente. Sendo vós essencialmente americanos, pensa que de algum modo fantasiam a Europa, um pouco como os europeus fantasiam a América?
Talvez… Acho que tudo acontece naturalmente… Há tantos clones dos Nirvana ou do punk rock que penso que apenas fornecemos uma espécie de equilíbrio. Para alguns, a música talvez soe europeia, decadente ou romântica, mas para nós é simplesmente o que fazemos, sem pensar muito em termos analíticos. Sempre fomos atraídos por caminhos menos percorridos, e o nosso estilo muito particular é uma mistura do mais comum – rock –, com o menos conhecido – electrónica primitiva, avant garde, etc.
Essa mistura de new wave, jazz, música oriental e electrónica era realmente avant garde há vinte anos atrás. No mundo de hoje poderá ser considerada um acto de resistência política?
Sim, no sentido que é uma reacção às tácticas da uniformização e da comercialização da música. Penso que toda a arte é política, assim como o modo como falamos ou nos movemos e vestimos é, e sempre foi. Penso que no mundo de hoje devemos estar alerta perante o que acontece e fazer o que pudermos para DIZER NÃO ao racismo, à tortura, à repressão, aos valores do capitalismo brutal, à violação da Terra, às guerras ilegais, aos exércitos de ocupação… Acredito que um mundo melhor é possível, e que um artista que através da sua arte promove a consciência diária e o activismo é um encorajamento para todos nós.
Como vê a estranha combinação de linguagens e estilos que definem o corpo criativo da banda e o que é que cola tudo isso?
Tudo isso é também política. Quando estamos num determinado país pensamos que é importante aprender a comunicar com os locais… Daí que o uso de variadas linguagens e estilos musicais nos surja naturalmente.
Nos anos oitenta os Tuxedomoon eram uma banda muito atípica e com uma música difícil de explicar. No panorama mais formatado dos nossos dias não serão um fenómeno ainda mais estranho, uma espécie de O.V.N.I., musical?
Bem, muitas vezes sentimo-nos realmente como irmãos de outro planeta!!! Mas ainda não temos a nossa nave pronta para partir…
Nos últimos anos tem havido um entusiasmo crescente com a música dos anos 80. Pensa que o entusiasmo à volta do regresso dos Tuxedomoon também tem alguma coisa a ver com isto?
Espero bem que sim…
Pensa que estes constantes revivalismos acerca de períodos passados são apenas parte do processo da “pop eating itself” e que não há realmente nada de novo para dizer na música popular?
Penso que isso é o resultado do marketing e que talvez pelo facto de haver infindáveis revivalismos as pessoas julguem que é realmente muito difícil avançar. Mas nada disto é novo, e os que de nós têm algum discernimento vão continuar a viver as suas vidas calmamente. Claro, que haverá sempre “nova música” interessante, mas, por outro lado, todos esses “revivalismos” têm tornado acessível muita música mais antiga e obscura que não era assim muito fácil de encontrar. Nos últimos 20 anos muita música que era praticamente impossível de ouvir fora de arquivos específicos tornou-se de repente acessível… Um dia destes fui a uma grande loja de discos em São Francisco e de centenas e centenas de artistas comprei um DVD de Cab Calloway em actuação nos anos 30 e 40…
Como pioneiros da fusão de rock e jazz com electrónica, como vê a crescente importância na utilização desta última nos últimos 25 anos, até à sua quase total omnipresença na pop de hoje em dia?
Bem, “electrónica” basicamente significa música feita com computadores… Foram substituindo os gravadores analógicos e as mesas de mistura e os teclados etc… Dantes poderia dizer-se que a música era “magnética” por ser armazenada em fita, mas isto não diz nada acerca da própria música… Claro que há sempre pessoas como a Bjork que fazem coisas interessantes no domínio da música electrónica… O Snooze é outro…
Para além de um lado sorumbático e sério, na vossa música há sempre um humor sub-reptício e às vezes um pouco “kitsch”, em particular, no ultimo “Cabin In The Sky”. São duas faces inevitáveis da mesma moeda?
Bem, todos temos os nossos dias sombrios e os nossos dias mais luminosos… Quanto mais brilhante é a luz, mais negras são as sombras… Com certeza que o humor é muito importante na vida.
Depois de terem visto o tema “No Tears” sujeito a remisturas, foi a vez do belo “In A Manner Of Speaking”, do álbum “Holy Wars”, ter sido objecto de uma versão em toada bossanova pelos franceses Nouvelle Vague. Reagem bem quando mexem nas vossas músicas?
Realçar a identidade bossanoviana de “In A Manner Of Speaking” foi inteligente da parte dos Nouvelle Vague. Funciona. Uma “versão” é às vezes um bocado difícil de engolir às primeiras, mas ficamos lisonjeados se alguém fica impressionado com algo nosso, o suficiente para querer fazer um trabalho novo daquilo. De qualquer modo o original é sempre “lo maximo”!
Com um percurso tão preenchido e tão acidentado como o vosso, o que espera agora que o futuro traga aos Tuxedomoon? O que o excita nestes dias?
Estamos de momento em São Francisco compondo um novo álbum, foi aqui que tudo começou há tantos anos… Noutro lugar, noutro tempo, noutra vida. Aqui o tempo torna-se espaço e o espaço, tempo. É uma estranha experiência e uma verdadeira aventura para nós aqui, explorando o inesperado, pondo pé em novo terreno. É tudo parte do processo. Às vezes atiramo-nos às cegas para uma situação armados apenas de fé. Isso acontece na arte e na vida, há pequenas e grandes batalhas para serem combatidas todos os dias. É o que torna a vida interessante…
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 22)
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