THE VON BONDIES
Cuidado! Primitivos Barulhentos
Se Von Bondies é um nome estranho (dedicado ao James? Aos Von Trapps?), a música que fazem não o é. A linguagem é conhecida - arriscamos rock'n'roll -, mas, neste caso, sem genealogia definida. Há por ali garage, psycho, punk, um cheirinho a new-wave, uma aproximação ao swing. E, pairando, uma forte reminiscência dos blues, toda ela na voz do insatisfeito Jason Stollsteimer. “Lack of Communication”, produzido por Jack White, é o álbum de apresentação. E, obviamente, recomenda-se.
Inicialmente chamavam-se The Baby Killers, mas rapidamente abandonaram a designação por The Von Bondies, baptismo menos sanguinário. Depois de dois singles, “It Came From Japan” e “Nite Train”, que os destacaram na cena musical de Detroit, o álbum de estreia, “Lack Of Communication”, aumentou os focos de interesse. No inlay, do disco, em letras pequenas, lia-se “Produced by Jack White”. Numa altura em que tudo o que diga respeito aos White Stripes é alvo de atenção redobrada, tais palavras aguçaram o apetite pela sua música - ainda para mais depois de embarcarem com os autores de “White Blood Cells” numa bem sucedida digressão europeia. Contudo, diminuir os Von Bondies à ligação aos Stripes é injusto. “Lack of Communication” não sabe a cunha, não tem nada de hype. É um conjunto de onze canções onde o rock’n’roll se cobre de um negrume peculiar. Screamin’ Jay Hawkins retém o gosto pela noite, abandona a magia voodoo e rejuvesnesce. Mas não se alegra. Aliás, aborrece-se de morte. Com a monotonia do quotidiano, das “one night stands”, das bebedeiras... “Me and my brother ain’t got no sister / Just a bother at home”, canta Jason Stollsteimer. A voz tem tonalidade semelhante à de Jack White, mas é atirada com uma agressividade angustiada que está ausente da metade masculina dos White Stripes. Marcie Bolen (a guitarrista que também canta a faixa escondida do álbum, “Bring It On Home to Me”, original de Sam Cooke), a baixista Carrie Smith e o baterista Don Blum põem, enérgicos, a máquina em movimento, Stollsteimer junta-lhe uma guitarra em ebulição e o grito saído das entranhas. Uma combinação de forças irresistível. Dela nos falou o vocalista dos Von Bondies, um habitante peculiar de Detroit, a meio da sua digressão americana mais recente.
Ao ler sobre os Von Bondies, nos artigos publicados na imprensa, há algo que, desde logo, nos chama a atenção. A banda é liderada por Jason Stollsteimer que, muito provavelmente, será o único músico de Detroit sem qualquer disco dos Stooges ou MC5 na sua colecção. Como é que conseguiu passar mais de vinte anos na Motor City sem comprar o “Kick Out the Jams” ou o “Funhouse”?
Comprei o meu primeiro disco dos Stooges há duas semanas atrás... Eu sou mais um homem da soul. É dela que é composta a maior parte da minha colecção de discos.
Estou portanto a falar com o gajo “Detroit-Motown” e não com o gajo “Detroit-garage-rock”?
Algumas coisas da Motown são porreiras, mas outras, pela produção em série e tudo isso, acabam por soar um pouco “cheesy”. Agrada-me mais uma Stax; um Otis Redding, Sam Cooke, Wilson Pickett... Voltando atrás, não foi com os Stooges e MC5 que comecei a ouvir música. Claro que gosto de tudo aquilo, mas não é uma relação de longa data. Por aqui, toda a gente me está sempre a dizer: “Oh! Tens que ter os Stooges”. Gosto de algumas canções, não sei é o nome de nenhuma delas. Aliás, nem sei quem são os membros das bandas, para além do Rob Tyner e do Iggy Pop, que são aqueles de quem toda a gente fala.
Reunindo o que me diz agora com o que se ouve em “Lack of Communication”, fico com a ideia que Detroit não é uma inspiração positiva para a música que faz. Dizendo-o de outra forma, sente-se no álbum um sentimento de opressão pelas “vistas curtas” da cidade que, isso sim, parece fornecer o estímulo para a música criada.
Foi exactamente o que aconteceu com os Stooges e com os MC5. Foram inspirados pelo que se passava à volta deles, não por aquilo que outra banda tivesse feito há alguns anos atrás. Foi a sua própria depressão que inspirou aquilo que criaram. Experimenta vir a Detroit... Não há muita coisa a acontecer. É a concha de uma cidade velha e bonita, de onde, todos os anos, saem milhares de pessoas. E ninguém vem morar para cá. Fui idiota em ir para Detroit quando era mais novo (risos).
Essa não é, de todo, a ideia que se tem da cidade nesta altura. Com os focos da cena musical apontadas para Detroit, há uma imagem vibrante e estimulante, cristalizada pelo branco e vermelho dos White Stripes.
Nada disso. Nós, que somos uma das bandas mais novas, já tocamos há cerca de três anos e meio. Os Dirtbombs já por aí andam há quase dez; os White Stripes, há seis ou sete; os Detroit Cobras, há dez ou onze. Toda a gente, aparte nós e os White Stripes, anda há uma década a tocar as mesmas canções.
Pegando no item White Stripes. “Colado” aos Von Bondies surge sempre a referência a Jack White, que produziu “Lack of Communication” e vos levou como banda suporte de uma das suas digressões europeias. Pensa que a ligação é um presente envenenado? Por um lado, dada a notoriedade actual dos White Stripes, chama a atenção sobre os Von Bondies; por outro, dá a ideia a algumas pessoas que a vossa ascenção só foi possível como “protegidos” de Jack White.
Acho que isso já não acontece. Já fizemos mais digressões depois da primeira [digressão] europeia com eles. As pessoas já sabem quem somos. Apareceram nos concertos e gostam da nossa música, independentemente de serem ou não fãs dos White Stripes. Aliás, mesmo aquando da digressão com eles havia gente que não era particularmente fã dos White Stripes. Iam lá para nos ver.
Então, para esclarecer as coisas, qual foi exactamente o papel de Jack White na vossa carreira até ao momento?
Nenhum.
Mas ele produziu o álbum. Não haverá algo dele em “Lack of Communication”?
(pausa) Sim, está lá escrito que ele o produziu, mas o Jack White, nessa altura, era para nós aquele gajo que estava em todos os nossos concertos. Em todos eles víamos aquele gajo louro - na altura tinha cabelo louro - que, no final vinha dizer-nos o quanto gostava da nossa música. Nem sabia que ele tinha uma banda. Era um gajo que gostava de nós e que me pediu para produzir o nosso álbum. Dissémos-lhe que o podia fazer, mas, na realidade, não houve um grande trabalho de produção. O que não invalidou, claro, que o creditássemos no fim como produtor. De certo modo, foi essa a sua contribuição. Mas quando isso aconteceu os White Stripes não teriam vendido mais de mil cópias e nunca imaginámos o que se iria passar depois, quando toda a loucura à volta deles começou a surgir. Até aí ninguém tinha ligado ao nosso produtor, a partir desse momento, passou a ser referência obrigatória.
Da nova vaga de bandas de Detroit, onde incluíria, para além dos White Stripes, gente como os Come Ons ou os The Go, os Von Bondies parecem os mais “negros”. A vossa música parece respirar um certo perigo misterioso suscitado pelo imaginário nocturno. “Lack of Communication” faz mais sentido ouvido à meia-noite?
Penso que sim. A minha mãe fica muito preocupada. “Porque é que não escreves uma canção feliz”, pergunta-me. “Mas eu não estou feliz, mãe...”. Mesmo quando estou em digressão, passo o tempo todo a desejar voltar a casa. E quando estou em casa, sento-me a escrever música sobre o quanto não quero estar ali naquele momento.
Parece que tem de decidir o que prefere fazer...
Sim, sim, já o estou a fazer... Na verdade, ontem fiquei entusiasmado pela primeira vez desde que a banda começou. Nos últimos tempos andámos um pouco deprimidos porque ninguém nos oferecia um contrato. Mesmo as independentes não pareciam interessadas em ajudar-nos a lançar o segundo álbum. Ontem ficou tudo acertado. Devemos ter um contrato assinado em breve.
Com quem?
Não te posso dizer. Mas vais ouvir falar do assunto. Posso adiantar que é uma editora antiga que assinou algumas das melhores bandas de todos os tempos; um monte delas de Nova Iorque [NR: a banda assinou, no final de Outubro, um contrato para dois álbuns com a Sire Records]. Depois daquele período de depressão, estamos mesmo orgulhosos. Andávamos a viver dos cachets dos concertos, o que é bastante complicado, principalmente se estás na Europa.
Mas a recepção do público foi boa. Pelos menos, assim rezam as crónicas disponíveis.
Era tudo muito caro, mas sim, correu bem. Só não esgotámos a lotação de quatro salas, e, ainda assim, estávamos lisos quando a digressão acabou.
Na vossa música, apesar do reconhecimento de várias influências - dos Cramps a Screaming Jay Hawkins --, aquilo que persiste sobre todas elas são os blues, não são? É um quotidiano aquilo que canta. E, normalmente, são histórias de uma vida azarada, plena de desgostos amorosos, que, espécie de confirmação, encontram expressão, numa canção como “Nite Train”, em canto que rememoria o Howling Wolf de “Smokestack Lightning”...
É tão bizarro ouvir isso. Não tenho discos nenhuns de blues. Nada de John Lee Hooker, Howling Wolf, Robert Johnson ou Leadbelly. Gostava de saber de onde vem a semelhança... Talvez da depressão. É disso que falam os blues.
“Lack of Cummunication”, sendo um álbum Von Bondies, tem a sua assinatura.
É o “destroçar do seu coração” que ali ouvimos, é a sua bílis que é cuspida. Isso aconteceu neste álbum em particular, por ter muito para pôr cá fora, ou o papel de compositor principal é de facto aquele que lhe está destinado na banda?
O primeiro álbum foi totalmente composto por mim, mas no segundo já vais ver os restantes membros contribuírem mais musicalmente. Liricamente não me parece que o façam. Eu pedi-lhes mas, até agora, não escreveram nada. Normalmente ponho em mim próprio a pressão de escrever música. É bom ser exigente ao máximo. E a questão não é aperfeiçoar para aproximação ao público, é dizer a verdade, exactamente como a vês. Pode não ser como toda a gente a vê, mas, de qualquer maneira, também não podes ser toda a gente.
Na canção “It Came From Japan” canta “We all hail / Hail rock’n’roll”. Como definiria esse tal rock’n’roll?
Essa canção foi escrita para os Guitar Wolf. É uma curta biografia sobre eles: “From behind the glass case / We believe in the rock’n’roll spirit”. Quanto à tua pergunta; a música será a forma mais primitiva de comunicação; o rock’n’roll, o mais barulhento desses primitivismos.
A definição parece encontrar correspondência em algo que escreveram sobre um concerto dos Von Bondies: “As suas guitarras vão falando e os Von Bondies não se preocupam em traduzir. É como se nada mais interessasse que este momento”. É assim que querem apresentar a vossa música às pessoas? Como se nada mais importasse?
Sim. Os nossos concertos não são homogéneos. Alguns não são tão bons como isso porque, por alguma razão, não somos bons a fingir. Se não nos estamos a divertir, ninguém mais se divertirá. Não somos uma daquelas bandas com estudos do tipo “nesta canção faço aquele movimento com a cabeça. Na próxima mergulho para o público...” Há quem planeie todos os pormenores dos seus concertos. Nós não o fazemos. Isso não invalida, obviamente, que haja actuações em que guitarra e eu saltamos para o meio do público, mas tal acontecerá em cerca de três concertos por cada cem. São momentos raros.
Que poderão vir a acontecer quando em Portugal?
Bem, o nosso álbum (NR: título provisório, “Pawn Shoppe Heart”) deverá ser editado daqui a cinco, seis meses. Depois faremos uma digressão pelo mundo inteiro. O MUNDO INTEIRO! (grita) Incluindo o teu país.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 13)
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