WHITE STRIPES
NÃO É FÁCIL SER A SENSAÇÃO DO MOMENTO
De Detroit chega a última sensação do rock americano, um duo de irmãos uniformizados de branco e vermelho que triunfa entre a diletancia britãnica com o seu minimalismo de raizes. Alheios aos exageros que sobre eles recaem, insistem que não são uma montagem.
No NME de Agosto de 2001, um A&R que em nome de certas editoras americanas tentava assinar os White Stripes, declarava que estes podiam ser os novos Nirvana. Este homem não estava a fazer um grande favor ao duo, ainda que a sua observação não estivesse de todo descabida. Dinamizadores do rock contemporâneo, Jack White (25 anos) e a sua irmã Meg (26 anos) destilam os blues do Delta e os primórdios do folk americano em melodias acessiveis de rock primário mas, no entanto, ricas em matizes. Nascidos em 1997, gravaram até agora alguns singles e três álbuns. Os dois primeiros - "The White Stripes" de 1999 e "De Stijl" de 2000 -, ambos editados pela Sympathy For The Record Industry -, um primitivo e bluesy e outro mais melódico, abriram caminho para assinatura de um contrato de distribuição com a V2 nos Estados Unidos e com a XL Recordings, na Europa. O seu terceiro album, "White Blood Cells", de 2001 - também editado pela Sympathy - alimentou a escrita de todos os jornalistas britânicos e, por acréscimo, daqueles cuja relação com o rock é puramente casual, mas influênciada pelas pautas da "modernidade". Contudo, e ainda que o novo álbum seja inferior aos anteriores, não são nenhum hype. Quem o afirma é Jack White depois de um dos seus intensos concertos.
Como estão a reagir a este exito repentino?
Bem, da melhor maneira que conseguimos. Ainda não conseguimos entender muito bem, mas parece incrível o facto de sermos capa das revistas e dos nossos concertos estarem esgotados. Estamos tranquilos, temos feito as coisas à nossa maneira e não creio que isto nos vá subir à cabeça. É o nosso terceiro disco e acho que a nossa situação é bastante diferente da dos Strokes ou do Andrew WK. No entanto parece-me injusto porque bandas como os Gories ou os Dirtbombs faziam o mesmo há anos, e já trabalham nisto há muito tempo. Não é justo que tenhamos sido nós a ter mais êxito porque muitas vezes eles fizeram melhores coisas do que nós.
Sim, mas essas coisas sempre passam despercebidas. De qualquer forma, penso que tanta adulação pode tornar-se prejudicial, concorda?
Alguém escreveu uma carta para uma revista a dizer algo como "deixem os White Stripes em paz, deixem de tentar fazê-los famosos porque são a minha banda favorita", e a resposta foi algo como "é o nosso trabalho apoiar as coisas boas, é nosso dever promover as boas bandas para que mais gente saiba que existem". Isso é o que parece que têm em mente, mas o que realmente se passa é que ao fim de dois meses aparece outro salvador do rock'n'roll, e isso faz com que o que dizem não seja algo muito especial. Primeiro foram os Strokes, a seguir os White Stripes, depois o Andrew WK e daqui a pouco tempo serão outros. Nós não podemos fazer nada sobre isso. Quando nos tornámos populares no nosso país com o segundo álbum, houve muita gente que nos seguia desde o primeiro e a quem não agradou o nosso êxito. Isso também não está certo e foi muito duro para nós, porque continuamos a ser os mesmos. Há muita gente que adora esse tipo de secretismo estúpido, e se gostam de alguma coisa não querem que saia do seu pequeno circuito, que se tornem populares, e ás vezes algumas dessas bandas tornam-se populares porque são boas, e não me estou a refereir a nós. Os Velvet Underground demoraram muito tempo até que as pessoas se dessem conta da sua grandeza, popularizando-se quando já não existiam. Agora é fácil pôres os Velvet a tocar no carro, e toda agente dirá que são fantásticos, porque já não existem, claro.
Mas os White Stripes correm o risco de se tornarem um mero hype...
Sim, e isso é mau. Mas às vezes é difícil afirmá-lo porque da mesma maneira os Rolling Stones, os The Who ou os Beatles também foram, na sua época, um hype enorme...
Até que ponto é que tudo isso compromete a arte?
Creio que depende de cada pessoa. Nós tivemos umas quantas editoras atrás de nós para nos assinar, mas optámos por aquelas que nos ofereciam garantias quanto ao nosso controlo artístico absoluto. Na realidade não assinamos por ninguém. Apenas licenciámos os discos para distribuição à XL e à V2, e eles não têm nenhum controlo ou influência sobre o que fazemos.
Mas não foi tentador ouvir aqueles valores?
Algumas editoras podem até ter oferecido mais dinheiro, mas nunca teriam entendido realmente o que nós fazemos. Uma major americana nunca nos entenderia, e o mais certo seria largarem-nos ao fim do primeiro disco, por isso não vimos isso como uma opção. Não nos iludimos, nunca vamos ter um hit na América e nem vamos entrar no Top 40.
Falemos da vossa música. Pode parecer simples por ter poucos instrumentos, mas penso que conseguir que uma canção soe realmente bem apenas com uma guitarra e uma bateria tem que ser bastante mais difícil.
Sim, creio que é mais complexo, mas isso é o que sempre tentámos fazer. Não me agrada que se trabalhe para fazer as coisas mais simples, como gravar por computador, afinar com aparelhos estranhos... Não gosto que as pessoas utilizem aparelhos para facilitar o seu trabalho. Para mim é muito mais interessante atravessar as dificuldades, ainda que nos concertos tenha que fazer tanta coisa que nem os consigo apreciar (risos).
Não é muito normal que uma banda que tem apenas dois elementos não utilize electrónica.
Quando eu e a minha irmã começámos, não nos levávamos muito a sério. Aquilo que fazíamos, era algo infantil, mas quando começamos a escrever as nossas próprias canções e vimos que soavam de uma maneira que nos agradava, não achamos necessário incluir mais ninguém. Pensámos que isso nos faria soar sobre-produzidos, e nós queriamos tentar fazer algo muito simples, quase como música infantil, algo com que até as crianças se pudessem identificar. De facto, nesse aspecto conseguimos triunfar. Já me disseram que há crianças de 3 e 4 anos que gostam dos nossos temas. Isso faz-nos sentir satisfeitos, porque se uma criança diz que gosta não está a mentir. Um jovem talvez o fizesse, mas uma criança não. Penso que se incluíssemos mais um elemento perderiamos um pouco dessa espontâniedade, e também não vejo muito sentido em ter 3 ou 4 pessoas a tocar o mesmo acorde. Perderiamos esse "algo". Assim temos algo que nos torna especiais, não há nada de especial na minha maneira de tocar e cantar, e com mais músicos faria com que isso não sobressaisse.
A verdade é que parece que inventaram um estilo próprio.
Tentei aproximar-me o mais possível da música folk, ainda que façamos algo mais chegado ao rock ou ao punk ou que toquemos alto e forte... Para mim continua a ser música folk. O verdadeiro pilar da música é contar histórias sobre uma melodia. Isso vem da música africana, ou até do sul do nosso país. Aí temos as melhores formas de música de todos os tempos: soul, blues, gospel, jazz, rock'n'roll, rockabilly... Tudo isso é folk. Creio que é isso que os seres humanos realmente querem: histórias e melodia. Alguns pensam que o mais interessante são os instrumentos electrónicos, as estructuras complexas, mas eu creio firmemente que o que as pessoas procuram é uma melodia simples que possam cantarolar e que venha acompanhada de uma história com a qual se possam identificar. E não é a coisa mais simples do mundo sentar-mo-nos e escrever uma canção assim. Pelo menos para mim não é. Sempre tentámos ser o mais simples e básicos possíveis, quando tocamos e quando gravamos. Não nos incomodamos em gravar vários takes para que tudo fique perfeito, não acho que faça sentido. Aqueles em que vemos que as melodias e as vozes estão bem, são os que ficam.
De certo modo é como o Jon Spencer ter revitalizado os blues...
Não sei bem. Quando ouvia falar do Jon Spencer não sabia o que dizer porque não tinha os seus discos. Até que alguém me fez ouvir alguma coisa deles. Nunca gostei da comédia misturada com a música. Alguém a rir-se com os blues não tem piada. Fazer comédia com o rock'n'roll é tão fácil. É fácil em qualquer forma de arte. Dizer piadas é muito fácil, mas é preciso ter consciência que essas piadas não vão durar um milhão de anos. No máximo duram dois meses.
Não é complicado o facto de ter a banda com a sua irmã?
Não sei bem... Somos 10 irmãos e nunca fomos uma familia que discute por coisas supérfulas. Sempre nos demos bem, e de certa maneira é bom ter a banda com alguém da minha familia, pois de outra forma existem sempre discussões sobre os assuntos mais estúpidos.
No entanto, chegaram a correr rumores de que não eram irmãos mas sim um casal...
Sim, isso aconteceu várias vezes, especialmente em Inglaterra onde são muito cuscuvilheiros. Aconteceram coisas como alguém vir pedir um autógrafo e dizer "a tua mulher também pode assinar!?" e eu tive que lhe resonder que "bem, se eu fosse casado podia, mas como não sou terás de te conformar com o autógrafo da minha irmã".
Pensa que ouvir alguém dizer sobre a vossa música que são "a melhor coisa desde Jimi Hendrix" vos pode prejudicar mais do que beneficiar?
Acho que foi o John Peel que disse isso. É um elogio muito grande especialmente por vir de quem vem... Quando vimos isso concordámos que teria sido melhor se ele não tivesse dito isso, mas que podes fazer contra isso? Foi um elogio muito amável, apesar de não ter a menor ideia se isso pode ser, de alguma maneira, verdade.
Sente-se seguro como compositor?
Não sei bem. Alguém dos Green Hornets disse-me que tinha ficado impressionado com o tema "We're gonna be friends". Primeiro pensei que estava a gozar comigo, mas depois vi que não, ele apenas disse que lhe parecia incrível como um tema desses tivesse saído da minha cabeça. Não sei, para mim é apenas mais uma canção...
Teve que mudar os seus hábitos por causa do sucesso?
Mudaram um pouco... Depois do concerto de ontem quis dar uma volta e beber uns copos e de repente começaram a aparecer grupos de 20 pessoas a cumprimentar-me e a pedir autógrafos. Isto nunca nos tinha acontecido antes e espero que isso não seja o meu futuro. Não crítico o facto das pessoas me darem esse tipo de atenção, mas espero que isso não se prolongue no futuro. Preferiria apenas acabar um concerto, sair do palco, beber um pouco e ir-me embora.
O que acha da pressão que exercem os meios de comunicação?
Acho terrível. Penso que se uma banda tão boa como os Velvet Underground ou os Stooges aparecesse agora, alguém os apanharia e dava cabo deles antes que pudessem acontecer. Se aparecesse outro Vincent Van Gogh destruiriam-no com centenas de entrevistas na televisão, com toneladas de atenção... Nem teria a oportunidade de fazer nada e penso que isto é extensível a qualquer outro campo como a música ou o cinema. Hoje em dia, no caso da música, um escritor, crítico ou outra coisa qualquer, sabe como foi a história da música. Sabe que o grunge existiu, o punk, o rock dos anos 70, e têm uma ideia na cabeça de como é que as coisas têm que acontecer na música, e por isso esperam que aconteça alguma coisa agora. É por isso que ficam entusiasmados com bandas como os Strokes, os Hives, White Stripes, etc. Tudo bem que apoiem as bandas que são boas, mas não acho adequado que as cataloguem como "o futuro do rock'n'roll" sem antes lhes darem a oportunidade de começar.
Pensa que o facto de serem de Detroit é determinante para a vossa música?
É possível. Às vezes parece que me rodeia a sensação de ser de Detroit e de crescer a ouvir os Gories e os Stooges. Penso que os Gories foram uma das nossas maiores influências porque eram da nossa geração, mas acho que os Stooges foram a minha banda preferida de Detroit. O "Fun House" é o melhor disco de rock'n'roll de todos os tempos. É muito lisongeador fazer parte da história de Detroit, é uma das melhores cenas rock da América. Não merecemos fazer parte desse grupo, o que eles fizeram foi tão seminal, tão perfeito...
Não acha que um dos pontos chave do vosso sucesso reside no facto da produção ser agora mais trabalhada?
É complicado falar sobre isso. Houve gente que disse que este disco é muito comercial, mas isso não foi premeditado. Apenas fizémos aquilo que sempre tentámos fazer: soar diferentes, fazer algo distinto, não repetir sempre a mesma canção. Custa-me afirmar qual é o verdadeiro atractivo dos White Stripes. Prefiro não pensar demasiado nisso, fico demasiado nervoso quando o faço (risos).
Mas houve uma evolução óbvia, tanto a nível estilistico como a nível de composição.
Sim, isso é verdade, ainda que não estou muito certo se se trata de uma evolução. Eu simplesmente sento-me e escrevo uma canção, não tenho uma perspectiva de futuro sobre isso. Temos muitos temas de rock'n'roll para o próximo álbum, mas não estou muito seguro deles. Eu simplesmente gosto de me sentar ao piano ou pegar numa guitarra e escrever canções para mais tarde serem trabalhadas pelos dois. Nessa altura vemos o que se pode fazer com elas para as tocarmos ao vivo e para as tornar nossas.
Porque se vestem apenas de vermelho e branco?
É engraçado o facto de terem dado tanta atenção a uma pequena decisão que tomámos hà quatro anos atrás. Decidimos "vamos fazer isto" e fizémo-lo... Não sei. Quem sabe? Talvez as pessoas precisem de dar atenção à nossa indumentária ou ao nosso parentesco para darem atenção às nossas letras...
O que acha da polémica do Napster? Vocês têm pinta de quem não liga muito a isso, ou será que estou enganado?
É curioso, às vezes depois dos nossos concertos aparecem pessoas que nos dizem que descarregaram todos os nossos temas do Napster. No entanto acrecentam logo: "não te preocupes, vou comprar o disco" (risos). No outro dia demos um concerto e pela primeira vez vi pessoas a venderam t-shirts piratas dos White Stripes. Não me importei muito, pensei para mim "e depois?". Faças o que faças as pessoas vão continuar a fazer isso, não podes evitá-lo, por isso não vale a pena estar a preocupar-me muito com esse assunto. Pessoalmente eu gosto de ter a capa, o desenho, principalmente se é em vinil, não me contentaria em ter as canções no computador. É melhor ter um objecto de que gostes e que possas tocar e ver.
Qual é a sua banda favorita do momento?
É difícil dizer, mas penso que serão os Von Bondies Estou apaixonado pela banda. Tive a sorte de produzir o disco e trabalhar com eles. Também são de Detroit e já andaram em digressão conosco algumas vezes. Gosto muito das suas canções e penso que o Jason Stollsteimer é, neste momento, o melhor compositor de Detroit. Normalmente costumo ouvir música antiga dos anos 30 ou até dos anos 20, blues do Delta e do Mississipi.
E agora o que se segue?
Nada de especial, vamos continuar a tocar e vamos gravar outro disco. Já temos canções de sobra (risos).
JF Leon - Exclusivo Ruta 66/Mondo Bizarre
(Mondo Bizarre # 10)
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