Entrevistas
YELLOW W VAN
CAVALEIROS DO ASFALTO
Os Yellow W Van são uma formação lusa com uma arrojada proposta de sobreposição das linguagens do rock, do hip-hop e do funk. Senhores de uma militância que não cai na redundância dos feitos do passado mas que se mantém bastante actual, Ruas (voz), Bruno "Manzk" (voz) e Tiago "Fruntxas" (guitarra) explicaram à Mondo Bizarre o invólucro e o conteúdo da música que tocam. Música que acolhe uma mensagem directa e que extravasa as fronteiras rígidas do formato tradicional da canção.

Onde, quando e em que circunstâncias surgiram os Yellow W Van?
Ruas - Somos da Parede e Oeiras, mas já tínhamos alguns projectos. Depois um amigo comum apresentou-nos. É o sétimo elemento, não toca mas faz parte da banda. A partir daí, juntámo-nos, fomos tocando e tivemos sorte de gravar logo uma maquete. Enviámo-la para alguns concursos e foram surgindo mais cenas. Entretanto, gravámos outra maquete - tivemos para aí 500 cópias - mandámos para todo o lado e fomos tocar a sítios fixes como o festival, Super Bock Super Rock...
Bruno - Vamos fazer três anos em Outubro.

Nota-se no vosso disco de estreia uma clara influência dos Rage Against The Machine num demarcado registo funk e hip-hop. Que outras influências contribuíram para o vosso som?
Ruas - Nós somos seis pessoas, logo ouvimos muita cena, mas é basicamente hip-hop, funk e rock. Desde Rage Against The Machine a Beastie Boys, muita cena do hip-hop, muita cena do funk dos anos 70. Em Portugal, Da Weasel e Zen dizem-nos muito. Se calhar, muitas vezes inspiramo-nos neles.

O discurso presente em "Mundo Perfeito" tem recortes revolucionários mas consegue soltar-se de forma a tornar-se acessível a todos. Como encontram o equilíbrio entre a diversão e o alerta social?
Bruno - Primeiro que tudo, não sei se é revolução. A revolução começa dentro de ti. Tentamos ter um papel consciente na nossa sociedade, tentamos perceber o que se passa à nossa volta, o que se passa numa das vertentes do nosso "mundo perfeito", que é o mundo onde tu vives. E, afinal de contas, o nosso mundo não é perfeito, há muitas discrepâncias em termos de classes sociais e de problemas correntes da sociedade. Através da música é a nossa maneira de nos exprimirmos. Começámos a tocar por gosto, ficámos amigos mas, se calhar, eu e o Ruas conseguimos passar um pouco daquilo que vemos na sociedade através da música. Ou seja, tentamos passar uma mensagem directa e frontal sobre aspectos relevantes da sociedade, que estão presentes no nosso disco. E acho que a música é um veículo para tu passares o teu protesto, a tua denúncia da sociedade.
Ruas - E acho que nós dizemos o que sentimos que está mal, mas também falamos um bocado das cenas boas e as cenas que nos tocam muito, desde a amizade, os nossos amigos, a "yellow family"... Levar a vida na boa, na simplicidade e curtir o dia-a-dia. Lutar contra as cenas que estão mal e aproveitar o que nos rodeia.

Mas vocês chegam a apontar nomes como os de Che Guevara e Martin Luther King. De que modo os discursos apaixonados destas duas figuras encontram eco na vossa música?
Bruno - Há uma música nossa, "Magos do Asfalto", em que dizemos que o poder está dentro de ti, está dentro de qualquer pessoa. Qualquer um de nós pode ser um mago do asfalto. Temos nomes como o Che Guevara, como o Luther King, como o Malcolm X, como o Gandhi, como o movimento zapatista. São gajos que foram magos do asfalto. E porquê? Porque acreditaram nas suas convicções, acreditaram nos seus ideais. Lutaram por eles, independentemente da censura que havia à volta deles. Nunca se preocuparam com o que lhes podia acontecer, muitos deles pereceram e acreditaram em si. E há várias pessoas que, se calhar, têm os mesmos pensamentos, como nós e como muita gente na sociedade portuguesa. Nós pensamos e escrevemos as coisas. Há pessoas que, por receio ou por se sentirem ameaçadas pelo bombardeamento consecutivo do adormecimento que vivemos hoje em dia pela televisão, pelos meios de comunicação, seja pelo que for... As pessoas têm receio de falar naquilo em que acreditam. E essas figuras são importantes porque passaram para o "mainstream" e toda a gente conhece essas pessoas. Os nossos pais são magos do asfalto porque nos transmitiram as ideias deles, transmitiram-nos os conhecimentos deles, foram pessoas que lutaram por aquilo em que acreditavam. Os nossos pais sofreram a censura antes do 25 de Abril, sofreram a repressão e a opressão do regime e lutaram por aquilo em que acreditaram. O simples padeiro pode ser um mago do asfalto. É certo que há horários e nem sempre as pessoas são bem pagas, mas podem contribuir directamente para a sociedade. O poder está dentro de ti, o poder está dentro do próximo, daquela pessoa que tem a mente aberta, daquela pessoa que quiser acreditar no que pensa e no que diz. Essa pessoa pode revolucionar o sistema, pode contrariar.

Os Yellow cantam em português mas têm algumas mensagens quase panfletárias em inglês. Algumas mensagens que são intercaladas...
Bruno - "Panfletárias"? O que queres dizer com isso?

Frases-síntese, frases que apelam a algo. Vocês têm as letras e, a dada altura, aparece uma frase que resume um pouco a ideia daquilo que estão a dizer, que chama mais a atenção, que é um pouco mais apelativa, em inglês. Foi uma mera opção artística ou algo mais?
Bruno - Eu não concordo muito com isso de ser mais apelativo, mais panfletário. Há coisas que realmente sintetizam um bocado a nossa maneira de estar. Essas partes sou eu que escrevo, são mais devaneios meus, não têm nada de interventivo. Se eu falo do funk, digo "funky funky time", é a altura do funk, é a altura de abrir a mente e ser alegre. A nossa opção pelo português tem que ver com o facto de vivermos em Portugal e termos que passar a nossa mensagem directamente. Não concordo que as palavras em inglês sejam mais fortes, porque a tua língua, a maneira como te exprimes, é a maneira mais forte. Se tu falas em português, és mais directo e frontal. Tentamos ser mais conscientes...
Ruas - Falamos da nossa realidade...
Bruno - Falamos da nossa realidade e do nosso meio envolvente, logo falamos em português. E a cena em inglês é mais musical e mais de devaneio, é uma cena que surge, sem muito significado. A parte em português tem um carácter de tentativa de intervenção, tentativa de alerta e de denúncia. As partes em inglês só me dizem respeito a mim, são cenas minhas, não dizem respeito a mais ninguém. Se calhar, traduzem alguma coisa mas não são uma tentativa de alerta das pessoas.

Mas não consideram ser essa uma estrutura adequada e forte para uma canção de protesto?
Bruno - Se me apetecesse cantar em grego, qual era o problema? Ou em latim, francês, ... Nós não pensamos no sucesso comercial, não pensamos numa coisa criada. Percebo a pergunta mas acho que não vale a pena entrar por esse caminho.
Ruas - Toda a gente - e nós não fugimos à regra - é bombardeada com aquilo que vem de fora e quase só ouvem música norte-americana, inglesa. Nós crescemos a ouvir muitas coisas portuguesas mas influenciados também por bandas norte-americanas. E, se calhar, o português é uma cena mais gradual porque é mais difícil. O inglês é uma cena que está muito na cabeça, é mais automático.
Bruno - É mais fácil para mim cantar em inglês. Mas acho que aquilo de sermos bombardeados e de, por isso, cantarmos em inglês, de que o Ruas falou, não é muito relevante.

O que estariam dispostos a fazer, para além da música, para atenuar o estado de dormência da sociedade? E, já agora, há cura para o "coma social"?
Bruno - Qualquer um de nós ainda tem um papel activo, pode tentar fazer alguma coisa para mudar a sociedade. Não somos médicos, não somos juristas, não somos advogados, nada disso. Mas tu, o simples ser humano que está aqui, pode fazer alguma coisa. Nem que seja simplesmente teres uma conversa com uma pessoa, como estamos a ter aqui e que vai passar para uma entrevista. Num café estamos a falar de alguma coisa que se passa neste momento, falamos da Palestina ou seja o que for. Estás a contribuir directamente para a tua sociedade. Nós, como músicos, podemos tocar em algumas causas. Já tocámos em algumas, já tocámos em cenas contra o racismo. É a nossa maneira de nos exprimirmos e de conseguirmos tocar nessas causas. Nós conseguimos descobrir o nosso veículo. Essa cena do "coma social", infelizmente o povo português vive num coma, num adormecimento total. Vive adormecido e cada vez se fecha mais. E porquê? Porque tens uns meios que fazem com que tu te feches. Agora, tu podes tentar dar a volta a isso. Se quiseres descobrir alguma coisa, se quiseres ir para além da informação que te dão, tens os meios para isso. Só que a maior parte das pessoas não quer ir.

Em "Magos do Asfalto" nota-se uma clara referência aos atentados de 11 de Setembro. Como reagem a esses acontecimentos?
Ruas - Foi uma cena péssima mas tentamos perceber por que é que isso aconteceu. Terá sido pela política que os Estados Unidos tiveram sempre de se meter em tudo e mais alguma coisa. Para mim, acho que foi mais um massacre como já aconteceram muitos na História.
Bruno - Somo nós que escrevemos as letras, têm a ver connosco. Tu podes condenar a violência - não somos gajos que apoiam a violência, não dizemos a ninguém para pegar em armas, não dizemos para partir isto tudo. As ideias e as palavras são a tua arma. Mas é como o Ruas estava a dizer: tentamos ter uma ideia consciente do que se passa à nossa volta. E o que é que os Estados Unidos fizeram? O que é que a sua política imperialista fez? Destruiu milhares de pessoas, matou milhares de pessoas. Hoje em dia, os americanos, com o 11 de Setembro, começaram a perceber que não são os donos do mundo e que fizeram muita coisa má. Mas não posso concordar que o extremismo de uma religião possa matar milhares de pessoas.
Ruas - É a mesma cena com o IRA. São questões complicadas. A questão da Palestina também é uma questão complicada. Mas e se fosse em Portugal, se viessem invadir o teu país, o que é que fazias? Eu, se calhar, morria por uma causa, percebes? Se calhar, lutavas com os meios com que podias lutar. O que está a acontecer agora? Gajos que sofreram um genocídio estão, neste momento, a oprimir as pessoas.
Bruno - Sem perceber muito das políticas e porque os acontecimentos se desenrolaram desta forma, para mim, a porcaria começou toda com os Descobrimentos na Europa e foi a partir daí que isto se estragou. E foi aqui deste canto da Europa (Portugal, Espanha) que lixaram a vida de todos.
Ruas - Os Romanos também tinham um Império. Começou aí, começou muito antes.
Tiago - Por isso é que os Americanos sofreram um ataque daqueles.
Ruas - É o duro resultado do abuso do poder. E os Estados Unidos abusam completamente do poder. Não sei se isso pode ficar escrito mas daqui a 100 anos os Estados Unidos afundam-se. E espero que sim. É a minha opinião pessoal, porque já fizeram muito mal. Não quero que as pessoas morram, nada disso. Mas ninguém pode ter o controlo do mundo. Cria-se um Tribunal Internacional para superar aquele tribunal que há e que é uma farsa.

É a impunidade dos líderes...
Ruas - Percebes? E o que é que tu fazes?

Fazes música... O tema "Ciente" contém aquilo que poderia ser a biografia musicada do início da vossa carreira. Nele afirmam que "a vida é dura, dentro da música e fora dela". Que obstáculos encontraram até este ponto?
Bruno - Tens que tocar em concursos para seres conhecido - é logo a primeira coisa.
Tiago - Enquanto banda conseguirmos atingir o objectivo de tocar ao vivo e conseguirmos gravar. Andam sempre muitos interesses por trás disso.
Bruno - É muito triste uma banda portuguesa, como nós ou como qualquer outra, ter que entrar num esquema de competição com outras bandas para tocar em Portugal. Em Portugal não tens circuitos de bandas, tens que entrar em concursos. Nós fomos olhados como "Olha os putos! O que é que aqueles putos vêm cá fazer?". Nós acreditamos no que fazemos, na nossa cena, e estamo-nos a borrifar se conseguimos ganhar ou não. Isso é logo um obstáculo.
Ruas - E os interesses, também. E o facto das editoras só quererem vender. Também digo lá "hoje queres gravar connosco, amanhã pões-nos na rua". Espero que não aconteça nada disso e curtimos muito a equipa com que estamos a trabalhar. Mas a verdade é que acontece na música e fora dela. Hoje dás-me guito, fixe! Amanhã, tchau! Já não vales nada.
Bruno - Acontece a muitas bandas.
Ruas - Bandas e não só - é em tudo. É o que se passa.
Bruno - É como com os Xutos. A certa altura, não acreditaram neles. E eles começaram a singrar, não quiseram acabar e, hoje, ainda estão por cá.

Vocês falam de "utopia" - se não o fazem directamente, ela acaba por vir implícita. Há um livro de Thomas More intitulado "Utopia"... Têm referências literárias que gostariam de apontar?
Bruno - Por acaso tenho esse livro. Mais uma vez, vamos a assuntos particulares da nossa música. Os "magos do asfalto", por exemplo, são uma utopia. Tens que acreditar na tua utopia, tens que criar o teu sonho para poderes chegar a algum lado. Logicamente, a utopia nunca vais alcançar; não é por acaso que se chama "utopia". Mas se te deixas acomodar, se deixas de acreditar que podes acreditar no teu sonho, o que é que acontece? Morres, estagnas, entras num coma social. Acho que é bom para qualquer ser humano acreditar no seu mundo perfeito; no nosso caso, numa das suas vertentes. As pessoas hão-de caminhar com calma - não é preciso pressas - e hão-de acreditar nos seus sonhos. Por que não acreditar nos sonhos, no pensamento mágico? Se calhar, resolvia muitos problemas.

O que têm a dizer do trabalho de produção do Mário Barreiros e do Marco Nunes?
Ruas - São excelentes profissionais, são excelentes pessoas. Receberam-nos muito bem. Nós nunca tínhamos gravado em estúdio, ensinaram-nos muitas coisas. Acreditaram em nós e formámos uma equipa que, enquanto podermos e para os próximos álbuns, espero que seja sempre a mesma.

No vosso disco agradecem a umas quantas bandas portuguesas. Consideram importante uma convivência saudável entre músicos?
Ruas - Nós tivemos uma grande ajuda de algumas bandas, a começar pelos Xutos. Já ensaiámos na sala deles porque não tínhamos sala. E depois, até os Blind Zero - o Marco, que nos produziu e que é dos Blind Zero, emprestou-nos material para gravar. Até os Da Weasel. Nós gravámos com o Mário porque ele estava com os Da Weasel. Tivemos a sorte de nos cruzarmos com os Da Weasel, tocámos no mesmo dia. Entregámos-lhe uma maquete, acho que eles curtiram a cena e entregaram ao Mário. O Mário também curtiu e contactou-nos. E têm-nos dado muito "power" nas entrevistas. Acho que é sempre bom porque há muitas bandas que não se conhece e é a partir de bandas de que gostamos que vamos conhecendo.
Bruno - E depois é triste teres bandas que estão no mesmo nível que tu, que começaram agora, e que não se querem apoiar entre si. Só os movimentos hardcore e hip-hop é que estão unidos. O resto, o rock, não está unido.

E o rock está doente por causa desse fechamento, desse quase autismo? Será por isso ou será por uma apropriação das massas?
Bruno - Ambas as coisas. Primeiro, porque as pessoas não querem acreditar e pensam que tens que saber tocar muito e tecnicamente. O rock não é saber tecnicamente, o rock é da rua. Nós começámos um pouco à nora: alguns sabiam tocar, outros nunca tinham pegado num microfone e nós fomos tocando e aprendendo.

Helder Gomes