Entrevistas
VÍTOR JUNQUEIRA
NARRADORES DA DECADÊNCIA (Quasi Edições=
As gravações pirata de concertos, os recortes de jornais e revistas e o espírito de coleccionador de selos na conservação de raridades e inéditos são marcas de quem faz da música um habitat natural. A estes traços pode juntar-se a edição de livros, biográficos ou não, um fenómeno que, no nosso país, ainda não cresceu o suficiente para ser classificado enquanto tal. Para já, “Narradores Da Decadência” fala das linhas com que os Mão Morta se cosem. Vítor Junqueira é o alfaiate e assina por baixo.

A edição da biografia "Narradores Da Decadência" parece cumprir um "timing" muito preciso, ao servir de complemento a "Nus", o mais recente disco dos Mão Morta. Mas não foi assim que as coisas se passaram. O que aconteceu?
Acaba por ser não mais do que uma coincidência. Ao longo do tempo em que fui reunindo material e escrevendo o livro, fomos estabelecendo um prazo que veio a ser constantemente adiado, essencialmente por minha culpa, até ao momento em que achei que não podia, nem devia adiar mais, ao que veio ajudar o interesse entretanto manifestado pelas Quasi Edições.

Como surgiu a ideia de escreveres a biografia "da mais fascinante banda de rock em Portugal", como apontas no Posfácio?
Penso que a génese da ideia estará na primeira biografia – um pequeno texto – que escrevi há cerca de sete ou oito anos, quando comecei a fazer o site, pouco tempo depois tornado oficial, dos Mão Morta. Foi um trabalho de pesquisa de informações escritas (uma imensa pilha de jornais Blitz, entre outros, que guardava em casa), de memórias (as minhas e as dos meus amigos) e até mesmo de gravações pirata de concertos que então coleccionava. Desde então tenho vindo a alimentar essa mini-biografia, que já tem servido de press-release do grupo, com o relato dos anos que vão passando. Mais tarde, veio a ideia de fazer algo mais desenvolvido. Encontrei um jornalista à porta de uma loja de discos com biografias de outros dois artistas da música portuguesa, sugerindo-me ele que fizesse algo do género com os Mão Morta. Daí até à colocação em prática da ideia não decorreu muito mais e comecei então a reunir material e a encontrar-me com inúmeras pessoas para escrever este livro.

O jornalista Mário Lopes traçou, nas páginas do Diário de Notícias, um interessante paralelo e uma necessária destrinça entre o teu trabalho e o do Miguel Esteves Cardoso e a sua "Escrítica Pop". Em "Narradores Da Decadência", consegues, em diversas passagens, cumprir o milagre do distanciamento, paradigma fundamental do jornalismo. Foi algo a que te obrigaste desde o início?
De certa forma, acho que procurei ficar a meio caminho entre a narração pura dos factos e a excessiva exteriorização do lado emotivo que um admirador profundo da obra do grupo em causa poderia aqui assumir. Se a primeira seria potencialmente maçuda, a segunda seria porventura demasiado pessoal, já que o livro pretende abordar o fenómeno Mão Morta, não apenas a forma como o fenómeno Mão Morta me afectou enquanto ouvinte, enquanto pessoa. Procurei portanto esse compromisso. Não tenho nada contra o "Escrítica Pop". Bem pelo contrário, pois acho que é das publicações mais interessantes, à volta do tema música, que já saíram em Portugal. Qualquer um se deleita a ler os textos do Miguel Esteves Cardoso (bom, desde que não abordem política). Só que aí o protagonista acaba mesmo por ser o MEC, não importa se ele escreve sobre os Simply Red ou sobre o Kid Creole. Em "Narradores Da Decadência", os protagonistas são os Mão Morta.

Sentiste que a caneta era acometida demasiadas vezes pela "síndroma do historiador"?
Não faço ideia se existirá na realidade essa síndroma entre historiadores e arqueólogos, conforme escrevo no posfácio do livro, mas aproveitei-me da expressão para fazer passar a ideia de que, por diversas vezes, senti o desejo de poder ter testemunhado ao vivo algumas das situações que me foram sendo descritas pelas pessoas ou lidas nos apontamentos de imprensa. Ver Auaufeiomau ao vivo, por exemplo (dos quais tinha uma gravação pirata que nunca mais ouvi desde que a emprestei há alguns anos ao Adolfo). Ver o primeiro concerto dos Mão Morta, no Porto. Assistir ao mais famoso concerto do grupo no Rock Rendez-Vous. As pessoas descrevem-me sempre estas histórias com um entusiasmo ou com um choque tal que eu gostaria de as ter presenciado.

"Narradores Da Decadência" também vive de conversas com contemporâneos dos Mão Morta. Qual a passagem mais óbvia ou mais interessante que gostarias de destacar desse levantamento de testemunhos?
Uma das pessoas com quem mais gostei de falar foi o Joaquim Pinto, o baixista fundador do grupo. É, conforme digo por mais de uma vez no livro, uma daquelas pessoas das quais emana um certo magnetismo difícil de explicar. À partida, até porque não houve tantos encontros quanto isso, preenche, para um lisboeta com raízes no Norte como é o meu caso, a figura de um bom minhoto, bem disposto e cheio de amigos. Pode não relatar os factos com a mais precisa das memórias, mas não deixa de cativar o ouvinte com a forma bem-disposta com que se lembra do passado. De resto, todas as pessoas com que falei, desde elementos do grupo, do presente e do passado, a amigos, companheiros de estrada, etc., foram bastante prestáveis.

Enquanto webmaster do site oficial dos Mão Morta, consegues imaginar esta biografia transposta para a Internet? Que contrastes sentes entre a escrita tradicional e a escrita do ciberespaço?
Esta biografia tem, se quisermos, e conforme respondia numa pergunta anterior, a sua génese num texto que foi – e continua a ser – feito para o sítio dos Mão Morta. Não sei se fará sentido "Narradores Da Decadência" estar na internet, pelo menos para já. A história dos Mão Morta merece, na minha opinião, a dignidade de poder estar num objecto que é tão pouco utilizado no panorama musical português, o livro.

O texto é complementado, a dada altura, por uma série de fotografias. A imagem tem, hoje e sempre, uma relevância decisiva no mundo da música. Qual é a tua percepção da evolução da imagem dos Mão Morta desde os primórdios?
A preocupação dos Mão Morta com a sua imagem continua a ser a mesma. Desde o início que um concerto de Mão Morta é mais do que música, invocando na maior parte das vezes elementos performativos e cenográficos que oferecem aos espectáculos outras dimensões além da sonora. Este jogo continua a ser feito tanto de preparações cuidadas como de improvisos ou até mesmo de meros acasos, de situações não previstas. Tal como há 10, 15 ou 20 anos. E, mais uma vez como no início, é um trabalho que é fruto da colaboração de muitas pessoas que vão circulando em redor do grupo, com as suas ideias, conhecimentos, etc.

Mas as palavras também sugerem imagens e tu recuperas um pouco as imagens que integram o universo dos Mão Morta. Partilhas desse imaginário? Consegues identificar nas tuas referências artísticas (literatura, música, cinema) um empurrão dos Mão Morta?
Há referências comuns que vieram antes, outras que cresceram mais ou menos em paralelo e, sim, de facto, há outras que foram adquiridas através dos Mão Morta ou, se quisermos, em que os Mão Morta serviram de pretexto para conhecer um pouco mais e, sendo caso para tal, embrenhar-me nesses assuntos. Não conhecia, por exemplo, o poeta e dramaturgo Heiner Müller antes de saber que o Adolfo andava a preparar um trabalho à volta dos textos deste.

O que mudou na forma como olhas os Mão Morta com o passar dos anos?
É difícil, porque com o passar dos anos fui ganhando uma certa intimidade com a "família" Mão Morta que eu seguramente nunca imaginaria quando tinha 15 ou 16 anos e ouvia o primeiro álbum. Se tentar alhear-me disso, creio que continuo a ver um concerto com a mesma intensidade psicológica (e física) com que via há dez ou mais anos, tal como ouço os novos discos com o mesmo entusiasmo com que ia ouvindo os anteriores à medida que saíam. E o "Nus" é um daqueles discos tremendos...

A biografia de bandas é um género que timidamente se vem implementando no nosso país. Qual é a importância de casas editoriais como a Assírio & Alvim e a Quasi no mercado livreiro português?
Tanto quanto sei, a Assírio & Alvim teve um papel importante no passado, que agora parece querer recuperar. O trabalho da fotógrafa Rita Carmo não deixa de ser inédito, o que, em conjunto com as óptimas fotografias que estão naquelas páginas, torna bastante curiosa esta iniciativa da A&A. As Quasi Edições têm também desenvolvido um trabalho notável nesta área, tanto mais quando conhecemos o panorama habitual de edições à volta do tema música. Depois do "Estilhaços", do Adolfo, dos livros de Caetano Veloso ou da Adriana Calcanhotto, entre vários outros, está para breve a edição de um livro com as letras do Jorge Palma. E isto tem tudo acontecido num espaço muito reduzido de tempo. O Nuno Galopim prepara-se igualmente para lançar a biografia do Sérgio Godinho. O "Escrítica Pop" teve enorme sucesso na reedição que foi distribuída via Blitz. Tudo isto é muito positivo.

Como tem sido recebida a biografia entre a comunidade crítica e os simples admiradores da banda? Recebes muito feedback?
Na generalidade, têm sido óptimas as reacções. Através da mailing list dos Mão Morta, encontro com alguma frequência ecos positivos tanto nos novos admiradores do grupo como naqueles mais antigos. Isso deixa-me contente, claro. Também tenho tido reacções excelentes da parte de jornalistas de há quinze e vinte anos atrás, que viveram o fenómeno Mão Morta nessa altura (e que, por isso, cito em certas partes do livro), o que só me pode deixar feliz. Era provavelmente o derradeiro exame que o livro necessitava e parece que passou. Isso não invalida que eu seja o primeiro crítico do que ali está, mas aqueles dias de angústia vividos até à data de edição parecem estar agora mais longe.

Tens mais planos deste tipo na forja?
Tenho ideias muito vagas. Seja como for, a forja está muito fria e não faço tenção de lhe reavivar o lume nos próximos tempos. Estes trabalhos são cansativos. Talvez daqui a vinte anos saia algo mais...

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 19)