Entrevistas
YEAR FUTURE
O SOL NEGRO

Year Future, Angel Hair, The VSS e GSL (Gold Standard Labs.). Três bandas e uma editora que têm em comum Sonny Kay, nome relativamente desconhecido mas com trabalho feito. É ele que dá a voz e o talento gráfico aos Year Future, que acabam de editar o álbum de estreia “First World Fever”.

Year Future é a soma da influência de vários elementos vindos de bandas como Angel Hair, Dead And Gone, The Pattern, Moving Units, The Locust ou The VSS, mas com dois pilares principais: Sonny Kay (voz) e Rockey Crane (guitarra). São eles a máquina dinamizadora da banda e que fazem a diferença, assente, por um lado os riffs de Rockey Crane, a transpirar o estilo inconfundível que Roland S. Howard desenvolveu nos Birthday Party, por outro a voz de Sonny Kay que conduz a banda pelos lugares mais negros da vida humana. Depois de dois EP’s que colocaram os Year Future em terreno seguro, o álbum “First World Fever”, faz com que desçam a zonas mais sóbrias. “First World Fever” não é um disco fácil, mas vai crescendo a cada audição, à medida que nos embrenhamos num universo negro, apocalíptico, politizado q.b., mas que tenta sempre mostrar-nos um caminho.

O que queria alcançar com os Year Future que não conseguiu com os Angel Hair ou os VSS? Algo de novo em termos sonoros e estéticos?

Ambas as bandas, mas em especial os VSS, estavam demasiado preocupadas com a estética, a percepção e a apresentação artística de estar numa banda Os Year Future estão mais concentrados em transmitir algo útil às pessoas, algo que seja mais fácil de entender por quaisquer pessoas e não apenas por aqueles que fazem parte de uma cultura underground específica.

Os Year Future são uma banda muito mais política que as anteriores. Acha que hoje em dia a maioria das pessoas tem uma consciência política ou que ainda se interessa por questões políticas, como as que abordam no vosso disco?

Na verdade não sei. A maioria das pessoas jovens e dos fãs de música, em particular neste país, faz, deliberadamente, ouvidos moucos à maioria das coisas que abordamos. Ser-se politizado, nos EUA, é ter o estigma de se ser rígido e direitinho. Pela experiência que tenho de digressões na Europa, dá-me a ideia de que aí as pessoas são mais motivadas para todos os aspectos políticos das suas vidas. Na América a vivência é muito apolítica. Aqui, a cultura e as pessoas dos media dissuadem a população de pensarem politicamente, de fazer alguma coisa ou até mesmo de pensar de uma maneira diferente daquela que é apresentada diariamente na televisão e nos jornais. Da Europa, e não só das pessoas com quem falo, mas também através das que vêm aos nossos concertos, daquelas em casa de quem ficamos ou dos habitantes de várias cidades, tenho a sensação de que, a nível geral, as pessoas resistem mais. A América é, comparada com a maioria dos países europeus, um país muito grande, mas não existe um consenso nem uma atitude nacional. A América é um país diferente dependendo de onde se está. Existem certos locais que estão debaixo do controlo de um pequeno número de pessoas. A ideia geral é que é demasiado grande para mudar e demasiado grande para ter efeito a um nível individual, por isso as pessoas reagem apaticamente. Muita gente não presta atenção à política, desligam-se totalmente dela, é completamente irrelevante nas suas vidas. E mesmo que tenham votado, os seus ideais e aquilo porque votaram não se reflecte na cultura popular nem contribui para mudar o governo. É irónico pois trata-se de um pequeno grupo de pessoas que controla a situação e torna as coisas completamente impossíveis para quem quer que se seja que tente mudar alguma coisa.

Mesmo que as pessoas não entendam as vossas letras é impossível não se aperceberem, ao verem os grafismos - que são seus -, que este é um disco político. Toda a imagem gráfica de “First World Fever” lembram-me os de Winston Smith (artista que criou várias das capas dos Dead Kennedys), acha que esse é outro meio para atingir os fins, para passar a mensagem e comunicar com as pessoas?

Sem sombra de dúvida. Sempre tive em grande conta o conceito de uma banda que tem uma imagem e que a utiliza para se promover em vez de utilizar apenas um logótipo. Tal como os Black Flag e Raymond Pettibon fizeram, estabelecendo um padrão para esse tipo de situação, e que também existiu noutras bandas, como os Dead Kennedys. Os tempos são diferentes e a maioria do que faço em nome da banda não é impresso, destinando-se à Internet, o que é um pouco estranho.

Em termos sonoros notei que, desde os dois primeiros singles, parecem caminhar numa estrada cheia de curvas. É este o som que pretendem ou ainda andam à procura do que querem?

Julgo que “em desenvolvimento” é a expressão adequada. Sinto que o som se vai desenvolvendo com o passar do tempo, mas nenhum de nós tem uma ideia concreta do produto final que pretende. Cada um de nós tem as suas influências e isso afecta o som mas nunca há uma equação… é mais como se fossemos alinhando o que vai surgindo. Posto isto, chegamos à altura em que estamos a começar a escrever música para o próximo álbum. Creio que, em termos sonoros, será muito semelhante às nossas outras gravações porque tempos um som de guitarra muito particular. Fora isso não estamos interessados em repetir o que já fizemos.

Desde que ouvi o vosso primeiro EP que noto (e vocês não o negam) uma grande influência dos Birthday Party, que já vem da época dos Dead And Gone, mas no novo álbum seguem por uma direcção mais negra.

Concordo. A dada altura a mudança deu-se com a modificação da secção rítmica para o álbum. É isso que faz a grande diferença de som entre “First World Fever“ e os dois EPs anteriores. Eu e o Rockey apenas lhes demos sugestões uma vez que não estávamos a tentar soar como no line up anterior. Foi um processo de crescimento natural, mas que, ao mesmo tempo, reflecte o facto de estarmos satisfeitos com o som obtido nos primeiros discos e o acharmos que a abordagem punk rock clássica era um pouco limitativa.

Os Angel Hair e os VSS tinham fama de serem apocalípticos em concerto. No entanto, as coisas parecem ser diferentes com os Year Future…

Gosto de pensar que damos o nosso melhor em todos os concertos, não de um modo caótico – como há dez anos, quando não era invulgar ver uma banda a cair e a destruir o equipamento todo. Já não fazemos isso, já não é tão teatral. É algo mais primitivo, no sentido em que nos imitamos a tocar, mas, em algumas noites, é tudo mais enérgico do que noutras. Para mim os concertos são uma experiência catártica, suada e extenuante. É uma coisa boa e divirto-me bastante. Queremos desenvolver os espectáculos com luzes e vídeo mas ainda não temos uma ideia predefinida do que fazer.

Disse que os concertos são muito extenuantes para si. Como coordena o seu trabalho na GSL com o ser vocalista dos Year Future?

É muito difícil porque, tal como neste momento, venho a casa, entre digressões, por duas semanas e esfalfo-me a trabalhar para ficar a par de tudo. Há pessoas a trabalhar comigo no escritório e quando estou fora dão conta do recado. A própria natureza da editora, no que à manufactura, promoção, etc., diz respeito, permite-nos trabalhar com muita antecedência, possibilitando que as coisas aconteçam por elas próprias quando estou ausente.

Acha que a enorme exposição que os Mars Volta têm tido, e o facto de Omar Rodriguez fazer parte da editora beneficia a GSL e as bandas que edita?

É indiscutível que a sua presença nos trouxe muita atenção que de outro modo não teríamos. Muitos miúdos ficaram a conhecer coisas que de outro modo nunca ouviriam falar. E, ainda que em pequena escala, alguns dos fãs dos Mars Volta estão a tornar-se fãs de outras bandas da GSL. Mas eu diria que o que fazemos é muito confuso para a maioria dos fãs mais “mainstream” dos Mars Volta. É claro que os álbuns deles vendem mais do que quaisquer outros discos da editora mas não estou a ver os fãs da banda a abraçarem completamente o espírito da GSL.


Hugo Moutinho
(Mondo Bizarre -# 26)