THE TWILIGHT SINGERS
Tem De Se Ter O Diabo
“Blackberry Belle” é o segundo álbum dos Twilight Singers, projecto de Greg Dulli e amigos, inicialmente paralelo à sua banda de sempre, os Afghan Whigs, mas que após o fim destes em 2001 se tornou o escape para a projecção de todos os impulsos musicais de Dulli. E diabos...
Greg Dulli e os seus Afghan Whigs tiveram, em alguns países europeus, algum reconhecimento em vida. Este, ou a falta dele, foi recorrente incógnita para uma facção de fãs incondicionais e devotos, que viam nos Whigs uma banda tão intensa como peculiar no rock arrebatador que praticavam, à semelhança do seu frontman Greg Dulli. Dulli é um enfant terrible irresistível, possuidor de toda uma panóplia de referências cinematográfica, de música soul e r&b que se imiscuíam com as de punk rock, de toda uma ambiência de boémia, vida de rua e tradição literária associada a Nova Orleães. Muita da magia dos Whigs consistiu nesse carisma de Dulli, que sempre insistiu em fazer álbuns da forma mais cinemática possível, álbuns que como “Congregation”, e os incontornáveis “Gentlemen” e “Black Love”, eram verdadeiras viagens que nos transportavam à paranóia de relações de amor desesperadas, com grandes doses de culpa e traição, e gosto por estas. A voz corrosiva de Dulli ajuda ao tom, pautado pela intensidade das guitarras, por vezes slide, arrastadas e cadentes, reveladoras duma sonoridade única e identificável como sendo da banda, entre os elementos soul cada vez mais expressivos e que culminaram na euforia festiva de “1965”. Entretanto, por motivos de distância geográfica, a banda terminou e seguiu-se “Twilight As Played By The Twilight Singers” em 2001, disco marcadamente mais r&b e com as subtilezas electrónicas dos Filia Brazilia, a que se segue um diabinho mais rock que contou com o esforço de mais de vinte cinco amigos de Dulli em estúdio, com todo o r&b, mas mais rock e com as habituais relações neuróticas e referências literárias urbanas, e tudo o mais que faz de “Blackberry Belle” um disco a descobrir.
Quando inicialmente concebeu os Twilight Singers, estes andavam à volta do conceito de “Twilite Kid”. Pensa que também neste álbum há esse lado de viagem neurótica a uma relação obsessiva que o “Twilite Kid” encarnava, por exemplo aqui, no “Son Of The Morning Star”?
O “Son Of The Morning Star” é o diabo, “Blackberry Belle“ é o diabo, o “Twilite Kid” sou eu. Serei o diabo? Ainda não sei... (risos)
Pode ser uma das manifestações do diabo...
Sabe, a vida é um equilíbrio. Sem luz não há escuridão, sem amor não há ódio, portanto, tens de ter o diabo...
Mas considera haver aspectos comuns a ambos os álbuns, e daí ser aplicado o Twilight Singers para os dois, nome originalmente concebido em torno do “Twilite Kid”?
Para mim os Twilight Singers são o que quer que eu queira que sejam. Pode-me dar na cabeça fazer um álbum de reggae e dizer que é dos Twilight Singers desde que participe nele e escreva as canções, pois os Twilight Singers sou eu.
Seria possível para si nunca mais escrever música, à semelhança do que aconteceu quando esteve a dirigir um bar, por detrás do balcão, sem compor?
Sabia que abri outro bar há pouco tempo? Portanto agora tenho dois. Gosto de fazer muitas coisas, e como não sou uma estrela milionária tenho de trabalhar, tenho de pagar o carro, a casa, a pornografia. (risos)
A Internet não lhe chega?
Sim, mas odeio carregar num botão e aparecer nove milhões de coisas, imensa publicidade, odeio. Tipo, vão-se embora estão-me a assustar! Na verdade fui contratado pela revista Hustler para fazer uma crítica a um extra de um DVD que saiu agora.
O que faz de si um expert no assunto?
Faz de mim um velho porco. (risos)
Lá se vai a sua credibilidade musical...
Sabe que mais? Tenho ido a umas festas de um dono da indústria porno, e foram as melhores festas a que já fui.
Melhores que um bom concerto de rock?
São outro tipo de festas. Sabe que mais? As pessoas falam muito do backstage, mas é chato, odeio-o. Quando os meus amigos tocam, nesta ou em qualquer outra cidade, vou aos concertos deles e depois vou-me logo embora porque não quero voltar ao backstage. Estão cheios de pessoas que não conheces a fazerem “zzz” na tua cabeça. Quando estava na editora Elektra, na digressão do “Black Love”, eles chateavam-se constantemente comigo, porque assim que acabávamos de tocar, saímos do palco para o backstage e eu dizia ao road manager para me chamar um táxi, que esperava nas traseiras, nós voltávamos ao palco para o encore, e, assim que o concerto acabava, fazia a minha vénia, agarrava na minha garrafa de whiskey, e pisgava-me dali. Tocar é tão emocional para mim, que acabar de o fazer, voltar e agir normalmente não dá. É preciso uma ou duas horas para voltar à terra. Não dá chegares lá a seguir àquela experiência e começares a ouvir, este é o Joe da loja de discos tal... E aposto que são pessoas porreiras, não estou a dizer nada de mal acerca deles. Assim como conhecer e estar com fãs. Parei de o fazer porque não queria estar a despachar as pessoas. Elas ficavam à espera nas traseiras, e obviamente que não iria passar por pessoas que gostam de mim e ignorá-las! Queria dizer-lhes algo simpático. Significa algo para elas, e para mim também, mas se as pessoas compreendessem que quando estou em palco não estou a fingir, estou a vivê-lo, e escrevo canções que são muito pessoais. E subir a um palco e cantar canções assim não envolve a mesma disposição de ires cantar o “Sweet Home Alabama”, que é uma excelente canção a propósito. Ou seja, canto algo que muitas vezes é doloroso e enquanto o faço, revivo a minha dor, logo tenho de lidar com ela outra vez.
Recuperar disso após o concerto?
Sim, e não o digo do género, pobre de mim, mas quando estou em casa e não ando em digressão não passo muito tempo com outras pessoas, passo muito tempo em casa, com o meu gato. Só quando ele quer comer é que me irrita, mas realmente só consigo viver com animais. Não ripostam, não querem discutir comigo.
Numa dada altura da sua vida passava imenso tempo isolado em casa a ver filmes noir repetidamente. Continua a fazê-lo?
Sim, sofro um pouco de agorafobia. Por vezes quando acordo tenho ataques de pânico. Daí que muita gente junta me faça confusão. Adoro Nova Iorque, vivi lá durante algum tempos, mas às tantas pensei que ia morrer, porque não pára. Gosto de dormir até ao meio-dia ou uma da tarde, e só começo a ficar vivo aí às onze da noite, quando toda a gente vai dormir. Escrevo a maior parte das minhas canções por volta das três da manhã, porque sinto que sou a única pessoa do mundo. E depois o meu gato aparece a dizer, “alimenta-me, alimenta-me” e eu mando-o passear. (risos)
Existe uma certa imagem que passa de si de boémio, diletante e dado a excessos dentro de uma imagética de Nova Orleães. Até que ponto corresponde à verdade?
Bem, em primeiro lugar já não vivo em Nova Orleães, mas em Los Angeles. O que só acontece porque deixo de ter controlo sobre mim próprio lá. Esse tipo de vida só acontece lá, porque não preciso de carro, conheço toda a gente, nunca pago nada, e os sítios à noite não fecham. Podia ir a cinco restaurantes onde como de borla, tal como bares...Passei lá tanto tempo, tenho tantos amigos e pessoas que gostam de mim...
Dizia que se colocaria a hipótese de nunca mais vir a fazer música.
Posso possivelmente nunca mais gravar discos, não sei. Na verdade estou a trabalhar no próximo disco dos Twilight, mas talvez haja um dia em que decida parar. Mas não sei, estou sempre a tocar, pego sempre numa guitarra. O bairro onde moro é essencialmente mexicano e de momento estou a ensinar o filho do meu amigo Lopez a tocar guitarra. E sabe que mais? Este miúdo tem sete anos e ensinei-o a tocar o “Heroin” dos Velvet Underground. (risos)
Como foi possível trabalhar com tantos músicos, convidou-os para as gravações porque sabia que os queria especificamente numa canção, ou eles apareciam simplesmente e as coisas decorriam a partir daí?
Aconteceram as duas coisas. Conheço bem todos e cada um dos músicos, são todos meus amigos. E o melhor em fazê-lo desta forma era que sabia que numa canção como “Feathers” queria que a bateria soasse como a dos Meters, daí que tivesse escolhido o melhor baterista de Nova Orleães, Stanton Moore dos Galactic. Ele é meu amigo, veio até ao estúdio e tocou aquela parte específica o que demorou aí dez minutos. É algo que não tenho de explicar a uma pessoa quando sei que a pessoa tem uma força particular enquanto músico, e se sei que a posso utilizar numa canção minha, convido-a. Mas toquei quase tudo.
Inclusive bateria, instrumento do qual desistiu logo no início da sua carreira, formando depois os Afghan Whigs porque dizia que não gostava de ter de olhar para o rabo do vocalista.
Exactamente. Gosto de tocar bateria e nem sou um mau baterista. Mas num concerto não quero estar lá atrás, quero estar lá à frente, quero que reparem em mim, que vejam a minha camisa preta nova.
Para o “Twilight As Played By The Twilight Singers” disse que se inspirou no imaginário de uma velha e literária Nova Orleães. Houve algum ambiente específico que tenha inspirado “Blackberry Belle”?
Bem, de certa forma, sim. “Blackberry Belle” tem metade de Los Angeles, metade de Nova Orleães. São ambas cidades fumarentas, marotas, e são as minhas duas cidades favoritas. Tive sempre imensos ídolos de cinema em Los Angeles como o James Elroy, John Fontaine..., o que me fez sempre ter a cidade em grande conta. Mas todo o meu passado em realização, até porque faço sempre discos da forma mais cinemática possível, encontra um sentimento de ancestralidade em Nova Orleães, que tive só quando fui a Marrocos. Para mim é a junção perfeita, consigo ouvir Los Angeles e Nova Orleães no disco.
Quanto da sua escrita se repete de álbum para álbum, de projecto para projecto? Há personagens recorrentes quando escreve as letras, duma forma cinemática?
Sabe que mais? Há personagens do “Congregation” em “Blackberry Belle” e não direi qual. Também algumas do “Gentlemen” e do “Black Love”, que talvez sejam eu, talvez não. Mas nunca lhe diria porque agora são suas. Poderia chegar ao pé do Prince e dizer-lhe o que ele quis dizer com o “When Doves Cry”, e ele dir-me-ia não, não. Mas eu continuaria a não estar errado, porque ele deu-me aquela canção, e pode ser sobre aquilo que eu quiser.
São personagens sem nome?
Nunca têm nome.
Essa componente cinemática dos seus discos é deliberada?
Sim, este disco foi diferente contudo. Quando escrevi os outros discos sabia qual seria a primeira e a última canção. Para este sabia apenas qual seria a última canção. Todas as últimas canções dos meus álbuns são épicas, porque é o fim, e o fim tem de ser O FIM. Contudo, “Martin Eden” foi a última canção que escrevi e no disco é a primeira. E a que era para ser a última canção, “Esta Noche”, acabou por ser a segunda. (risos) Agora descubram porquê. (risos)
Como foi o processo de gravação de “Blackberry Belle”, fazia demos que depois mostrava aos restantes músicos?
Já não faço demos. Uso gravadores de oito pistas, vou gravando por cima, quando vejo que as canções precisam de profissionais, começo a trazer as pessoas, e eles já sabem como a canção soa.
E tem já uma ideia prévia de como quer que a canção soe no final?
Sim, tenho-a na minha cabeça, é um pouco como um rapper negro muito famoso, que nunca escreve nada, e há imensas palavras no rap! De certa forma, também raramente escrevo as coisas, elas começam a ganhar forma na minha cabeça, é a minha forma de fazer música.
Acha que existem elementos auto-indulgentes nas suas músicas, um pouco como se criasse uma imagem de si mesmo numa descida neurótica a uma relação conturbada?
Primeiro, para responder à primeira parte da pergunta, a arte, em si mesma, é auto-indulgente, tem de ser, pois é feita através de ou para o indivíduo, enquanto um colectivo ou grupo que se envolve de forma individual na mesma obra. É auto-indulgência, ego, vaidade, tem de se aceitar esse facto. E qualquer uma dessas coisas é enorme em mim. E faço-o de uma forma que não é apologética. Quando escrevo uma canção é porque a tenho de escrever, não quero, tenho.
Sente falta de um certo toque rock dos Afghan Whigs, ou está musicalmente a fazer exactamente aquilo que queria?
Estou a fazer exactamente o que queria e digo-lhe mais: “Teenage Wristband” é rock puro e duro, “Decatur St.” é rock puro e duro, “Papillon” é rock puro e duro...
Mas não sente falta de tocar com os membros dos Afghan Whigs?
Tive quinze dos meus melhores anos com a melhor banda do mundo. Quando saíamos do palco pensávamos que os Rolling Stones podiam ir dar uma curva. Para mim isso é rock, e toquei rock na melhor banda de rock que alguma vez vi. Adoraria ter visto um concerto nosso, enquanto público, adoraria. Aposto que me teria divertido imenso. Uma vez que começava a tocar era difícil acabar.
Pensa que o facto de os Afghan Whigs nunca terem alcançado reconhecimento por parte de um público mais vasto se deve em parte ao facto de ser uma persona non grata para a imprensa?
Penso que a Sinéad O’Connor disse tudo quando disse que não quer aquilo que não tem.
Como escolheu, entre tantos músicos, aqueles que estão em digressão consigo?
Bem, primeiro tinham de ser de Los Angeles onde estou a viver, não estava para pagar bilhetes de avião. Toda a gente vive em Los Angeles, são todos meus amigos, e músicos muito versáteis. Toda a gente na banda sabe tocar mais de um instrumento, toda a gente sabe cantar.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 17)
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