Os Twinemen, constituídos pelos ex Morphine Dana Colley e Billy Conway, e pela cantora Laurie Sargent, actuam hoje à noite em Coimbra. Seguem-se espectáculos em Porto e Lisboa. Na bagagem trazem "Twinemen", a sua estreia discográfica homónima que coloca a banda na fronteira entre a herança e a vanguarda. Dana Colley em entrevista.
Considera os Twinemen um legado vivo daquilo que os Morphine conquistaram na música? Porquê (por que não)?
Os Twinemen são uma continuação daquilo que tanto eu como o Billy [Conway, baterista] sentimos ser uma abordagem à música. O ponto de encontro das nossas experiências na música e da nossa experiência de vida. E tudo o que constituiu uma influência tem um reflexo na nossa música. O legado existe no que diz respeito às nossas expressões individuais e à necessidade de continuar a criar.
Como lidam com as naturais associações que as pessoas fazem entre os Twinemen e o vosso passado nos Morphine?
Não me incomodam de maneira nenhuma. Sinto que somos mais conhecidos pelo nosso trabalho nos Morphine e isso é algo de que nos orgulhamos. Aceito bem essa associação, é natural que aconteça.
O Mark Sandman está, de alguma forma, presente no vosso disco de estreia?
Quando estás numa banda, partilhas muitos aspectos da vida com os outros membros. O Mark estará sempre presente na minha música porque aprendemos uns com os outros. Isto é algo que não desejo esquecer ou rejeitar de modo nenhum.
Onde conheceram a Laurie Sargent? O que pensa da sua voz e do seu trabalho?
Conhecemo-la através do Billy. Ela teve uma enorme importância no nosso processo de cura quando o Mark desapareceu. Ela também me incentivou a cantar e tem sido, desde sempre, uma instigadora de grande importância no processo criativo que viria a tornar-se nos Twinemen.
A Orchestra Morphine formou-se em 2000. Por que motivo foi extinta?
Fizemos uma digressão pelos Estados Unidos e o objectivo era regressar a Palastrina, na Itália, para integrar o festival Nel Nome del Rock, onde o Mark havia falecido no ano anterior. Depois de cumprirmos isso, sentimos necessidade de fazer uma pausa. Não queríamos comprometer a intenção do nosso tributo ao irmos longe demais. Era necessário começar algo novo. Não quero com isto dizer que a Orchestra Morphine não possa reaparecer.
Os Twinemen gravaram as canções do álbum no estúdio Hi-N-Dry, onde os Morphine chegaram a trabalhar. Há alguma razão, para além do óbvio, para que isto acontecesse?
O Hi-N-Dry era não só o local onde gravámos com os Morphine mas também onde o Mark vivia. Era importante para o Billy e para mim próprio recuperarmos a energia que partilhámos neste espaço. O estúdio funciona também como um centro comunitário para muitos músicos locais, muitos dos quais têm uma relação pessoal com os Morphine e com o Mark. A razão óbvia é que é esse o nosso lar e é onde sentimos maior controlo sobre a nossa expressão artística.
Um dos vossos temas, 'Harper & the Midget', é inspirado numa história do escritor sulista Lewis Nordan. Possui escritores de referência?
O tema 'Harper & the Midget' é vagamente baseado numa história de Lewis Nordan. Nós estávamos a improvisar e a Laurie estava a ler passagens desse livro e o tema da obra encaixava-se naquela música. A minha escritora preferida é Isabelle Allende.
Na maior parte do disco, a vossa música é mais luminosa e fresca que no passado com os Morphine. Onde encontraram a força para seguir em frente?
Se és um carpinteiro, constróis casas. Se és músico, fazes música. É mais do que um título, é o que tu és. Parar é deixar de existir.
O Dana e o Billy partilham os créditos vocais em duas canções, o que não acontecia nos Morphine. Pode explicar esta mudança de atitude?
Não é uma questão de atitude, apenas uma oportunidade.
Porque decidiram incluir os desenhos do Mark em toda a extensão gráfica do disco? O que representam eles?
Os desenhos foram a fonte de inspiração para o nome da formação. São uma tira de banda desenhada que o Mark criou. Três homens unidos por laços, que vivem, comem, dormem e respiram em conjunto. Assim foi a nossa vida nos Morphine e, por isso, mesmo, com qualquer pessoa que venha a colaborar connosco. É uma forma de te dares ao todo ao ponto das vidas do conjunto se tornarem inseparáveis.
Helder Gomes