ZEKE
ELES ASSASSINARAM-ME (os verdadeiros arquivos criminosos de uma fã)
Um destes dias, passeava eu por Aurora, quando um tipo limpinho, barbeado, género yuppie, numa pickup Toyota, estaciona ao pé de mim, baixa a janela - estou prestes a informá-lo de que não vendo nada - e grita a plenos pulmões:
- ZEKE!
- Huh? - Digo para mim mesma.
- FUCKIN' ZEKE!!! WOOOOOO!!!!! - E acelera noite fora.
Espanta-me que o logotipo dos Zeke, estampado na minha T-shirt, tenha inspirado este acto de solidariedade punk a um tipo que podia ser meu pai, à parte do facto de ser mais novo do que eu. O mundo está cada vez mais estranho.
Exemplo número dois: certo dia os empregados da Tower Records têm "Kicked In The Teeth" dos Zeke no máximo, quanto um certo funcionário público (do estado de Washington D.C., de que Seattle faz parte) completamente fora de si grita: "O que é isto? Eu tenho que ter isso! Há tanto tempo que não ouvia punk rock genuino". O empregado responde-lhe que são os Zeke. O legislador compra o CD e deste então não ouve outra coisa no carro. É claro que não vos posso dizer como é que sei isso!
O que é que faz esta banda quebrar as barreiras sociológicas? Como pessoa sóbria que sou, não devia gostar de Zeke. O vocalista/guitarrista Blind Marky Felchtone torna as drogas tão divertidas que tenho um colapso ao ouvi-lo. "West Seattle Acid Party" e "Mystery Train" (We got some heroin/We got some speed"), são duas das musicas mais populares da banda e até as canções sobre sexo são sobre drogas.
Como mulher não devia gostar dos Zeke. Presumo que os devia achar ofensivos. Preferia que não tivessem um tema intitulado "Slut", mas a sua hostilidade é generalizada e ambos os sexos parecem ser detestados por igual.
Temos então canções de ódio, canções de drogas, canções sobre guiar demasiado depressa e no novo disco "Dirty Sanchez", canções sobre violência e morte. Não vou começar com o discurso apologético de que estão apenas a refletir uma sociedade estilhaçada, quando o mais provável é estarem apenas a refletir as suas próprias paranóias.
O seu arrebatado barulho, um desmembrar de riffs rock em alta velocidade, transcende qualquer réstea de psicologia que nos possa reter. Dizer que os Zeke são rock é chamar rabugento ao Unabomber. Isto não é punk piegas, não é mero entretenimento. É rock apontado à sua própria essência, é a própria vida.
"Dirty Sanchez", é o seu quarto álbum e o segundo para a Epitaph. Não consegui que eles me falassem mal da editora, ainda que do palco a tenham estrilhaçado. Eles insistem em que tudo não passa de ironia. O disco é puro Zeke, apesar de terem retocado alguns sons: thrash feroz e algum trashrock mais tradicional. Temas como "Let's Get Drugs", "Horror at Redhook" ou "Now You Die", são na linha dos anteriores trabalhos da banda, mas conseguiram profanar "Rhiannon" de Stevie Nicks. A voz de Stevie Nicks sempre me deu uma raiva mortal. Fiquei encantada por se ter feito justiça.
Talvez os membros dos Zeke sejam um pouco assustadores. A maneira de tocar guitarra de Flechtone é tão intensa que ele não pode ser bem acabado. O baterista Donny Paycheck ameaça a audiência com o dedo médio, chegando às vezes a desafiar espectadores para lutarem com ele. O guitarrista Abe "Sonny" Riggs tem umaspecto suspeito de pensador. O baixista Mark Pierce não é especialmente assustador, mas é membro dos Zeke.
Uma vez ultrapassada a mística dos Zeke, a banda já não parece nada ameaçadora. Falei com Marky Felchtone, Mark Pierce, e Donny Paycheck durante um bocado no dia em que partiam para o Japão e Austrália (Sonny não participou na entrevista, mas acredito que estava algures a pensar em rock). Os três dispensaram-me mais paciência do que a que eu merecia, já que os estava a impedir de apanhar um vôo para Toquio.
Aqui está a porcaria sobre "Dirty Sanchez".
Agora Morres
Reparei que todos os vossos álbuns anteriores tinham um tema comum. "Super Sound Racing" era sobre hot rods, "Flat Tracker" sobre motas e "Kicked in the Teeth" sobre rock'n'roll, com canções como "Rock'n'roll revolution” ou a versão de "Shout it Out Loud" dos Kiss. "Dirty Sanchez" também tem um tema?
Marky Felchtone - Retirámos a inspiração de diversas fontes estranhas. É um disco escrito após termos passado muito tempo na estrada e não tem nenhum tema em particular. Ouvimos imensas coisas, Makers do início, Turbonegro e The Dirtys. Os Dirtys foram uma grande influência. E fartei-me de ler livros.
Donny Paycheck - Ele ficou obsecado. Começou a comprar montanhas de livros.
M.F. - Há um tema inspirado em H.P. Lovecraft ("Horror at Redhook") que é completamente heavy metal.
Ia-vos falar sobre livros. Penso que muitos rockers são mais literatos do que demonstram. Quais são os vossos livros favoritos?
D.P. - Um dos meus favoritos é "2000 Léguas Submarinas”. Adoro esse livro.
Mark Pierce - Eu gosto de Buckowski, HP Lovecraft. Não tenho um livro favorito.
M.F. - Leio imensa literatura barata e livros sobre crimes reais. Parte do que li sobre crimes reais influênciou bastante o disco.
Qual é o vosso serial killer preferido?
M.F. - Talvez Albert Fish, que era muito peculiar. Foi condenado a morrer na cadeira eléctrica e abreviou a coisa por ter várias agulhas espetadas nos testículos.
Para abreviar a cadeira eléctrica, ou ...
M.P. - Apenas porque ele estava ligado a esse tipo de coisas. Penso que os Valentine Killers [não confundir com a banda homónima] também eram muito estranhos. Seguem-se de Hillside Strangler, que eram dois fulanos e por último [Robert] Ramirez.
Tenho uma fraqueza por Aileen Wournos.
M.F. - Uma mulher serial killer? Nem a brincar!
Aviso aos pais
Deve haver alguma estória por detrás do título do álbum.
M.F. - Não é uma verdadeira estória, é uma sensação. É um acto sexual peculiar que nos foi contado por um tipo nos Murder City Devils.
É algo escatológico?
M.F. - É.
Pensei que me iam contar uma dessas estórias da Tia dos Pearl Jam.
D.P. - O que é isso?
Os Pearl Jam contaram a alguns jornalistas locais que tinham tirado o nome da compota [jam] da tia deles. Na realidade o nome significa outra coisa.
D.P. - Vomitado de cocaina?
Essencialmente.
D.P. - Vai ser o meu novo nome para os Pearl Jam: Vomitado de Cocaina.
Rapazes a mexer
Achei interessante todas as canções do disco serem sobre diferentes indivíduos. O que aconteceu a Goggle Boy ? ("Goggle Boy" ou Dizzy Lee Roth era o baixista original dos Zeke)
D.P. - Está numa prisão federal.
M.F. - Ele entrava em prédios e abria as caixas do correio.
Andava a roubar correio?
M.F. - Bem, ele tinha uma chave. Está afastado do rock.
D.P. - (Na voz de Dizzy) "I hate rock'n'roll!"
M.F. - É uma coisa triste. Ele era uma pessoa especial e escreveu algumas boas canções rock.
Quem são as pessoas das outras canções?
D.P. - Maer e Lawson são corredores de motas; Rodney é o baixista dos Speedealer e Telepath Boy é o Mark.
É telepático?
M.F. - Em maior ou menor grau todos somos telepáticos. Depende da capacide de cada um em desenvolver e utilizar essa faculdade. A minha não está muito desenvolvida. Consigo sentir - é uma canção de relacionamento. Consigo sempre saber quando vai acontecer alguma coisa estranha.
D.P. - Como quando é que alguém vai fazer aparecer uma gaxeta.
O que é perturbante é "I tell you what to think" e não "tell what you're thinking"; "Tell you what to think". Está bem Marky, já entendi a mensagem. Eu mato a Stevie Nicks por ti.
O que dizem os produtores:
Blind Mark Felchtone insiste que os Zeke não são complicados para trabalhar com terceiros e que ele não é assim tão severo com os outros membros da banda. Certos rumores foram longe demais. Fiz a pergunta àqueles que mais de perto trabalharam com a banda: engenheiros de som e produtores.
Stuart Hallerman - Gravámos "Dirty Sanchez" em Junho. Estavam uns maravilhosos dias de Verão, iamos até lá fora, o céu estava azul, mas - e isto é uma estória verdadeira - havia uma núvem negra por cima do estúdio. Apontava-a aos Zeke e eles respondiam: "Sim, é a nossa núvem negra." A partir daqui tudo se torna pior, por isso não vou mais longe.
Jack Endino - Adoro-os, mas obrigaram-me a fazer coisas em estúdio (durante a gravação de "Kicked in the Teeth") que nunca antes tentara. Coisas técnicas. Estava decidido a faze-los felizes. Talvez esse tenha sido o meu primeiro erro. Depois de tudo ser feito e dito acho que consegui alguma coisa. A certa altura, eles estavam a discutir tanto, que me fartei, e disse-lhes que me ia embora se não se calassem e comessacem a tocar. Nunca tinha feito semelhante coisa.
Conrad Uno - Havia alturas (durante a gravação de "Flat Tracker") em que parecia que a banda ia acabar no estúdio. Muitas vezes Mark (Felchtone) ficava a olhar para o chão durante meia hora porque havia qualquer coisa imaginária que estava errada na gravação. Todos os vocalistas têm uma certa insegurança e ele tem tonelas. Expressa-a de modo perfeitamente furioso. Não se esqueçam de dizer que eu só tenho coisas boas a dizer deles.
Dawn Anderson
Exclusivo Backfire/Mondo Bizarre
Tradução de Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 2)
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