Por ocasião do lançamento do segundo disco (“To Find Me Gone”) e do regresso a Portugal (Lisboa a 16, na Zé dos Bois e Porto a 17, na Casa da Música), Andy Cabic, mentor dos Vetiver, fala à Mondo Bizarre daquilo que marca o seu ritmo e o ritmo de um dos projectos mais interessantes do novo country-folk americano, que em 2006 se afirma em pleno. Uma personalidade e uma banda muito próprias, que não precisam de viver, e não vivem com certeza, à sombra do amigo, companheiro de lides musicais e “estrela” Devendra Banhart. Um disco e um concerto que não podem passar ao lado de que aprecia a beleza no seu estado mais puro.
O que mudou do primeiro disco para este segundo, nomeadamente no que diz respeito ao alinhamento da banda?
O novo disco tem mais arranjos e pessoas diferentes a tocar, como por exemplo Kevin Barker e Otto Hauser, que andaram em digressão com os Vetiver, assim como um quarteto de cordas em algumas canções e o nosso bom amigo Farmer Dave no pedal steel. O álbum foi delineado da mesma forma que o primeiro, mas com mais nuances e dimensões, devido ao talento destas novas personalidades.
No início, muitos críticos de música disseram que os Vetiver eram um projecto paralelo de Devendra Banhart, mais do que um projecto de Andy Cabic onde o seu amigo Devendra marca presença. Como é que se sente em relação a isto?
Nem uma coisa nem outra. Os críticos dizem impunemente aquilo que querem e não se preocupam muito com a pertinência e a veracidade daquilo que afirmam. Todas as bandas e artistas são vítimas deste tipo de coisas. Com o passar do tempo e com um entendimento mais claro e informado, as pessoas poderão ouvir e discernir as diferenças entre projectos e sonoridades por si próprias, sem ter de recorrer a definições ou imposições de outros. Eu adoro tocar com o Devendra e sempre dei o devido valor à sua presença e às suas ideias.
Este problema com os críticos tem alguma coisa a ver com a ausência de Devendra neste disco?
Não. Começámos a trabalhar neste disco dois meses depois de acabarmos “Cripple Crow”, na altura em que o Devendra estava envolvido na preparação da produção, do design e das fotos. Ou seja, estava de mãos cheias. Os Vetiver não são um grupo fixo mas sim um projecto fluído que gira em torno das minhas canções, onde eu junto diferentes amigos que trabalham comigo quando temos todos disponibilidade para isso. Quando o Dev está disponível participa, e quando não está, não participa.
Isto para dizer que “To Find Me Gone” parece ter um toque mais pessoal de Andy Cabic do que “Vetiver”. E também se expande musicalmente em mais direcções. O que pensa sobre isso?
Eu tento perceber como é que um álbum pode ter mais o meu toque do que outro, já que fui eu que escrevi e cantei todas as canções e fui eu que desenvolvi ambos os discos do princípio até ao fim. Talvez apensas se estejam a ouvir diferentes estilos da minha forma de escrever, pensar e criar arranjos, que são mais “eu” do que outro “eu”. E diria que essa é uma abordagem simplista e que pouco ou nada contribui para descrever os Vetiver. Pode de facto haver mais “Andy Cabic” neste disco, no sentido em que há mais músicas escritas e cantadas por mim, mas no que ao toque pessoal diz respeito, não sei... “To Find Me Gone” tem definitivamente uma paleta de sonoridades mais abrangente e representa aquilo que eu descreveria como uma dimensão sonora mais rica. Isso deve-se a uma série de coisas, em que nenhuma delas se sobrepõe à tentativa de capturar performances e misturá-las de forma a criar um disco que fosse um passo em frente em relação ao anterior.
À primeira, “To Find Me Gone” soa mais minimal que “Vetiver”, mas à medida que vamos ouvindo, o disco é na realidade mais orquestrado e alegre, como acontece em temas como "Idle Ties" ou "Won't Be Me". Isto corresponde de alguma maneira a uma intenção sua?
Sim. Maximizar o minimalismo é algo que eu gosto de fazer. As duas canções que menciona são as mais “upbeat” do disco, e "Idle Ties", se não estou enganado, tem mais instrumentação do que qualquer outro tema. Mas isso não significa que tenha sido esse o objectivo. Procurámos fazer cada tema viver de uma forma completa e por si, mas sem que nenhum se sobreponha aos outros. O produtor Thom Monahan merece a maioria do crédito por isso, já que ele é extremamente profissional e talentoso a produzir mixes completos e balanceados, onde se conseguem ouvir todos os detalhes, mas onde nada se sobrepõe.
Uma vez ouvi-o dizer que apesar das suas raízes estarem na música folk, podia experimentar sons mais sónicos se isso se proporcionasse. É "Red Lantern Girls" uma primeira aproximação de Vetiver/Andy Cabic ao “noise”?
Eu disse isso? Não sei se realmente tenho raízes particulares na música folk, ou pelo menos mais do que tenho em qualquer outro género musical. A minha forma de escrever não exclui à partida nenhum estilo. Tudo o que for útil, eu utilizo. Se o “noise” se apresentar como uma solução, eu utilizo-o. Tento não pensar em termos de “esta canção neste estilo”. Prefiro ter diferentes estilos em diferentes momentos da mesma canção, por vezes de forma dissimulada e por vezes de forma óbvia, como acontece em "Red Lantern Girls".
Porque é que sentiu a necessidade de recuperar duas canções do passado ("Been So
Long" e "Maureen"), que já figuravam no EP “Between”?
Não sei até que ponto essas canções estão para mim “no passado”. As versões que figuravam em “Between” eram muito simples e imediatas. A versão de "Been So Long" foi gravada de uma vez, em cerca de 20 minutos. Foi um esboço ao qual eu me afeiçoei e que decidi incluir nesse EP que foi editado para coincidir com a digressão. A versão de “Maureen” em “Between” é uma gravação ao vivo da segunda vez que toquei essa canção, e com amigos que só a tinham ouvido no próprio dia ou no dia anterior. Como gostei da simplicidade do som cru e do sentimento que a canção emanou na altura, decidi incluí-la no EP. Nunca senti que nenhuma das duas versões estava acabada e sempre foi minha intenção passar mais tempo com elas e gravá-las de novo para este álbum. “Between” foi apenas, como o próprio nome indica, algo de transitório e parcial, tal como o foram as versões dessas duas canções.
Quem são os seus “heróis” musicais e de onde vem a sua inspiração musical?
Eu encontro inspiração numa série de coisas, desde as histórias de Jaime De Angulo à maravilhosa vista da Bay Área, passando pela música e pela arte dos meus amigos. Os desenhos de Colter Jacobsen, as t-shirts de Adam Tully, as gravuras de Will Lemon, as esculturas em madeira de Sanders Trippe. E tenho tantos “heróis” musicais: Bobby Charles, JJ Cale, Haruomi Hosono, Michael Hurley, Jerry Jeff Walker, Neil Young, Virginia Astley, Lindsey Buckingham, Erasmo Carlos, Ronnie Lane, David Cunningham… Tantos, tantos…
Tive o prazer de ver e ouvir os Vetiver na vossa primeira visita a Lisboa. Poucas pessoas e um concerto muito intimista. O que vai ser diferente desta vez?
O alinhamento é completamente diferente, excepto por mim e pelo Otto Hauser na bateria. O Sanders Trippe canta e toca guitarra. O Brent Dunn toca baixo. Vamos tocar músicas de todos os discos, assim como algumas versões. Vai ser um concerto um pouco mais rockeiro e eléctrico, mas não vamos deixar de lado os temas mais calmos e “íntimos”. Vai ser um concerto para todos os gostos.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre - Setembro 2006)