ZEN GUERRILLA
IT'S ROCK'N'ROLL!!!
Prontos para incendiarem os palcos portugueses já em Novembro, os Zen Guerrilla explicaram à Mondo Bizarre a sua poderosa receita sonora de blues, soul e punk. Eis o que se esconde por detrás das sombras do sol!
O título do vosso álbum anterior, "Trance States in Tongues", é sem dúvida curioso. Lembraram-se deste após uma rave?
Não! "Trance States in Tongues" é o resultado da junção de dois termos gospel. O estado de transe é um estado em que as pessoas sobre a influência do gospel começam a pregar. É um estado de transcendência.
"Shadows On The Sun" também significa alguma coisa em especial?
Não. Apenas gostei do título.
Fale-nos um pouco do processo de gravação no estúdio deste novo álbum. Conseguiram finalmente captar a vossa energia ao vivo num disco?
Sim, de certa forma captámos um pouco do sentimento "live" neste álbum. Em estúdio, ocupamos o espaço como se estivessemos em cima de um palco. Não queríamos que fosse diferente das outras vezes. Retirámos todos os obstáculos e colocámo-nos o mais próximo uns dos outros que podíamos.
Acha que os outros álbuns têm menos dessa energia do que este?
Não sei se têm menos energia, apenas acho que não a captámos tão bem como neste álbum. A nossa relação com o Jack Endino cresceu bastante o que nos deixou muito à vontade uns com os outros. Ele tornou-se mais um elemento da banda.
Foi por isso que escolheram trabalhar novamente com ele?
Sim, precisamente por isso. O Jack não era alguém de quem apenas conhecíamos os discos produzidos. Já tínhamos trabalhado juntos e éramos amigos. Estávamos à vontade para dizermos "vai-te foder" uns aos outros. Ele é uma excelente pessoa.. Tem uma mente fantástica, um coração enorme e senso de humor.
A fusão que fazem entre blues, soul e garage-rock é extremamente poderosa e original. Acha que o vosso lado blues/soul torna as coisas mais interessantes a nível criativo?
Sim, existem mais elementos que nos ajudam a criar diferentes sons e levam-nos em diferentes direcções. Quanto mais influências tens, mais coisas extrais daí, e isso apenas vai tornar a tua música mais poderosa.
Todos os temas de, "Shadows On The Sun", tem a mesma linha sonora, excepto, "Evening Sun". Podemos esperar mais canções como esta no futuro?
Bem, isso é dificil de responder porque eu não sei como vai ser o futuro. Mas sim, nós tentamos sempre fazer coisas tão variadas quanto podemos e divertirmo-nos com elas, a diversidade apenas vai tornar as coisas mais interessantes.
Embora já contem com oito anos de existência e cinco álbuns no bolso, foi só após terem assinado pela Sub Pop que tiveram um maior reconhecimento e consideração por parte da imprensa e do público. Foi difícil permanecerem juntos todo este tempo e manter a formação original?
Sim, é certo que tivémos os nossos altos e baixos, mas no fim de contas dá-nos gozo fazer música. A impressa e tudo o resto não é tão importante como divertirmo-nos a fazer música, e foi essa a razão que nos juntou. Não começámos a tocar para nos tornarmos famosos, começámos sim a tocar para fazer boas doses de barulho, o que ainda fazemos...
Mas foi difícil sobreviver monetariamente?
Tivémos que batalhar, mas todos estivémos na universidade, todos temos outras capacidades e trabalhamos. A banda não nos suporta financeiramente, trabalhamos, tocamos e vamos em digressão quando podemos. No fundo aproveitamos ao máximo a nossa situação. Esperamos que um dia possamos viver somente da música, mas agora temos de fazer o necessário para sobreviver.
Os Zen Guerrila mudaram-se de Delaware para Filadélfia e mais tarde para São Francisco. Ao longo dos tempos, concordaram sempre nas vossas opções, conseguiram sempre conciliar os vossos interesses pessoais para o bem da banda?
Não. Mas de Delaware para Filadélfia foi uma mudança de trinta minutos. A universidade estava a trinta minutos de Filadélfia, logo isso não foi propriamente uma grande mudança. E de Filadélfia para São Francisco tivémos em conta os interesses das nossas namoradas e futuras mulheres, as quais andam na universidade aqui na Califórnia. Esse foi um dos motivos pelo qual nos mudámos para São Francisco e pode dizer-se que foi uma decisão consensual uma vez que não interferiu de forma alguma com os nossos interesses pessoais.
Gostam de São Francisco? É esse o sítio ideal para viverem e criarem música?
Neste momento sim. Também gostava de estar noutros sítios, mas de momento é o ideal. É um sítio agradável, o tempo é óptimo e é uma cidade linda para nela se viver.
Também vivem juntos para além de estarem na banda. Isso não conduz por vezes a alguns atritos?
Não. Nós somos amigos e vivemos numa casa grande, por vezes nem sequer nos vemos, portanto não discutimos. Todos temos as nossas próprias vidas e somos como irmãos. Bem, talvez haja alturas em que discutimos e estamos mais exaltados mas temos uma boa relação, somos amigos e respeitamo-nos mutuamente. Os dias duros acabaram, isso aconteceu quando éramos miúdos. (risos)
Discutiam uns com os outros quando eram miúdos?
Claro. Nós costumávamos andar em digressão nos porta-bagagens de carrinhas. Mas agora as condições são bem melhores, já não acampamos em mesas de piquenique nem pedimos comida.
Acha que hoje em dia estariam dispostos a fazer esse tipo de sacrifícios?
Com esta idade?
Sim.
Não! Os tempos em que pedia comida no McDonnalds acabaram.
Tornou-se vegetariano, não?
Exactamente. (risos)
Como é que conheceu o Jello Biafra?
Costumava escrever-lhe quando era miúdo e estava na universidade. Nós fomos trocando correspondência ao longo dos anos, e quando me mudei para São Francisco telefonei-lhe e ele apareceu num dos nossos concertos. Ele ajudou-nos a montar o equipamento e propôs-nos uma colaboração.
Tornaram-se amigos?
Sim, sim. O nosso baterista, Andy, está agora a tomar conta do gato dele. Nós somos mesmo bons amigos, ainda conversamos e vemo-nos ocasionalmente. Ele é muito boa pessoa.
Vocês são conhecidos pelas vossas devastadoras prestações ao vivo. Pode-se dizer que o palco é o habitat natural dos Zen Guerrila?
Sim, definitivamente. Nós chamamos ao palco o nosso "tempo de trabalho" pois foi aí que começámos. Assim que subimos ao palco voltamos de novo a ter 17/18 anos, altura em que começámos a banda, e é algo de mágico.
A diversidade das vossas influências e da vossa própria sonoridade também toca diversos tipos de público. Acha que o vosso público é composto por diferentes tipos de pessoas?
Sim, penso que agradamos a quem quer que goste de música poderosa e de rock'n'roll. O rock'n'roll é a criança bastarda de todos os tipos e formas de música. Nós tocamos as pessoas que apreciam bom rock'n'roll. Os punks gostam de rock'n'roll, as pessoas normais gostam de rock'n'roll, os miúdos gostam de rock'n'roll. O rock'n'roll é universal. É uma necessidade. Penso que a boa música é tão importante como o ar.
Num concerto em Espanha, o ano passado, prestaram tributo a Curtis Mayfield, e neste álbum fazem o mesmo em relação a Marvin Gaye. Com as suas raízes tão imersas nos blues e na soul do lado do seu pai, e no rock e na pop do lado da sua mãe, foi mais fácil alcançar este tipo de sonoridade? No início eram algo mais experimentais...
Sim, quando começámos estávamos mais interessados em explorar diferentes formas de música e fazer barulho, tocarmos free jazz. No fundo, dar mais groove à música e experimentar sons. Depois de termos aprendido as lições que precisávamos de aprender através do free jazz, rhythm'n'blues, da soul, pudémos compreender as diferentes texturas da música soul e do blues.Não sei se isto faz sentido... É apenas um processo criativo que usámos, é como um puto a brincar com marcadores, eventualmente vai aprendendo qualquer coisa.
Foram experimentando até encontrar uma identidade própria?
Sim, nós queríamos dar algo de volta aos blues. Os blues influenciaram tanta coisa, nós queríamos manter viva essa forma de arte, e a melhor forma de o fazer é contribuir com algo para isso, para pessoas como o Curtis Mayfield e o Marvin Gaye.
Falou no jazz como forma ideal de experimentação. Teve formação jazzística?
Não, o meu contacto com o jazz foi-me dado através dos meus pais. Nos anos 50 e 60 os jovens ouviam jazz, era a música alternativa da altura, e os meus pais têm muitos discos de jazz, logo eu cresci a ouvir John Coltrane, Miles Davis...
Acha que o seu interesse por jazz o leva a dar maior importância à parte técnica?
Eu acho que esses músicos eram excelentes "performers" juntavam à técnica o "espiríto". O Miles Davis e o Coltrane foram influenciados pelos verdadeiros "performers", portanto tens que te perder na música para as pessoas realmente sentirem aquilo que fazes, para ser verdadeiro e real. É melhor não ficar muito preso à parte técnica, é bom cometer erros, belos erros.
As coisas simples soam por vezes muito melhor...
Sim, há uma complexidade na simplicidade. Tal como o Miles Davis disse a todos os seus músicos antes de tocarem o "Bitches Brew" "esqueçam tudo aquilo que aprenderam, toquem como se não soubessem tocar". É isso que procuro fazer.
É aí que se toca com o coração e não com a mente, ou pelo menos, mais com o coração?
Exactamente. As pessoas querem ouvir coisas vindas do coração, isso é verdade, só dessa forma as tocas realmente...
No "Trance States In Tongues" têm uma versão do "Moonage Daydream" do David Bowie, e também fazem versões dos Iron Maiden, do Chuck Berry ou do Sam Cooke. Gostam de dar um cunho pessoal a esses temas?
Sim. Nos ensaios sempre nos divertimos a tocar versões, acrescentando um pouco da nossa personalidade a essas canções. É muito bom fazer versões, todo o trabalho está feito, mas há sem dúvida que respeitar os criadores originais.
Apesar de se dizer frequentemente que o "rock está morto", bandas como os Makers, os Delta 72 ou mesmo os White Stripes, contribuem para manter a chama do rock acesa. Podemos colocar os Zen Guerrila na mesma lista?
Sim, exactamente! Nós conhecemos todos esses miúdos, somos todos amigos, tentamos todos fazer o mesmo, manter o rock'n'roll vivo. Ele está vivo onde quer que haja público.
Acha que num futuro próximo o rock voltará a vingar junto do grande público?
Sim, quer dizer, eu não sei se tem irmãos, mas isso demonstra-nos claramente que há sempre uma geração que está dentro de uma coisa, e a próxima geração vai-se revoltar contra isso. Portanto sim, penso que vai haver uma próxima geração de pessoas que apreciam rock'n'roll. Quando era novo não andava a ouvir aquilo que passava na rádio ou na televisão, estava mais ocupado em descobrir artistas de blues e a ouvir o primeiro álbum dos Led Zepellin pela primeira vez, e já se passaram vinte anos.
Sim, acontece muitas vezes ouvirmos e descobrirmos certos artistas muitos anos depois de eles terem tido os seus tempos de glória. Ou por outro lado veja-se casos como um Tim Buckley ou um Nick Drake que acabaram por alcançar mais sucesso agora que no seu próprio tempo...
Sim, o mesmo aconteceu com o Jimi Hendrix. A carreira dele apenas durou três ou quatro anos, e hoje em dia tem sucesso em todo mundo. E há miúdos por aí que redescobrem coisas antigas. Por exemplo, no outro dia ia no autocarro e estava lá um miúdo com uma t-shirt dos Stooges. Há toda uma geração de miúdos a descobrirem os Stooges e os MC5, os New York Dolls, os Ramones e o rock'n'roll new wave de Nova York, e também blues.
Desenha todas as capas dos discos, t-shirts e posters da banda. Estudou design ou é autodidacta?
Estudei design gráfico na universidade.
Fale-nos um pouco das suas principais influências em termos de designers gráficos e movimentos artísticos.
Gosto do movimento Dada inicial de Max Ernst e Francis Bacon. Também, gosto do criador de letterings Neville Brody, que considero fantástico.
O que o atrai especialmente no movimento Dada? O seu lado nonsense?
Gosto muito da parte gráfica, da sua simplicidade. Graficamente faz sentido para mim. Foi um movimento artístico mas teve sem dúvida muito de design gráfico. Penso que grande parte da origem do design gráfico moderno tomou forma na arte dita mais requintada, e concretamente o nascimento do design gráfico ocorreu desse movimento. A nível de desingers gráficos também gosto muito do Kozik, e do Coop, penso que são artistas fantásticos. O Art Chantry faz também trabalhos espantosos.
Onde podemos encontrar a sua arte?
Neste momento estou a trabalhar num site na internet, mas foram também publicados alguns livros com trabalhos meus. Houve um livro que saiu intitulado "Next: The New Generation of Graphic Designers". E há também um outro livro "Mixing Messages" com alguma da minha arte.
Disse que estava a trabalhar num site na internet. Isso poderá ser uma boa forma de expandir a sua arte. Os Zen Guerrila apenas têm o site da Sub Pop...
Sim, exactamente. Estou a trabalhar agora nisso, estará pronto antes do novo disco sair. Aliás, tenho andado o Verão todo a trabalhar nisso, portanto estará prontíssimo antes de partirmos para digressão.
Qual então a sua opinião acerca da Internet como meio de divulgação?
Penso que a internet é um bom meio para as pessoas comunicarem e trocarem informação. É muito bom podermos comunicar tão facilmente com pessoas de todo o mundo, mas acho que não deve ser usada como uma ferramenta para fins comerciais. Não acho que seja uma boa forma de comprar e vender coisas. Deve ser sim utilizada como uma ferramenta para comunicação, para se expandir arte, música e informação.
E não acha que há muita coisa supérflua, muita porcaria na Internet?
Sim, mas há muita porcaria em tudo, há porcaria por todo o mundo, nos nossos jardins. Temos de contornar a porcaria para chegar às coisas boas. Isso acontece com tudo: revistas, livros, música, comida, televisão, filmes, shampô. Tem a ver com o que escolhes fazer. Podemo-nos sentar e queixarmo-nos da vida durante cinquenta anos, e dizer mal da sociedade, mas a única forma de mudar a sociedade é identificar o que está mal e tentar tornar as coisas melhores. É também por isso que dedico a minha vida a fazer arte e à música.
Acha que a arte pode mudar o mundo?
As pessoas podem mudar o mundo. E há várias dimensões de artistas. Penso que o Martin Luther King foi um artista fantástico, os seus discursos eram verdadeiramente artísticos.
Houve alguns políticos que o marcaram especialmente?
Sim. Para mim, certos políticos não são políticos, são líderes. Pessoas como o Muhammed Ali, o Malcom X, pessoas que lutaram por aquilo que acreditaram, esses são os verdadeiros políticos. Mesmo o John Lennon. Podia fazer uma lista enorme de pessoas que usaram a sua influência e a sua capacidade para comunicarem para mudarem o mundo. O Picasso também, por exemplo aquele seu quadro, o Guernica, tocou gerações de pessoas. Os seus quadros e o seu trabalho artístico são mais poderosos que qualquer discurso. Falam por si mesmos, são intemporais, são eternos.
É verdade que estão a pensar reeditar os vossos primeiros álbuns?
Sim, temos andado a falar disso, espero que isso venha a acontecer ainda este ano.
Se tivessem que classificar a vossa banda, que termo utilizariam? Motown Punk?
Sim, já fomos classificados como "Hardcore Motown" na primeira classificação que fizeram de nós em 1991. Não sei muito bem classificar-nos, sei que é rock'n'roll.
Sim, não descurando o vosso lado soul e blues...
Não sei, é difícil classificar as coisas, acho que classificar a minha música seria auto-indulgente, e há tantas pessoas que escrevem que fazem isso melhor que eu. Sei que é rock'n'roll.
Não gosta de se auto-analisar?
Não, prefiro passar o tempo a criar que a analisar-me. Faço-o em privado, se não o fizesse seria um robot.
Os Zen Guerrila vêm a Portugal já em Novembro.O que podemos esperar deste concerto?
Muita energia, nós estamos entusiasmados por podermos ir tocar a Portugal pela primeira vez. Vai ser 100 por cento , é uma boa forma de fazer amigos de uma forma rápida. Portanto vamos ter a missão de dar o concerto mais poderoso que pudermos para as pessoas de Portugal.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 8)
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