Entrevistas
THE WRAY GUNN
A JUKEBOX DOS THE WRAY GUNN
Finados que estão os Tédio Boys, Paulo Furtado divide o seu tempo entre o projecto The Legendary Tiger Man (a sua one-man band) e os The Wray Gunn. Enquanto "os primeiros" esperam a edição de um disco, os segundos editaram no início do Verão "Soul Jam", uma mistura explosiva de rock, blues e soul. Por ter uma das melhores colecções de discos em Portugal, Paulo Furtado foi submetido á "tortura" da nossa Jukebox.

THE BELLRAYS
"Blues For Godzilla" de "Let it Blast" (Vital Gesture)
Não faço ideia do que seja...
São os BellRays, nunca tinhas ouvido falar deles? O que te parece esta fusão de punk com soul, achas que faria algum sentido nos Wray Gunn?
Só os conhecia de nome, mas nunca tinha ouvido nada. Talvez não fizesse sentido desta maneira, mas nalgum sentido sim. Isto pareceu-me um pouco datado, e têm uma abordagem de guitarras que eu talvez não faria, mas achei-os interessantes.

BOG LOG III
"Showtime" de "Trike" (Fat Possum)
Bob Log III. Eu só tenho o "School Bus", mas não é desse disco pois não?
Não, é do segundo disco, "Trike".
Gostei bastante mais da sonoridade desta música do que disco que eu tenho. No "School Bus" a caixa de ritmos ás vezes é demasiado atabalhoada para os riffs que ele faz.
Sei que gostas muito do catálogo da Fat Possum. Como é que descobriste esta editora, foi por acaso?
Descobri-a através de uma compilação chamada "No More Blues Crap" que comprei no Porto há alguns anos. Depois fui comprando esporadicamente alguns discos. Quando estive em digressão com os Tédio Boys pelos Estados Unidos tive a sorte de conhecer os donos da editora que me ofereceram a colecção toda da Fat Possum em vinil.

JON SPENCER BLUES EXPLOSION
"Afro" de " Exta Width" (Matador)
É o Jon Spencer, mas não me lembro do nome do tema.
Para ti ele é um guru ou nem por isso?
É um revolucionário do rock. Não só ele mas também os outros elementos da Blues Explosion, como o Judah Bauer que é um excelente guitarrista. Eles, a par de mais duas ou três coisas como os Delta 72, Mooney Suzuky e R.L. Burnside, são das coisas mais interessantes que tenho ouvido ultimamente.
Gostas mais da primeira fase dele ou da mais recente?
Gosto muito das duas, e gosto também muito das remisturas, assim como também acho que o álbum de remisturas do R.L. Burnside é um marco na história dos blues.

THE CRAMPS
"Miniskirt Blues" de Look Mom No Head!" (Big Beat)
Cramps, "Miniskirt Blues". Eles ainda são a derradeira banda de rock and roll, e acho que se calhar até mais importante para mim como referência do que o Jon Spencer.
Foram aquela banda que te fez formar uma banda?
Para além de terem sido a banda que me fez formar uma banda, foram eles que me puseram a ouvir música. Aquelas versões que eles fizeram foram sempre muito educativas para uma geração de músicos, que no meu caso, começaram a ouvir uma série de originais que antes nunca nos tinham passado pela cabeça. Isto há muitos anos. São também um dos grandes inspiradores para o facto de eu estar sempre á procura de música nova, antiga, desconhecida.
Achas que as bandas têm uma espécie de dever lúdico, quando fazem versões ou quando citam referências, de mostrar às pessoas outras coisas desconhecidas?
Nos dias que correm acho que é fundamental, porque neste momento a maioria das pessoas não procura nada. Compram o que lhes colocam à frente, não têm referências. Tenho a impressão que muita da música que é feita hoje em dia não tem referências no passado, só tem referências no presente. Acho que se perde algo com isso, porque há muita coisa feita que merece ser ouvida e comprada.

THE MONKEYWRENCH
"Love Is A Spider" de "Electric Children" (Estrus)
Esta é outra que não sei o que é.
São os Monkeywrench, a nova banda do Tim Kerr, a fazer uma versão do Ron Looney.
Eu gosto muito de Jack o' Fire. Dos Lord High Fixers já não gosto tanto e as outras bandas dele não conheço.
Seria interessante para vocês tê-lo como produtor?
Só se fosse como co-produtor, visto que o nosso caminho neste momento é mais pelo hi-fi...
Vocês tinham ideia de utilizar o Matt Verta-Ray dos Speedball Baby, que já tinha produzido os Tédio Boys. Depois do disco terminado achas que ele fez falta?
Acho que falta alguma da rudeza que ele tem para tratar as coisas. É muito complicado quando se está dentro decidires o grau de rudeza a utilizar, mas eu por outro lado não queria um álbum rude, queria um disco hi-fi. Ele vinha apenas ajudar na produção não vinha produzir o disco.
E se fosse o Phil Spector?
Isso era interessantíssimo, claro! Pelo menos daria boas discussões.

RAMONES
"Baby, I Love You" de "End Of The Century" (Sire)
Ramones!
Ramones, Phil Spector, Tédio Boys, Wray Gunn, Ronettes. Onde é que isto tudo anda misturado?
Acho que não anda assim tão misturado. O único ponto comum que isto tem no fundo sou eu e a minha evolução de Tédio Boys para Wray Gunn. Parece-me uma evolução normal como musico.
Achas que o mundo ficou mais pobre com a morte do Joey Ramone?
Mais pobre não ficou porque no final ele já não estava a fazer nada. Claro que tenho imensa pena que tenha morrido, mas não acho que o rock em si, neste momento, esteja mais pobre, dado á actividade que ele tinha, que estava mais ou menos a apadrinhar bandas como os Independents.
É verdade que os Tédio Boys chegaram a tocar na festa de aniversário dele e que chegaram a conhecê-lo pessoalmente?
Sim, e para além disso ele cantou uma música connosco. Nessa noite toda a gente fez versões dos Ramones e ele cantava essa música com eles. Nós decidimos não fazer nenhuma versão, por isso tocámos o "Bah Bah Bah" e ele cantou esse tema connosco. Nos dissemos-lhe que só tinha que dizer "bah bah bah", mas ele só dizia "yeah yeah yeah"...

SCREAMING LORD SUTCH
"Jack The Ripper" de "Munster Rock" (Munster)
Screaming Lord Sutch. É o máximo. Só é pena já ter morrido. Descobri--o na fase Cramps por ter sido referido por eles talvez numa entrevista. Tanto pode ter sido isso como pode ter sido na fase da cassete. Naquela altura ninguém tinha muitos discos e por isso gravava cassetes com várias coisas.

BOBBY FULLER FOUR
"I Fought The Law" de "Mustang Years" (Munster)
Mais uma vez conheço esta versão do "I Fought the Law" mas não me lembro quem a toca.
Bobby Fuller Four. Já tiveste alguma vez alguns problemas com a lei?…
Já, e também ganhou a lei. Nos Estados Unidos passaram-se algumas coisas completamente ridículas, do tipo ir a uma loja de bebidas comprar uma garrafa, mostrar o bilhete de identidade e eles começarem a gozar e a duvidar que aquilo era verdadeiro. Numa daquelas cidades do interior apareceu um xerife a ver o que se passava. O tipo chegou ao ponto de dizer: "Portugal? Nunca vi nada disto. Isso é um país?"

MAN OR ASTRO-MAN?
"Intoxica" de "Destry All Astro-Men!" (Estrus)
Isto é Man or Astro-Man?. Eu tenho todos os discos deles. A nova abordagem que estão a fazer também é muito interessante, só acho que caíram no erro de editarem muitos discos e todos muito parecidos. O meu preferido deles é "Intravenus Television".

CURTIS MAYFIELD
"Superfly" de "Curtis/Live!" (Rhino)
É Curtis Mayfield? Não conhecia esta versão cantada por ele. Tenho para aí umas três versões naquelas colectâneas antigas. Não é um dos tipos que ouça todas as semanas, mas gosto de o ouvir. Dentro da soul as minhas referências vêm mais de colectâneas, não guardo nomes. Às vezes importa-me mais a música do que os nomes.

Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 8)