X-WIFE
Punk-Rock-Electro-Glam
Os X-Wife são a banda de DJ Kitten, o mentor do celebrado Club Kitten que cumpre agora dois anos de vida em Portugal.
Podiam ser uma banda qualquer mas não são. Se ao nome da banda acrescentarmos que é a banda de João Vieira, mais conhecido como DJ Kitten, as coisas tornam-se mais claras. Com um single, “Rockin’ Rio” (Nortesul), a saltar para os escaparates este mês, são a grande surpresa de 2003 no que respeita a bandas portuguesas. Misturam guitarras com sintetizadores analógicos e o resultado é um electro-rock contagiante. As imperfeições a nível de produção são compensadas pela frescura e pela maturidade dos temas, dando bons indícios para o álbum de estreia. “Rockin’ Rio”, “Eno” e “We Are” são o “som do agora”, quando tanto se fala de do rock e do electroclash. Poucas bandas portuguesas lograram estar a fazer a música certa no tempo certo. Os X-Wife conseguiram esse feito. João Vieira contou-nos como tudo começou.
Como é que os X-Wife apareceram?
A banda existe há cerca de um ano. Eu voltei de Londres em Janeiro de 2001, mas antes de ir para lá já tinha tido outras bandas. Uma delas eram os Centerfold, nos quais era só vocalista. Fazíamos brit pop na linha dos Supergrass e dos Blur. Em Londres fiz outra banda com o mesmo nome porque tenho um pouco a mania de aproveitar os nomes de umas bandas para as outras. Mas esses segundos Centerfold eram uma banda muito diferente: mais glam rock dos anos 70, muito ao estilo do David Bowie, dos Roxy Music ou dos Stooges. No que respeita aos X-Wife, eu nunca quis procurar músicos para tocar comigo colocando anúncios no jornal, ou pedindo ao amigo do amigo, que, apesar de não ser a minha onda, até tocava bem guitarra ou bateria. A ideia foi diferente. O nosso baixista, o Fernando (Sousa), tocava guitarra noutra banda, e, depois de falarmos muito sobre música, e porque ele também estava insatisfeito a nível estético com essa banda, começou a tocar comigo. O Rui (Ferreira), conheci-o no Mercedes porque ele estava com uns óculos amarelos à Jarvis Cocker. Eu já estava um bocado com os copos e acho que me meti com ele. Mais tarde acabámos por começar a falar sobre música e ele disse-me que também tocava, e a ideia partiu daí. Eu tinha cerca de 25 a 30 músicas em mini-disc, que tinha gravado em Londres só com uma guitarra acústica. Começámos por discutir como iríamos fazer as coisas, quais as influências, etc. Eu até lhes passei um CD com algumas bandas para lhes dar uma ideia de como gostava que a banda soasse. Nesse CD estavam, entre outros, os Rapture, Clinic, Silvester Boy, Tuxedomoon, Add N To (X) e Von Bondies, mas, a partir do momento em que começamos a trabalhar nos temas, borrifámo-nos completamente para a história das influências...
Do glam ao electro-rock foi um passo...
Eu acho que está tudo ligado. Muita gente que gostou de rock em meados dos anos 90 evoluiu para o electro. O Stuart, que fazia o Club Kitten comigo em Londres, teve a mesma evolução a nível de gostos...
O nome X-Wife também veio de Londres?
Sim, trouxe o nome de lá. A certa altura, comecei a tocar com uma guitarrista e éramos para formar uma banda chamada Ex-Wife, mas nunca passou de alguns ensaios acústicos com um quatro pistas, feitos em casa. Quando cheguei a Portugal, tinha dois nomes na cabeça: X-Wife e Side Effects, mas achei que X-Wife era muito mais forte. Fica mais no ouvido. É um nome “mauzinho”. Quando de fala sobre a ex-mulher fala-se normalmente de uma forma depreciativa. (risos)
Como que aparece a Norte Sul no vosso caminho? Andaram a mostrar a música a algumas editoras?
Não. Eu e o Pedro Tenreiro tínhamos amigos em comum e acabámos por nos conhecer. Ele apareceu num ensaio e ficou surpreendido, porque não estava à espera de uma banda assim. Passados dois meses, disse-me que me ia oferecer um contrato discográfico. Isso é algo que eu estava à espera de ouvir há cerca de sete ou oito anos. Mesmo em Londres, houve pessoas que gostaram das bandas por onde passei e que se mostraram interessadas, mas no final não dava em nada.
A ideia de começarem por um single é tentar fazer como se faz lá fora? Primeiro mostra-se a banda e depois é que se edita o álbum?
Só há pouco tempo é que me dei conta que os singles não são muito habituais em Portugal. Nunca houve um grande mercado para os singles, e agora muito menos. Talvez em vinil ainda vendesse alguma coisa, mas hoje em dia, com os CD singles, talvez seja pior. Em Londres é muito diferente. As bandas continuam a editar singles em vinil que são vendidos por dois euros, porque é uma boa maneira de mostrar as bandas. O nosso single, mais do que um disco com lado A e lado B, é uma apresentação da banda, porque não queríamos estar à espera do álbum. Demorámos quatro meses a gravar os temas porque o tipo do estúdio não funcionava, e muitas vezes cancelava as sessões de gravação. Isso não faz sentido. Nós queríamos pôr alguma coisa cá fora para passar na rádio, para começar a ganhar público, ter alguma exposição nos media. E depois, quando o álbum sair, completa-se o ciclo. Isso é um pouco a escola que eu trago de Inglaterra, de ver como as bandas funcionam: primeiro editam singles e só depois sai o álbum.
E até quando temos que esperar pelo álbum?
Em relação ao álbum, estamos a pensar começar a gravar em Julho para sair antes do final do ano. Temos estado a trabalhar bastante nos temas porque queremos que seja um bom disco. Não queremos ter dois ou três temas bons e o resto ser para encher. Se uma música não está ao nível das outras, não a gravamos. Queremos ter um disco de lados A. Apesar do single não ter ficado muito bem produzido, já que falta um pouco de força, em especial na primeira faixa, achamos que esses temas são bons e vamos incluí-los no álbum.
Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre # 15 - in "Grupos Novos Rock")
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